Foto: Vinicius Becker (Diário)
Morro da Antena
Ao andar por Santa Maria, de norte a sul, é possível observar ao longe uma das belezas que contornam a cidade: seus 11 morros, que ajudam a compor a identidade e a história do município. Com formatos e tamanhos variados, localizados, principalmente, na Região Norte, eles abraçam o horizonte e recordam o tempo em que o próprio município levava o nome de “Boca do Monte”. Para alguns, são apenas molduras da paisagem; para outros, são o quintal de casa.
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Entre os morros mais conhecidos da região, destacam-se o Morro da Antena, o Morro do Elefante, o Morro do Cechella, o Morro dos Marianos, o Morro do Cerrito, o Morro da Pedreira e o Morro do Monumento do Ferroviário, além de elevações mais distantes, como o Morro do Santo Antão. Atualmente, as nomenclaturas técnicas utilizadas seguem as diretrizes do Serviço Geológico do Brasil – que atua como a principal referência nacional na área das Geociências.
O percurso
Os caminhos para esses gigantes de pedra e terra funcionam como portais para lugares desconhecidos por muitos santa-marienses. Para chegar ao topo, é preciso combinar paciência ao auxílio de quem conhece os atalhos. São trilhas que se escondem atrás de curvas fechadas e estradas que parecem não intermináveis. As vias, comumente estreitas, são formadas por trechos de paralelepípedos ou de terra batida, onde o asfalto desiste de subir.

Durante o percurso, a exuberância do encontro entre a Mata Atlântica e o Pampa se evidencia em detalhes: ipês roxos, orquídeas e bromélias dividem o protagonismo com cactos, postos à sombra de árvores centenárias de angico. Os galhos extensos invadem as ruas e roçam nos veículos, como se a natureza fizesse questão de avisar que ela é a verdadeira anfitriã.
No alto, os olhos se perdem na imensidão. Santa Maria, vista de cima, é um mosaico de prédios e curvas sinuosas. Casas antigas misturam-se a novas construções, exibindo uma cidade em crescimento, de sonhos e nostalgia. No topo, sente-se a magnitude do município e, simultaneamente, a própria pequenez humana. Ali, a Santa Maria da Boca do Monte é feita de passado, presente e futuro; feita por aqueles que partiram e pelos que, por algum motivo, ainda permanecem. A cidade, localizada no coração do Estado, é feita, sobretudo, por vizinhos do morro.
"Existe tranquilidade e a paz da boa vizinhança"
Entre as histórias que sustentam esses montes, encontra-se a do administrador de prédio Isaias Aires, 51 anos, e sua esposa Erica Aires, 43, que construíram seu refúgio no Morro da Antena, localizado no Distrito de Santa Antão. O local, um dos pontos mais elevados da cidade, recepciona os visitantes com um vento intenso e temperaturas que teimam em baixar. A imensidão azul do céu parece abafar o ruído costumeiro da cidade, cedendo espaço ao canto tímido dos pássaros e ao movimento da fauna silvestre que habita a espreita da mata.

Este cenário motivou o casal a deixar um apartamento no Bairro Nossa Senhora de Lourdes, na área central, há 25 anos, para fixar residência na face norte, onde o limite entre o pátio e a floresta é meramente sugestivo. Em um ambiente que consideram seguro — longe do imaginário de perigo que muitos atribuem à região –, criaram os filhos, adquiriram outros três terrenos na região e redesenharam sua rotina junto à comunidade.

– Eu acho melhor aqui. Existe tranquilidade e a paz da boa vizinhança. As pessoas têm mais comunicação, é seguro. Deixo tudo aberto e nunca me roubaram nada – conta Isaias.
Enquanto o administrador de prédio, que percorre as trilhas locais desde sua juventude, em 1990, observa a cidade com o olhar de quem aprendeu a ler os montes, Erica dedica-se a um pomar particular. São mais de 50 árvores frutíferas que ditam o ritmo das estações na mesa da família. Para o casal, a vida no morro é uma troca invisível: se você o entende, ele lhe oferece proteção e bons frutos.
"Aqui encontrei espaço para o meu sonho"
Essa mesma relação com o solo encontra eco há alguns quilômetros adiante, no Morro do Cechella. Na Rua Canário, Marli Moura, 66 anos, e Ari Rosalino de Oliveira, 77, provam que o endereço de uma pessoa é, antes de tudo, onde o coração fincou raízes. Marli chegou ao morro há duas décadas em busca do próprio lar, quando os recursos financeiros eram escassos. Já Ari, ex-caminhoneiro, trocou a agitação da cidade pela lida na terra após conhecer a companheira.

Juntos, eles mantêm uma pequena chácara às margens da encosta, onde plantam banana, batata, mandioca e abóbora, além de árvores frutíferas de enxerto como jabuticabas e caquis. No local, cultivaram, ao longo dos anos, sua própria história.
– Esse lugar era tudo o que eu queria. Quem me conhece, sabe que eu sempre dizia que queria mexer na terra, e aqui encontrei espaço para o meu sonho – comenta Oliveira, enquanto desfruta de bergamotas colhidas no quintal aos pés do morro.
Em contraste à permanência do casal, existe uma face do Morro Cechella composta por uma realidade de abandono. Caminhar pelo local é atravessar um corredor de ausências: casas de janelas e portas trancadas estampam cadeados enferrujados, engolidos por uma vegetação oportunista que avança sobre os jardins. O êxodo, intensificado pelas chuvas intensas de 2024 e o risco, deixou marcas visíveis de quem teme a força dos morros. Mas, para Marli e Ari, a ligação com o solo é uma questão de identidade que supera o receio dos deslizamentos.
"Somos todos uma única família"
Enquanto no Morro Cechella a luta é pela permanência, no Morro do Monumento do Ferroviário, no Bairro Itararé, o esforço resume-se em manter viva a história da cidade. O monumento é coroado por um obelisco, representando a história coletiva de uma Santa Maria que nasceu e cresceu sobre os trilhos. Erguido em 1934, esse guardião de pedra observa, do alto, o progresso da cidade e os resquícios da era ferroviária pujante no passado.

A ascensão ao mirante é um exercício de fôlego e descoberta. Para alcançar a vista mais privilegiada do Itararé, é preciso encarar os cerca de 130 degraus de uma escadaria que, embora sofra com o peso do tempo, sustenta a curiosidade de quem se propõe a vencê-la. A cada patamar superado, a cidade se revela em novos ângulos, tornando-se menor conforme a perspectiva do horizonte se amplia.
Logo aos pés do primeiro degrau, uma placa oferece as boas-vindas com um lembrete: “Uma comunidade orgulha-se e preserva seus patrimônios”. A frase funciona como um resumo da resistência e do zelo daqueles que, lá do alto, cuidam não apenas de suas casas, mas da memória viva de Santa Maria.
É neste cenário de importância histórica e beleza natural que vive a agente educacional Marta Terezinha Fragoso, 43 anos. Sua vida é um espelho fiel da trajetória do morro. Filha de ferroviários, Marta desembarcou no local aos quatro anos de idade. Suas memórias são feitas de dois lados: guardam o pavor do desmoronamento na década de 80, que quase soterrou a casa da família, mas também o calor de uma infância vivida entre nove irmãos nas encostas do morro.

Hoje, da janela de casa, Marta observa o horizonte com o carinho de quem viu a cidade se transformar. Mesmo com as marcas do tempo na estrutura, ela acredita que o morro é, por natureza, um lugar de acolhimento e celebração.
– As pessoas que não conhecem, eu indico virem conhecer, porque é um ótimo lugar para distrair e tomar um chimarrão de tardezinha. Os vizinhos aqui se conhecem há 40 anos, somos todos uma única família – resume a moradora.
A fala de Marta traduz o espírito de acolhimento que define o cotidiano local: nos morros, a vida transcorre de forma mais simples. Ali, a vizinhança preserva o costume de se conhecer pelo nome, mantendo conversas à beira dos portões e trocando cumprimentos cordiais ao final de cada jornada de trabalho.
A rotina de quem escolhe as encostas para viver é ditada por essa proximidade. Moradores como Marta, Marli, Ari, Isaías e Erica, encontram nos morros um senso de pertencimento e uma calma que o ritmo urbano acelerado já não oferece. Para eles, as encostas não são apenas um conjunto de casas junto à natureza, mas um espaço para manter suas essências.
Santa Maria da Boca do Monte
A relação da cidade com seus montes é tão intrínseca que está na origem de seu nome. O professor aposentado da UFSM, James Pizarro, recorda que o nome original, “Santa Maria da Boca do Monte”, surgiu em 1809. A denominação era uma composição do oratório jesuítico com a expressão indígena 'caá-yuru' (boca do mato), traduzida pelos espanhóis.

Pizarro revelou ao Diário que, em sua época como vereador, foi um dos defensores do nome completo.
– Argumentei que era um nome lindo e ímpar. Perder o 'Boca do Monte' nos tornou apenas mais uma Santa Maria em uma lista de tantas outras cidades brasileiras. Perdemos nossa marca geográfica e histórica.
Ainda que o nome oficial tenha sido encurtado, a alma da cidade permanece guardada por suas elevações. Como bem traduziu o cantor Beto Pires, na canção “Santa Maria”, em versos que hoje servem de acalanto para quem vive sob a proteção dessas encostas:
"Santa Maria me guarde estes montes
Que em suas fontes há som de oração
Santa Maria da Boca do Monte
Pra ti meu canto, acalanto e canção..."