Pensando em valorizar capítulo pouco conhecido da história gaúcha, projeto da UFSM quer transformar Campos Neutrais em rota turística e vetor de desenvolvimento regional

Pensando em valorizar capítulo pouco conhecido da história gaúcha, projeto da UFSM quer transformar Campos Neutrais em rota turística e vetor de desenvolvimento regional

Foto: Vitória Parise (Diário)

​​Pensando em valorizar um capítulo pouco conhecido da formação territorial do Rio Grande do Sul e transformá-lo em uma ferramenta de desenvolvimento para a região, a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) desenvolve o projeto "Recuperação da Memória Histórica e Cultural das Regiões Centro e Campanha do Rio Grande do Sul". Resultado de seis anos de pesquisas nas áreas de Cartografia Histórica, Geografia e História, a iniciativa foi tema do Fórum Regional dos Campos Neutrais do Centro e Campanha Gaúcha, realizado nesta sexta-feira (29), no campus-sede da universidade e reuniu autoridades, pesquisadores e representantes dos municípios envolvidos em uma proposta que vai além do resgate histórico e aposta no turismo e na economia como caminhos para fortalecer a identidade regional.

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O projeto nasceu a partir da tese de doutorado do geógrafo Adenilson Farias Zanini no Laboratório de Geotecnologias (LabGeotec), vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Geografia (PPGGEO), desenvolvida sob orientação do professor da UFSM Waterloo Pereira Filho. Ao longo de seis anos, a pesquisa percorreu áreas da Cartografia Histórica, Geografia e História para reconstruir um capítulo pouco conhecido da formação do Estado. O trabalho remonta ao Tratado de Santo Ildefonso, firmado em 1777 entre Portugal e Espanha. Dez anos depois, em 1787, foram instalados 10 marcos em pedra arenítica entre Santa Tecla, atual município de Bagé, e Boca do Monte, distrito de Santa Maria, ao longo da Coxilha Grande. A região, conhecida como Campos Neutrais, servia como uma faixa de transição entre os territórios das duas coroas ibéricas. (veja mais detalhes do projeto no fim da matéria)

A partir desse estudo, surgiu a proposta de criar o Sítio dos Campos Neutrais e implantar a Rota dos Marcos Ibéricos, com a instalação de réplicas dos antigos marcos em pontos estratégicos dos municípios que atualmente são cortados pela Coxilha Grande: Santa Maria, Dilermando de Aguiar, São Gabriel, Lavras do Sul, Dom Pedrito e Bagé.

Mapa: Divulgação

Com essa valorização histórica, segundo o pesquisador Zanini, será possível estruturar roteiros turísticos, atividades educacionais, eventos culturais, circuitos de visitação, cavalgadas, caminhadas, experiências de turismo rural, gastronômico e de aventura, articulando diferentes atrativos já existentes na região. A proposta é que os Marcos Ibéricos e os Campos Neutrais passem a integrar uma rota cultural capaz de atrair visitantes, movimentar a economia regional e estimular novos investimentos relacionados ao turismo e à preservação patrimonial.

A população beneficiada será de aproximadamente 500 mil habitantes, somados os seis municípios.

Fórum reuniu autoridades e representantes da região

Da esq para a dir: comandante da Basm Arthur Ribas Teixeira, pesquisador Waterloo Pereira Filho, a vice-reitora da UFSM Martha Adaime e a vice-prefeita Lúcia Madruga 


Além de pesquisadores e representantes dos seis municípios envolvidos, participaram da abertura do encontro a reitora da UFSM, Martha Adaime, o senador Hamilton Mourão (Rpublicanos) e a a vice-prefeita de Santa Maria, Lúcia Madruga (Progressistas). Entre as demais autoridades presentes, estava o tenente-coronel aviador Arthur Ribas Teixeira, comandante da Base Aérea de Santa Maria (Basm).

A proposta do fórum foi aproximar universidade, gestores públicos e sociedade civil para construir uma agenda conjunta voltada à preservação da memória, à educação patrimonial e ao desenvolvimento regional.

Ao abrir o evento, o professor Waterloo Pereira Filho destacou que a pesquisa acabou revelando aspectos da cartografia histórica e da geopolítica entre portugueses e espanhóis que permaneciam pouco conhecidos. Segundo ele, a intenção agora é transformar esse conhecimento em oportunidades para a região:

– A partir deste fórum, a nossa intenção é convergir energias para desenvolver uma construção no campo turístico, cultural e entre outras formas de exploração dessas preciosas informações que estão registradas.

Waterloo abriu o eventoFoto: Vitória Parise (Diário)

Conhecimento produzido pela universidade deve retornar para a sociedade

Foto: Vitória Parise (Diário)

Durante a cerimônia, a reitora Martha Adaime ressaltou que a missão da universidade vai além da formação acadêmica e passa também pela responsabilidade de devolver à comunidade os conhecimentos produzidos pela pesquisa. Conforme ela, a construção do projeto mostra a importância da atuação conjunta entre instituições, municípios e sociedade.

– Universidade, câmaras de vereadores, prefeituras, políticos de todas as esferas e comunidade precisam caminhar juntos. É somente desta forma que nós vamos crescer. A Universidade Federal de Santa Maria é e sempre será parceira dessa construção – afirma. 

"Quem não tem passado não tem futuro"

Responsável por destinar recursos ao projeto do livro, o senador Mourão afirmou que a iniciativa representa uma oportunidade de recuperar uma parte esquecida da história gaúcha. Ao longo da fala, o parlamentar lembrou os conflitos entre portugueses e espanhóis e comparou a preservação histórica existente em países da Europa e nos Estados Unidos com a realidade brasileira.

– Nós temos que recuperar essa história. Quando a gente sai para fora do Brasil, vê campos de batalha preservados e valorizados. Aqui, também temos história. Tem gente que morreu para que esse território fosse nosso. Então, eu me entusiasmo com o projeto e vamos apoiá-lo – disse o senador.

Desenvolvimento regional passa pela integração

Representando a prefeitura de Santa Maria, a vice Lúcia Madruga relacionou o projeto às perspectivas de desenvolvimento regional e destacou que a entrega do estudo para definição da área do futuro aeroporto do município reforça a vocação logística da cidade. Segundo ela, os investimentos em infraestrutura podem potencializar iniciativas como a dos Campos Neutrais:

– Aquilo que acontece em Santa Maria tem uma repercussão bastante significativa para toda a região. Alimenta a nossa esperança e a expectativa de novos tempos.

Turismo pode ser principal legado

Marcelo conversou com o Diário sobre o potencial do projetoFoto: Vitória Parise (Diário)

Mais do que recuperar uma memória histórica, a iniciativa pretende transformar os Campos Neutrais em um produto turístico capaz de gerar emprego, renda e novas oportunidades para a região. Professor do Departamento de Turismo da UFSM e especialista em patrimônio cultural e planejamento turístico, Marcelo Ribeiro avalia que o potencial existe, mas depende de planejamento e da articulação entre os municípios.

Segundo ele, a futura rota poderá ser integrada a outras atividades já existentes na Campanha, como o enoturismo, o olivoturismo, o patrimônio arquitetônico e os eventos culturais. Também há espaço para cavalgadas, cicloturismo, caminhadas e outras modalidades de turismo de experiência.

Marcelo compara o potencial da proposta a iniciativas consolidadas, como a Estrada Real, em Minas Gerais, e a Rota da Libertação, na Europa, mas ressalta que apenas os marcos não são suficientes:

– Tem que existir articulação. Não adianta apenas ter os marcos. É preciso ter serviços, estrutura e atrativos. A relação entre bens e serviços é que forma o produto turístico. E penso que isso pode ser muito interessante para a região.

Projeto começou com livro viabilizado pela Lei do Livro

Parte importante dessa mobilização teve início ainda quando o ex-vereador Manoel Badke presidia a Câmara de Santa Maria. Por meio da Lei do Livro, foi possível viabilizar a publicação da obra derivada da pesquisa de Zanini. A partir daí, começaram as visitas aos municípios envolvidos e as articulações que aproximaram o projeto do senador Hamilton Mourão.

Segundo Badke, a ideia é que o patrimônio histórico seja acompanhado por atividades capazes de movimentar a economia regional:

– A partir desses marcos, nós podemos resgatar a história e também aproveitar o turismo, fazer cavalgadas entre os municípios, trilhas, incentivar o ciclismo e mostrar o potencial econômico e cultural de cada cidade.

Foto: Vitória Parise (Diário)


Entenda o projeto

O que são os Campos Neutrais?

  • Os Campos Neutrais foram criados em 1777, por meio do Tratado de Santo Ildefonso, firmado entre Portugal e Espanha.
  • Na época, os dois países disputavam o território do Rio Grande do Sul e decidiram estabelecer uma faixa de terras neutra para encerrar os conflitos.
  • Uma dessas áreas ficou entre Santa Tecla (atual Bagé) e Boca do Monte (atual Santa Maria), acompanhando a Coxilha Grande.

Como essa área era delimitada?

  • Em 1787, foram instalados dez marcos de pedra, distribuídos em cinco pares.
  • Os marcos delimitavam os territórios português e espanhol.
  • Entre as duas linhas havia uma faixa de aproximadamente 12 quilômetros de largura, considerada território neutro.
  • O lado leste pertencia a Portugal e o lado oeste, à Espanha.

Por que essa história acabou esquecida?

  • Em 1801, os portugueses avançaram sobre a região e ocuparam os territórios que pertenciam aos espanhóis.
  • Os marcos que indicavam a existência dos Campos Neutrais foram retirados.
  • Com o passar do tempo, esse capítulo da formação do Rio Grande do Sul acabou sendo pouco estudado e praticamente desapareceu da memória dos gaúchos.

Como a história foi redescoberta?

  • O projeto começou a ser desenvolvido durante a pandemia.
  • Foram aproximadamente seis anos de pesquisa.
  • Os pesquisadores buscaram documentos e mapas históricos em diversos países, como Estados Unidos, França, Espanha e Portugal.
  • Muitos desses materiais haviam sido preservados pelos espanhóis após deixarem a região.
  • Em 2023, a pesquisa deu origem a uma tese de doutorado e também a um livro publicado pela Lei do Livro da Câmara de Vereadores de Santa Maria.

Ainda existem vestígios dos marcos originais?

  • Os pesquisadores acreditam que os marcos originais tenham sido retirados há mais de dois séculos. Até o momento, nenhum deles foi encontrado.
  • O único vestígio identificado é uma réplica construída pelo memorialista santa-mariense Ciprian Dani, próximo à antiga Fepagro, em Boca do Monte. Foi justamente esse monumento que ajudou a despertar o interesse para aprofundar as pesquisas.

O que é a Coxilha Grande?

  • Trata-se de uma formação natural que se estende desde Maldonado, no Uruguai, até Bom Jesus, na divisa com Santa Catarina.
  • Ela funciona como divisor de águas entre as bacias do Rio Uruguai e do Guaíba.
  • Segundo os pesquisadores, era possível percorrer essa extensão a pé sem precisar atravessar rios, razão pela qual ela foi utilizada pelos povos originários, jesuítas, portugueses e espanhóis.

O que o projeto pretende fazer?

  • Recuperar a memória histórica e cultural da região.
  • Criar o Sítio dos Campos Neutrais.
  • Implantar a Rota dos Marcos Ibéricos.
  • Produzir réplicas dos marcos históricos.
  • Desenvolver ações de educação patrimonial.
  • Fortalecer a identidade regional.
  • Aproximar a população, as universidades e o poder público.
Mapa histórivo elaborado pelos demarcadores em 1787.Foto: Divulgação

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