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Santa Maria tem a maior queda de beneficiários do Bolsa Família em 15 anos

data-filename="retriever" style="width: 100%;">Foto: Renan Mattos (Diário)
Sandra Valéria Machado precisa passar o mês com apenas R$ 212, que são repassados pelo programa federal
 

Em 15 anos, o Brasil viu uma geração de famílias, até então à margem do mínimo de consumo e da dignidade, ganhar acesso ao que, para muitos, não passa do básico. Surgia, em 2004, por meio de lei federal, o Bolsa Família - programa da União durante a gestão Lula (PT) - que viria a reunir em um único benefício outros auxílios que já existiam, mas que se davam de forma dispersa na época do governo FHC (PSDB).

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Nascia, há uma década e meia, a tentativa de desfazer ou, ao menos, minimizar a expressão "Belíndia", tão propagada no meio intelectual e por quem se afeiçoa à literatura para definir o nosso país. A palavra surgiu, ainda na década de 1970, pelo economista Edmar Bacha - e que viria a ser um dos pais do Plano Real - para sintetizar o Brasil. Ou seja, a pobreza extrema da Índia e os avanços e a riqueza da Bélgica.

Mas qual o tamanho e a abrangência do Bolsa Família nesses 15 anos? Levantamento feito pelo Diário com base em números do Ministério da Cidadania e da própria prefeitura aponta, basicamente, para três cenários. No primeiro deles, quando o programa começou, teve-se um boom de beneficiados nos primeiros três anos: 2004, 2005 e 2006. 

Depois, na sequência, outra fase que mescla um pouco da primeira (com grande número de contemplados) e, por consequência, uma estabilização. Ou seja, de 2009 a 2014, houve uma linearidade no total de famílias auxiliadas pelo benefício.

E, agora, mais recentemente, de 2015 até o presente ano, uma queda no número de pessoas ajudadas pela União. Dentro da medição do termômetro de dependência do Bolsa Família, desde 2004, este ano é o que tem o menor número de beneficiados. Até outubro são, por enquanto, 6,1 mil famílias contempladas. O que não quer dizer que se tenha tido uma saída voluntária dessas pessoas do programa, explica o secretário de Desenvolvimento Social, João Chaves. Há vários fatores, como perda de prazo e descumprimento de certos requisitos, como a permanência da criança ou do adolescente na escola.  

O valor médio do benefício, no país é de R$ 187 por família. Em Santa Maria, fica em R$ 160.

DIVISOR
Entusiasta do programa e do quão importante ele se mostra para quem sequer tem um cartão com acesso a uma instituição bancária com o próprio nome, Chaves acredita no papel transformador do benefício. Ele explica que o Bolsa Família atua em um tripé que observa as demandas sociais (políticas que superem, por exemplo, a vulnerabilidade social), educacionais (acompanhamento da frequência escolar das crianças) e de saúde (atualização do cartão de vacinação): 

- O Bolsa Família é, sem dúvida alguma, um programa que muda a história de uma família a médio e longo prazo.

O professor de Ciências Políticas da UFSM José Carlos Martines enfatiza que o programa obteve o reconhecimento de organismos internacionais pela contribuição no combate à pobreza quanto aos ganhos junto aos indicadores de desenvolvimento humano:

- O Bolsa Família não é nem nunca foi esmola. É um programa muito bem-sucedido. Além de ser barato e extremamente eficiente. Ele é essencial. Quem o critica é quase sempre a classe média, que tem uma visão desumana dos mais pobres.

OUTROS NÚMEROS
Ainda dentro do Cadastro Único da prefeitura há, atualmente, 21.639 famílias que vivem com renda mensal menor que R$ 499 _ o que corresponde a meio salário mínimo nacional. O que quer dizer que são cerca de 60 mil pessoas aptas a serem contempladas com algum programa social, de acordo com informações do Executivo. 

Recursos do programa alimentam o comércio da prefeitura

Por mês, o Bolsa Família injeta R$ 1.001.376 em Santa Maria. O recurso, que sai dos cofres do Ministério da Cidadania e que cai na conta das 6,1 mil famílias, faz a economia girar. É dinheiro que possibilita a compra no pequeno comércio local de regiões periféricas de bairros e vilas da cidade.

Situação que é verificada no dia a dia pela microempresária Drieli Gonçalves, 30 anos, que é moradora e dona de um minimercado no Bairro Divina Providência, região norte do município. Com apenas um ano de funcionamento do estabelecimento, ela fala, ao natural, do quão representativo é o programa no negócio da família:

- Posso dizer, seguramente, que 70% dos nossos clientes são pessoas que recebem o Bolsa Família. O pico do movimento, aqui, é em dois momentos: começo e fim de mês, que é quando as pessoas, que têm essa ajuda, vêm comprar.

GANHO LIBERTADOR
Além da verba que fomenta a economia local, há outro simbolismo que o depósito representa para as mães de família: o desvencilhamento da figura masculina, aponta o secretário João Chaves.

- Muitas mulheres são dependentes de uma figura masculina, quase sempre agressiva. É a largada para se mudar a própria realidade - diz.

Além disso, os valores se avolumam ainda mais quando se coloca na conta a cifra contabilizada pelo chamado Benefício de Prestação Continuada (BPC), que chega a R$ 8 milhões mensais para Santa Maria.

O BPC é concedido, por exemplo, a idosos (de 65 anos em diante) e para pessoas com impedimentos mental, intelectual ou sensorial.


style="width: 100%;" data-filename="retriever">Foto: Renan Mattos (Diário)
Drieli Gonçalves é dona de um minimercado, na região norte da cidade, que tem mais de 70% do movimento concentrado por beneficiários do Bolsa

R$ 50 POR SEMANA 
Desempregada há sete meses, Sandra Valéria Machado, 38 anos, recebe por mês a ajuda de R$ 212. O valor leva em conta três filhos - Everton, 3, Gabriela, 5, e Thalia, 12 - de um total de cinco. Mas os outros dois não entram na conta porque um deles tem 20 anos e trabalha, e o outro, de 17, abandonou a escola. Ainda assim, a matemática da vida - ela abandonou os estudos ainda no Ensino Fundamental - a fez ter um regramento espartano "já que são R$ 50 por semana".

A situação apenas não é mais crítica porque Sandra conta com a ajuda do filho Rafael Machado, que serve na Ala 4, antiga Base Aérea, e que doa à família uma cesta básica por mês.

PENEIRA
O programa foi, nos últimos anos, alvo de uma peneira pela União. A gestão Temer (MDB), com a operação pente-fino, tirou o benefício de 5,2 milhões de pessoas. Agora, com Jair Bolsonaro (PSL), o governo olhou com lupa para a realidade local. Em Santa Maria, 364 benefícios foram cortados. Isso se deu em decorrência de descumprimento de condicionalidades ou de superação dos requisitos necessários para seguir no programa.

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