Reflexos da operação santidade

Itaara vive a incerteza sobre o futuro do comando municipal

Autor: Denzel Valiente e Jaqueline Silveira

Itaara vive a incerteza sobre o futuro do comando municipal

Foto: Eduardo Ramos (arquivo/Diário)

Incerteza é uma das palavras que define o cotidiano dos moradores de Itaara desde novembro do ano passado, quando o município, de pouco mais de 5 mil habitantes, virou notícia após a Operação Santidade resultar no afastamento do então prefeito Silvio Weber (PSB), padre licenciado. Ele é investigado por supostos direcionamento de contratos de licitação e desvio de verba pública. 

Deflagrada a operação, Weber deixou o comando do Executivo por decisão judicial, e a então vice-prefeita, Salete Desconzi, também do PSB, assumiu o cargo. Quase seis meses depois do estopim dos acontecimentos, qual é o sentimento dos itaarenses?

Na manhã da última terça-feira, nas ruas de Itaara, a primeira impressão era de uma aparente tranquilidade dos moradores, que caminhavam pelo Centro, e dos comerciantes. Contudo, sentimentos de dúvida e incerteza pairam sobre o ar.

Para o aposentado Ari Vidal, de 71 anos, apesar de a situação estar mais calma, não é possível garantir que continuará assim:

 – Estão reclamando bastante, principalmente da limpeza e da segurança, do cuidado. Mas eu penso que agora está melhorando. Tem gente que acha que o Silvio vai voltar, mas não posso afirmar se vai ser bom. O povo fica em dúvida – afirmou ele.

Quem compartilha da mesma opinião é o produtor rural Amauri Varaschini, 63 anos:

– Ela (prefeita interina) começou há pouco, então vamos ver o que vai fazer daqui em diante. A cidade está mais calma, esperamos que melhore.

Outro morador que preferiu não se identificar fez reclamações sobre os cuidados que a cidade vem recebendo. Para ele, o pior problema está na falta de segurança, que tem dois principais fatores: policiamento e iluminação pública. Isso porque agentes da Brigada Militar permanecem no município até a meia-noite e, por isso, durante a madrugada, a cidade fica sem policiamento. Já na praça central, a questão da iluminação também preocupa. O local está com as luzes desativadas devido ao risco de choque iminente.

Outra moradora que também fez críticas à atual gestão é a prestadora de serviços Aline Alves, de 40 anos. Para ela, os problemas que ocorrem em Itaara começaram ainda na gestão de Silvio Weber.

 – O pessoal vem à noite e vê que está tudo escuro, não tem segurança nenhuma. A passagem de caminhão do lixo está bem aquém do que deveria. Onde eu moro, numa estrada a 2 km da faixa, passa o lixo apenas nas sextas-feiras. A sinalização também é um problema, as pessoas se perdem. Em seis meses, não tem como fazer uma mudança completa, já que tem um processo, mas de início está se encaminhando – avaliou Aline.

“Não sou contra ninguém”, diz prefeita interina, ao falar pela primeira vez

Ao longo dos quase 180 dias à frente do Executivo, professora Salete Desconzi, Tita como é conhecida, sempre evitou fazer manifestações públicas e falar com a imprensa. Após tentativas frustradas de fazer contato com ela ou com sua assessoria, a reportagem foi diretamente à prefeitura para tentar entrevistá-la. Depois de conversar com sua equipe e aguardar por cerca de 30 minutos, Tita aceitou falar com a reportagem, em seu gabinete, porém exigiu que não fossem feitas fotos e vídeos. Logo no início, a prefeita afirmou que tem feito tudo de forma correta e que não pode errar.

 – O que nós temos que fazer tem um prazo. São 180 dias da melhor forma, tudo correto e certo. Nós temos esse receio, esse medo, pois a gente não pode errar. Talvez, as coisas demorem um pouco mais para acontecer, mas é tudo dentro do tempo. Eu sei que isso está causando problemas e é bastante desgastante – disse Tita, sobre as críticas que tem recebido por parte dos moradores e de vereadores.

Durante a entrevista, estiveram ao lado de Tita, a secretária extraordinária Maiara Pavão, o procurador jurídico Roger de Castro e a assessora superior Kelen Soares. Por mais de uma vez, recorreu a eles para que a ajudassem nas respostas.

 Ela também disse que não sabe o que ocorrerá após os 180 dias de sua gestão, já que o prefeito afastado Silvio Weber poderá retornar. Sobre a falta de policiamento após a meia-noite – fato relatado pelos moradores à reportagem –, a prefeita apenas disse que é um assunto de responsabilidade da Brigada Militar. Neste momento, o procurador interveio, informando que está em andamento um termo de cooperação entre BM e município para que seja aumentado o policiamento.

 Já quanto à iluminação pública, o procurador afirmou que uma empresa foi contratada recentemente para cuidar da área. A iluminação da praça foi desativada, pois apresentava riscos de descargas elétricas e, segundo a gestão, os trâmites correm para que uma reforma seja realizada.

 Quando questionada sobre a CPI que investiga a atuação de seu marido na prefeitura, Tita ficou em silêncio. E novamente o procurador interveio, afirmando ser uma “acusação infundada, uma acusação que não existiu de fato”. Ela se limitou a responder que “sim” e “ é isso aí”. A prefeitura pontuou, ainda, que não gosta de exposição e de ser assunto em redes sociais.

 – Eu tenho que ficar tranquila, porque no momento que, eu for entrar nessa questão de ficar me defendendo, de ficar brigando, eu vou me desgastar. Eu tenho um foco: nós precisamos trabalhar, precisamos fazer as coisas acontecerem e elas estão acontecendo dentro da normalidade. Eu tenho uma equipe que me assessora, me ajuda, e isso me deixa mais tranquila – justificou.
Embora em um cargo público, Tita disse que não quer se desgastar, nem ser notícia em jornais, as quais chamou de “polêmicas”.

 – Não sou contra ninguém, não quero o mal de ninguém. Nesses 180 dias, eu quero trabalhar, essa é a minha missão e ponto – finalizou a prefeita.

Disputa política dentro do PSB 

A disputa política em Itaara não é entre adversários de outros partidos. Ela é travada dentro do próprio PSB. O prefeito afastado Silvio Weber, por exemplo, afirma que as denúncias envolvendo sua administração não passam de “armação política” e que será comprovada que não há “nenhuma irregularidade”. Ele, que foi alvo de seis CPIs no Legislativo entre 2021 e 2022, acusa o ex-presidente da Câmara Robertson Tatsch (PSB), Mano Zimmermann como é conhecido, pelas denúncias, que, por sua vez, sempre negou. A relação também de Weber com sua vice, Tita Desconzi, agora prefeita interina, não era das melhores.  

Um dos capítulos mais recentes dessa barulhenta briga política, que acaba prejudicando a população do município, é a criação, em março, de uma nova CPI. Desta vez, para apurar se o ex-prefeito Dudu Rosa, marido de Tita, era quem despachava como chefe do Executivo. O proponente da abertura de investigação é outro vereador do PSB, Oberdan da Rosa, que foi secretário de Infraestrutura de Weber. Ele alegou que quem foi eleita, junto com o prefeito, foi Tita e não Dudu Rosa, portanto não tem legitimidade para despachar em seu lugar no Executivo.

 – A prefeita permitiu que seu esposo, sem ocupar nenhum cargo público, esteja atuando como prefeito eleito dando ordens a funcionários – afirmou o parlamentar, à época, sobre o motivo do pedido da CPI.

Também na última terça-feira, a reportagem foi à Câmara de Vereadores para conversar com o presidente da Casa, Edson Vasconcelos, outro integrante do PSB, mas ele não estava no Legislativo. O Diário tentou contato por mensagens e ligações, mas o político não retornou no dia. Já nesta sexta-feira, ele foi procurado, mas informou que só poderia atender mais tarde, mas não retornou novamente. Contudo, em março, quando falou ao jornal, Vasconcellos frisou que a situação causa constrangimento.

 – É até vergonhoso para a gente que é do mesmo partido. Achamos que seria uma administração top – disse ele, frisando que há uma paralisação dos serviços, gerando o descontentamento da comunidade.
Enquanto as disputas e polêmicas envolvendo os socialistas seguem a todo vapor, os moradores continuam com suas rotinas sem saber ao certo o que ocorrerá nos próximos dias. Para maio, há a possibilidade do retorno de Weber ao Executivo, o que pode tornar o cenário político da cidade ainda mais conturbado.

MP oferece denúncia, mas está sob sigilo

O Ministério Público já fez uma denúncia à 4ª Criminal do Tribunal de Justiça (TJ) do Estado, já que Weber tem foro privilegiado por ser prefeito. Contudo, a imprensa não teve acesso ao conteúdo da mesma, uma vez que está sob sigilo. 

O advogado do prefeito afastado, Bruno Paim, disse que, por enquanto, a defesa não foi intimada, entretanto, ele já teve acesso à parte da denúncia – no caso referente à acusação de que Weber teria sido o suposto “mentor intelectual” do roubo à casa do ex-presidente da Câmara Mano Zimmermann em busca de equipamentos que guardariam provas contra o prefeito afastado.

 – No entanto, não existe uma prova robusta de envolvimento. E sim, algumas trocas de mensagens que o Ministério Público acredita que sejam ligadas ao caso. A nossa tese de negativa de autoria seguirá em sua defesa – afirmou o advogado.

Sobre os contratos de licitação, Paim não teve acesso. O advogado tentou reverter o afastamento de Weber, mas o pedido foi negado pela 4ª Câmara Criminal, na semana passada, sob o argumento, segundo ele, de que o prazo de 180 dias está se esgotando – 17 de maio – e terá de se aguardar o término da suspensão determinado pelo TJ. 

Paim destacou que está “esperançoso” no retorno do prefeito ao cargo e irá esperar o fim desse prazo. Entretanto, caso o MP renove o pedido de afastamento, recorrerá ao tribunais superiores. Enquanto isso, ele prepara a defesa de Weber.

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