Quando o telefone toca, na sala de operações do 4º Comando Regional do Corpo de Bombeiros de Santa Maria, do outro lado da linha alguém pede ajuda. Pelo menos é o que deveria ser. Mas, na prática, muitas vezes, não é o que acontece. Diariamente, a corporação recebe entre 50 e 300 ligações, dependendo do dia da semana, turno ou até da temperatura.
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Cerca de 40% dos chamados recebidos pelo número 193 – contato de emergência dos bombeiros – são trotes, percentual que preocupa pela frequência desse tipo de ligação.
– O tempo despendido para o atendimento de um chamado falso é vital para que possamos atender o mais rápido possível os chamados reais. Jamais deixamos de atender as ocorrências reais. Caso estejamos deslocando para um atendimento falso, demoraremos para atender os chamados reais, mas não deixaremos de fazê-lo – ressalta o major José Carlos Sallet de Almeida e Silva, do 4º Batalhão de Bombeiro Militar.
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Brincadeiras de mau gosto podem prejudicar quem realmente precisa de atendimento. Afinal, enquanto as equipes são deslocadas, ocorrências reais podem deixar de ser atendidas ou a espera por ajuda pode ser maior em função da distância. O Corpo de Bombeiros de Santa Maria atende, em média, de 15 a 20 ocorrências por dia.
Saúde em risco
A situação no Serviço de Atendimento Móvel de Urgênica (Samu) não é diferente. Conforme a Central Estadual de Regulação, que fica em Porto Alegre, a atendente é preparada e consegue identificar e classificar a maioria dos trotes recebidos pelo número 192 antes de encaminhar a ambulância. No momento em que a chamada fica caracterizada como trote, a ligação é encerrada.
A ambulância chega a ser enviada quando o conteúdo da ligação é mais elaborado, e o médico regulador não consegue identificar o trote. Nesse caso, o veículo fica indisponível para atender alguma chamada verdadeira e necessária. O que surpreendeu a unidade de Santa Maria é que, nos últimos 20 dias, os trotes aumentaram. Somente nessa semana, a equipe recebeu entre três e quatro trotes por dia.
A maioria das ligações é feita de telefones públicos. Em um dos casos, o chamado partiu de um aparelho público que fica na ERS-509, a Faixa Velha de Camobi. A mensagem de celular do Samu comunicou sobre a ocorrência. O aviso foi enviado pela Central, que recebeu uma ligação na Capital. A equipe embarcou na ambulância, foi prestar o atendimento, mas, ao chegar no local, não havia ninguém.
De acordo com o responsável técnico pelo serviço na cidade, Thiago Palhares Severo, deslocar uma equipe implica custos e tempo.
– O que nos traz maior preocupação é ter um atendimento grave e a nossa ambulância estar ocupada em um atendimento falso. Dependendo de um lugar para o outro, demanda tempo. A gente só consegue confirmar que é trote quando chega no local. Há casos de ligações relatando acidente ou pessoas passando mal – conta.
Hoje, o Samu conta com quatro ambulâncias (três de suporte básico com condutor e técnico de enfermagem, e uma de suporte avançado, com condutor, médico e enfermeiro), além de uma reserva técnica. Por mês, são feitos cerca de 700 atendimentos, com uma média de 22 por dia.

Ato denunciado
Imagens das câmaras de segurança flagram o momento em que um homem fez a ligação falsa descrita por Severo. O caso foi denunciado pelo Samu à Polícia Civil, e a investigação já identificou o suspeito, que prestou depoimento nessa semana. Segundo o delegado da 4ª Delegacia de Polícia, Antônio Firmino de Freitas Neto, o homem de 23 anos fez isso diversas vezes. No depoimento, disse estar arrependido.
– Ele respondeu tudo sobre o que fez, e sabia que estava agindo de forma errada. Ainda preciso ouvir algumas pessoas e devo indiciá-lo até a próxima terça-feira – afirma o delegado.
Firmino explica, ainda, que a maioria dos trotes é feita de telefone público, ou a pessoa tira a identificação do número de celular. Mesmo assim, é possível identificar o autor. O homem será indiciado pelo crime de interrupção do serviço telefônico, crime de perigo e por contravenção penal de perturbação da tranquilidade.
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– O trote é considerado crime. Além disso, quando a equipe, seja do Samu ou dos bombeiros, está se deslocando para a ocorrência, pode acontecer um acidente com morte, o que agrava ainda mais a situação de quem faz ligação falsa. Cada vez mais, a cidade está monitorada – alerta o delegado.
O responsável pela Unidade do Samu em Santa Maria comenta que, dessa vez eles, contaram com a sorte, pois quem passou o trote foi identificado.
Trotes são 42% das chamadas à Brigada Militar
O telefone 190, da Brigada Militar, recebe, em média, 378 ligações por dia. Dessas, 161 são para comunicar falsas ocorrências, ou seja, cerca de 42%.
Conforme o capitão Luis Sandro de Souza Martins, chefe da Seção de Operações e Inteligência do 1º Regimento de Polícia Montada, o trote tem um custo social e financeiro. Na hora do deslocamento, deixa-se de fazer a manutenção das viaturas para atender um chamado sem necessidade.
– Algumas ligações são características de trote, e conseguimos perceber. É mais comum ocorrer trote em horário de intervalo ou na saída das escolas, e também nas férias. Mas recebemos ligações em qualquer horário, até de madrugada. O prejuízo é maior quando temos que deslocar a viatura para atender ocorrências falsas. Além disso, o telefone fica ocupado sem atender quem realmente precisa – comenta.
No primeiro semestre deste ano, foram registrados 28.715 mil trotes na corporação, 181 a menos que no mesmo período do ano passado.Assim como os outros órgãos, o telefone de emergência do Comando Rodoviário da Brigada Militar (198), na 3ª Companhia de Polícia Rodoviária de Santa Maria, que atende as rodovias estaduais, também é alvo de trotes. Pessoas ligam informando situações inexistentes e, por vezes, as equipes acabam se descolocando por entender que é uma chamada real.
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Conforme o capitão Robinson Marcos Garcia, comandante da companhia, a central possui identificador de chamada e está localizando o número dos telefones.
– O trote causa um grande custo para nós. É viatura, é combustível, hora trabalhada do servidor e, às vezes, temos que remanejar outra viatura. Tudo em função dos chamados falsos. Tudo demanda tempo – declara.
Triagem
Já na Polícia Rodoviária Federal, os trotes pelo número 191 são menos frequentes, mas existem. Todas as ligações passam pela triagem antes de chegar na 9ª Delegacia, que fica na BR-158.– Nós entendemos que os trotes para a PRF não têm o objetivo de ser por ¿diversão¿, mas sim para afastar as equipes dos pontos de abordagem. O trote é um desserviço para a sociedade, seja no combate à criminalidade seja no atendimento. A preocupação maior é que, se uma família realmente estiver precisando da polícia, o tempo de deslocamento vai ser muito maior – afirma o chefe da 9ª Delegacia da Polícia Rodoviária Federal, Heder Macedo.