Mariana Francisco Ferreira tinha 34 anos. Carioca, natural de Niterói, formou-se em Direito na UFRJ. Em 2018 iniciou preparação para ingresso na carreira da Magistratura. Um de seus sonhos – concretizado em 2023. Aprovada em concurso público para juíza de Direito do Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul. Jurisdicionou nas Comarcas de Parobé, Porto Alegre, São Luís Gonzaga e Sapiranga. Até o implacável Destino interromper seu percurso neste plano.
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Porque o tempo – impiedoso, inclemente – urge, iniciou a concretização de outro sonho. Talvez de igual intensidade ao de ser juíza. Quiçá maior: ser mãe. Adiado até então, para que a Magistratura se concretizasse. Submeteu-se a procedimento de retirada e congelamento de óvulos em clínica de reprodução assistida. Técnica de riscos pequenos. Em regra. Mariana encontrou a exceção. Perdeu a vida em plena juventude. Talvez na melhor fase de sua existência. Gestando o sonho de parir. Na semana do Dia das Mães. Bárbaro destino.
Mariana tinha nome e sobrenome. Filiação e CPF. Conhecemos sua história. Reverenciamos sua trajetória. Dela não nos esqueceremos. O que não conhecemos são as histórias de milhares de mulheres que adiam seus sonhos pelo fato de serem mulheres. Ingressos em universidades retardados pela vinda prematura de filhos. Abandono de empregos para cuidados com pais (e até sogros e sogras) velhos. Fim de rotas profissionais acompanhando a evolução no mercado de trabalho de maridos. Gestações postergadas para um melhor momento profissional – o caso de Mariana.
Cuidados com filhos e genitores idosos são funções humanas. Culturalmente incumbidas às mulheres. Nada de natural há nessa atribuição. É a força da cultura. E que carrega um fardo inabalável a muitas mulheres: a derrocada dos sonhos e da construção de histórias mais ricas em experiências e vivências. E isso, há que se repetir, nada de natural carrega consigo. Quantos homens conhecidos abandonaram seus empregos para exercerem o cuidado de velhos pais? Quantos recusaram avanços profissionais para manutenção da rotina da prole? Quantos largaram empregos para acompanhar andanças laborativas de suas esposas?
A história das mulheres é colorizada com tintas de mortes evitáveis. Mortes físicas. Morte de sonhos. Uma série construída com capítulos de algumas conquistas – e uma sucessão de lutos, renúncias e perdas. Os homens morrem mais, sabemos. Morrem e matam mais. Seus sonhos, todavia, não são diferidos em nome dos outros (e das outras). Seus sonhos são vividos. Ao reverso da história de incontáveis mulheres, que protelam a felicidade por seus afetos. Que a inconcebível partida prematura da jovem juíza impulsione reflexões acerca de como lidamos – todos e todas – com nossos planos de vida. E possamos envidar esforços para a mudança de cultura que tanto esperamos. Onde as mulheres, qual os homens, possam ter escolhas mais livres. E seus sonhos logrem ser vividos. De forma plena. A seu tempo. O tempo do hoje. O inegociável tempo.