política

Militares e professores de Santa Maria opinam sobre comemorar ou não o golpe de 64

Autor: Ian Tâmbara

Foto: Reprodução

Este domingo, dia 31 de março, marca os 55 anos do golpe militar no Brasil. Possíveis comemorações sobre a data causaram polêmica ao longo da semana em todo o país, após recomendação do presidente Jair Bolsonaro (PSL) para que fossem realizadas comemorações nas unidades militares. Atualmente, Santa Maria abriga o 2º maior contingente militar do Brasil, além da Ala 4, antiga Base Aérea. Contudo, a assessoria da Ala 4 afirmou que "não há previsão de solenidade no âmbito da Guarnição de Aeronáutica". Já a comunicação da 3ª Divisão do Exército (DE) disse que "não há orientações sobre a solenidade".

A decisão das autoridades da Defesa de Santa Maria foi comunicada antes mesmo de, na sexta-feira, a juíza Ivani Silva da Luz, da 6ª Vara da Justiça Federal em Brasília, proibir o governo de celebrar a data.

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Toda a polêmica iniciou na última segunda-feira, quando Otávio Rêgo de Barros, porta-voz do governo Bolsonaro, afirmou que o presidente teria determinado ao Ministério da Defesa que fizesse as "comemorações devidas" em homenagem ao início da ditadura militar no Brasil.

REMEMORAR
Depois, na quinta-feira, Bolsonaro amenizou a fala do porta-voz e disse que a ideia seria apenas um ato de lembrança.

- Não foi comemorar, foi rememorar, rever o que está errado, o que está certo e usar isso para o bem do Brasil no futuro - explicou o presidente.

Por outro lado, haverá atividades pelo fim do golpe de 64, em Santa Maria. Um dos atos é o Ocupa Zona Oeste, organizado pelo coletivo "Perversie" antes mesmo do impasse começar. A ideia seria reunir o público neste domingo no Ginásio do Oreco, Bairro Tancredo Neves, para participar de atividades artísticas, musicais, teatrais e de dança. Contudo, de acordo com a organizadora, Joana Fernandes, a polêmica motivou uma mudança na temática das atrações.

- Achamos que não dava pra deixar isso passar em branco. Se o presidente quer que a gente comemore, vamos comemorar o final do golpe e relembrar as pessoas que morreram - diz ela, frisando que as atividades se iniciam às 15h, com entrada franca.

OPINIÕES DIVIDIDAS
Confira algumas opiniões sobre o fato de comemorar ou não o golpe de 64:

"Não há motivo para polêmica. O que houve em 1964 foi um movimento que foi chamado pela população brasileira, todos os jornais antigos alegaram isso. Houve uma tomada de posição por parte do Exército, que impediu que o nosso país se tornasse um país comunista. Isso nunca deixou de ser comemorado, sempre foi internamente nos quartéis, talvez não tão forte e não tão bonito quanto nós merecíamos. Sobre as instituições que foram contra, acho que é um ponto de vista particular deles e de pessoas que têm essa vontade de que o nosso governo não fosse essencialmente democrático. Nós vivemos a democracia e temos que viver com todos."

Capitão Oscar de Oliveira Ramos Neto, presidente do PSL em Santa Maria durante as eleições de 2018

"Com a eleição do Bolsonaro, esse discurso passou a ganhar muita visibilidade. O presidente se elegeu incorporando esse tipo de discurso. A declaração dele e os movimentos do governo vão nesse sentido. Formalmente, é muito difícil sustentar um regime autoritário. O Estado é a instituição política central e detém o poder, então é muito difícil equilibrar a análise do Estado agir de forma violenta e coercitiva. Comemorar o golpe é bastante criticável, mas o governo se elegeu incorporando e defendendo essas posições. Não é inesperado, mas é altamente criticável." 

Cleber Martins, professor de Ciência Política da UFSM

"Essa data não tem que ser comemorada. Ao contrário, é uma data trágica, que atrasou a democracia brasileira durante anos e, além disso, deu toda a repressão que houve sobre pensamento, liberdade e sobre os rumos do Brasil. Quem comemora essa data, está querendo reescrever essa história. Essas pessoas deveriam ser penitenciadas. Estávamos na escola quando circularam as notícias, em 31 de março de 1964. Nós fomos até o prédio da prefeitura, que era no centro da cidade, e o Exército de Santa Maria estava nas ruas prendendo todas as pessoas que eles consideravam suspeitas. Eu fui preso duas vezes. Eu sofri perseguição política, tortura moral, mental e até algumas torturas físicas. Até a minha família se sentiu ameaçada pela repressão." 

Dartagnan Agostini, professor, preso durante a ditadura em Santa Maria

"A gente comemora tanta coisa no Brasil, que acho nada mais justo um dia que uma parte da população comemore um contragolpe que foi dado em 1964. Acho válido. Através dos militares, nós salvamos o país. A gente sabe que a as pessoas de esquerda não vão querer comemorar. Então, que não comemorem. O presidente da República é uma pessoa de direita, então, obviamente ele vai querer que celebrem. Quem é a favor, comemore. Quem não é a favor, que fique na sua." 

Fernando Baltar, presidente da Sociedade Amigos do Boi de Botas, ligado ao Memorial Marechal Mallet

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