Conheça Ana Paula Moreira Rovedder, uma das 10 homenageadas do 1º Prêmio Ana Primavesi

Foto: Gabriel De David (Diário)

Em reconhecimento aos diversos avanços femininos no desenvolvimento da ciência no país, o 1º Prêmio Ana Primavesi homenageará 10 profissionais de Santa Maria e região que se destacam nos eixos pesquisa, ensino e extensão. A cerimônia de premiação está marcada para o dia 31 de julho, no Theatro Treze de Maio. 

A iniciativa do Grupo Diário tem apoio de UFSM, UFN, Ministério Público da Educação, Coordenadoria Regional da Educação, Câmara de Vereadores de Santa Maria (Promotoria da Mulher), OAB SM, Comissão Municipal da Mulher, Delegacia da Mulher, Theatro Treze de Maio, Sinepe, Adesm, Dieniffer Portela, Habitué, Casa da Audição e Due Fratelli.

Nesta reportagem, conheça a história da engenheira florestal, doutora em Ciência do Solo e professora da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Ana Paula Moreira Rovedder. 

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Família

Filha dos comerciantes Valmir Antonio Rovedder (in memoriam) e Noeci Moreira Rovedder, Ana Paula nasceu em 1º de maio de 1976 em Santa Maria. Ao lado da irmã, Fabiane, cresceu no Bairro Nossa Senhora de Fátima, guardando belas lembranças no local. 

A minha infância foi muito boa. A Santa Maria da década de 1980 era mais pacata e tranquila. Nós brincávamos na rua com os vizinhos e andávamos de bicicleta. Foi uma infância saudável e com muitas brincadeiras ao ar livre e na natureza. Passei minha adolescência também aqui em Santa Maria. Mas foi um período mais difícil devido a uma situação grave de doença na família. Eu tinha 14 anos quando meu pai adoeceu, e a minha mãe teve que assumir a economia da casa. Eu assumi junto com ela os cuidados com meu pai e foi assim até meus 32. Foram mais de 17 anos cuidando dele – relembra Ana Paula. 

Entre os hobbys e paixões da santa-mariense, estão dançar, ler, assistir a filmes, torcer para o Grêmio e principalmente, estar na natureza. Neste ambiente, que é sagrado para a pesquisadora, as vivências se tornam ainda mais prazerosas ao lado do marido, o professor universitário Ricardo Bergamo Schenato, 39, e da filha do casal, Bibiana, de apenas 11 anos:

Eu gosto muito de estar na natureza, no meu sítio aqui em Santa Maria com a minha família, aproveitando a paisagem linda da Quarta Colônia. De viver esses momentos com o meu marido, minha filha, minha mãe e amigos. Eu também gosto muito de trabalhar, orientar os meus alunos, produzir pesquisas com restauração e das nossas atividades de campo, onde a gente conhece muitos locais do Rio Grande do Sul, do Brasil e até de outros países.

Em 2023, Ana Paula, Ricardo e Bibiana em uma viagem para Paris, na França. Na segunda foto, a pesquisadora realizando trabalho de campo durante a pandemia de Covid-19, em 2022. Fotos: Arquivo pessoal

As lembranças da trajetória profissional também envolvem experiências únicas na vida de Ana Paula e que ganharam outro sentido após o nascimento da filha, em 2 de junho de 2013. 

– A Bibiana é um presente. É uma menina que entende muito a vida corrida que os pais levam. Ela está há quase um ano longe do pai, que está como professor visitante na França e ela entende tudo. Desde que estava na minha barriga, ela vai para as saídas de campo do grupo de pesquisa. Tenho histórias de aventuras com a Bibiana em que eu dirigi carros de pesquisa grávida, entre outros registros. Então, ela nasce nesse contexto de pesquisa, ciência e diálogo diário entre eu e meu marido. Como a fruta não cai longe do pé, ela adora a biblioteca da escola. Eu era assim (risos). Ela é muito curiosa com tudo, mas ela já demonstra vocação para outra área, que é a das ciências humanas. Ela adora história e disse que quer ser jornalista – afirma ela, sorrindo. 

Grávida de Bibiana, Ana Paula seguiu trabalhando e desenvolvendo pesquisas em 2012 Foto: Arquivo pessoal

Propósito

O amor pela pesquisa, ensino e extensão sempre esteve presente na trajetória de Ana Paula, mesmo quando ela nem sonhava em ser a profissional que é hoje. Por volta de 1995, o conselho de uma amiga a levou a ingressar no curso de Engenharia Florestal da UFSM. Conforme Ana Paula, foi nesse caminho que ela encontrou o verdadeiro propósito:

Eu sempre gostei de estudar. A minha mãe diz até hoje que ela nunca precisou me mandar estudar ou fazer os temas (risos). Eu sempre tive uma curiosidade típica de quem gosta disso. Então, a pesquisa foi um caminho natural para mim. Na metade da minha graduação, eu pude, com o incentivo de professores, pensar na carreira de docente. Fui me programando, organizando para fazer um mestrado, um doutorado e quando surgissem oportunidades, um concurso para docente. Eu prestei vários concursos, mas nessa trajetória, eu nunca abri mão da área que eu queria, que era a recuperação de ecossistemas degradados.Embora difícil porque, na época, essa área da ciência não era bem desenvolvida nas nossas universidades, eu consegui trilhar. 

Registro feito em 2018 quando Ana Paula participou de uma expedição ao Xingu e trocou conhecimento com colegas da etnia Ikpeng

Pela UFSM, Ana Paula também se tornou mestre em Agronomia em 2003 e doutora em Ciências do Solo em 2007. Para ela, que busca desenvolver com maestria cada eixo do tripé acadêmico, a melhor parte do processo está em sair para o campo com os alunos. Os momentos são descritos pela pesquisadora como “ricos em conhecimento e experiências práticas”. Antes de retornar a UFSM como docente, ela fez parte da história de outras instituições:

A primeira universidade em que fui docente foi a Universidade Estadual do Rio Grande do Sul, a UERGS. Eu prestei concurso ainda durante o doutorado e fui aprovada. Foram quase 5 anos lá. Em 2009, eu prestei concurso para o campus da UFSM de Silveira Martins, que hoje não é mais um Campus. Assumi como docente em 2010. Quando abriu concurso para o Departamento de Ciências Florestais, que é vinculado ao curso de Engenharia Florestal, também participei. Fui aprovada em primeiro lugar. Em 17 de março de 2011, eu assumi como professora do Departamento – conta Ana Paula, animada. 

Entre as iniciativas desenvolvidas nesta trajetória e que orgulham a pesquisadora, estão a Rede Sul de Restauração Ecológica e o Núcleo de Estudos e Pesquisas de Recuperação de Áreas Degradadas (Neprade) da UFSM. Atualmente, a iniciativa fundada em abril de 2011 conta 19 pesquisadores de diversos níveis do Ensino Superior, orientados por Ana Paula e Ricardo. 

O núcleo era uma ideia que já vinha sendo gestada desde a minha participação no campus de Silveira Martins entre 2008 e 2010. Como fazíamos pesquisas no corredor ecológico da Quarta Colônia, já vínhamos falando em organizar isso a partir de um grupo de pesquisa. Em 2011, quando ingressei no Departamento de Ciências Florestais e já com essa ideia amadurecida, projetos em andamento e parcerias, registrei o grupo no diretório de grupos de pesquisa do CNPQ. E desde então, passamos a trabalhar intensamente com projetos junto a empresas, Fapergs e o próprio CNPQ. Também na extensão com dias de campo, cursos e oficinas. Somos o primeiro grupo de pesquisa do Rio Grande do Sul cujo foco é a restauração ecológica de ecossistemas – destaca.

Ana Paula em um curso no sítio Caetés, que é propriedade da família Foto: Arquivo Pessoal

Prêmios

Aos 48 anos, Ana Paula compartilha mais semelhanças com a personalidade que inspirou o prêmio do Grupo Diário do que simplesmente o nome. Enquanto docente do Departamento de Ciências Florestais da UFSM, ela convive com as histórias e feitos de Ana Primavesi, tendo o trabalho em defesa da natureza e a liderança feminina em espaços ainda majoritariamente masculinos como principais inspirações.

Em setembro de 2021, Ana Paula teve a trajetória profissional reconhecida pela Fundação de Amparo à Pesquisa no Rio Grande do Sul (Fapergs), sendo agraciada com o prêmio “O Futuro da Terra” na categoria “Preservação Ambiental”. Em 2024, a indicação na primeira edição do Prêmio Ana Primavesi trouxe um misto de sentimentos. 

Eu fiquei sem reação só de ouvir o nome Ana Primavesi, que foi quem norteou a minha vida. Mais do que um ícone para Santa Maria, UFSM e o Brasil, ela está relacionada diretamente com a minha formação, minha área e a graduação que eu escolhi. Então, foi emocionante (receber a indicação). Quase não acreditei na hora. Mas no momento em que eu fui absorvendo o impacto, passou um filme na minha cabeça – conta a pesquisadora, em entrevista ao Diário.  

Ao pensar no futuro, Ana Paula deseja que mais meninas e jovens se sintam realizadas ao acreditarem nos próprios sonhos:  

Eu sou uma pessoa realizada como mãe, profissional, orientadora, companheira e cidadã, porque sinto que consigo fazer coisas que são importantes para mim. E que julgo também serem importantes para a comunidade em que vivo. Então, sou muito agradecida a vida. Sempre me disseram que se eu buscasse, as portas iriam se abrir. Então, a mensagem que eu deixo para tantas meninas e mulheres é de que jamais desistam, que lutem por aquilo que dá sentido à trajetória, seja profissional ou em qualquer outro setor da vida.

Ao lado das mulheres da família, Ana Paula deseja continuar lutando pelos sonhos Foto: Arquivo pessoal


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