Foto: Charles Guerra (Arquivo/Diário)
A partir de 1º de setembro, as empresas ficam desobrigadas de manter os cobradores
A partir de 1º de setembro, as empresas que operam o transporte coletivo urbano de Santa Maria poderão retirar os cobradores de ônibus na totalidade. Até então, a determinação municipal previa que 25% das viagens fossem realizadas com a presença desses trabalhadores.
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A medida foi autorizada pelo Decreto Executivo nº 84, publicado pela prefeitura, e transfere às concessionárias a decisão de manter ou não esses profissionais nas linhas. O decreto não extingue imediatamente a função de cobrador. Mas as empresas ficam desobrigadas de manter esses profissionais e poderão decidir, conforme a necessidade operacional de cada linha, se continuam ou não utilizando cobradores.
A decisão é defendida pelo Executivo como uma forma de reduzir custos e adequar o sistema às novas formas de pagamento da tarifa. Já as empresas afirmam que a mudança acompanha uma transformação tecnológica latente nos últimos anos. Do outro lado, o Sindicato dos Trabalhadores e Condutores de Veículos Rodoviários de Santa Maria e Região (Sitracover) critica a falta de diálogo com a categoria, prevê demissões e questiona se a economia prometida será revertida em redução da tarifa.
O que muda na prática e o que motivou a decisão
Para explicar a motivação da medida, a prefeitura aponta uma série de fatores que embasaram a norma.
Entre eles está a crise enfrentada pelo transporte coletivo urbano, agravada pela redução do número de passageiros após a pandemia. Conforme o documento, houve queda de cerca de 35% na demanda e, em 2025, apenas 13% dos usuários ainda pagavam a passagem em dinheiro.
Outro argumento apresentado pelo Executivo é a implantação de um novo sistema de bilhetagem eletrônica. Conforme o decreto, a tecnologia permitirá novas formas de pagamento da tarifa, reduzindo a necessidade do uso de dinheiro em espécie e, consequentemente, da atuação dos cobradores.
O Executivo também sustenta que a exigência de manter cobradores em parte da frota aumenta os custos da operação. Segundo o decreto, essa despesa representa entre 2,5% e 3,5% da planilha tarifária, contrariando o princípio da modicidade da tarifa e impactando diretamente o valor pago pelos passageiros.
Novo sistema ainda será implantado
Embora o novo sistema de bilhetagem eletrônica seja uma das principais justificativas apresentadas pela prefeitura para autorizar a operação dos ônibus sem cobradores, a tecnologia ainda não está disponível aos passageiros.
Em apuração do Diário, o diretor da ATU, Edmilson Gabardo, informou que os equipamentos já foram instalados nos ônibus, mas o sistema ainda passa por fase de implantação. A previsão, segundo ele, é de que entre em operação nos próximos 60 dias.
Quando estiver disponível, os passageiros poderão gerar um QR Code por meio de um aplicativo para pagar a passagem via Pix. Conforme Gabardo, o valor cobrado será o mesmo da tarifa praticada atualmente para quem utiliza o cartão do transporte coletivo, ou seja, R$ 6,65.
Prefeitura defende modernização e redução de custos
Em entrevista ao programa Bom Dia, Cidade, da Rádio CDN 93.5 FM, nesta quarta-feira (5), o secretário interino de Serviços Públicos, Rui Fabrin, afirmou que a decisão acompanha as mudanças no perfil dos usuários do transporte coletivo.
Segundo ele, a modernização da bilhetagem e a redução do pagamento em dinheiro tornaram cada vez menor a necessidade da presença de cobradores.
– Hoje, entre 10% e 13% dos usuários ainda pagam a passagem em dinheiro. Esse fator reduz a necessidade de ter um cobrador ali – afirmou.
Fabrin explicou que, mesmo com a autorização para retirar os cobradores, caberá a cada empresa decidir se manterá esses profissionais em determinadas linhas, principalmente naquelas em que ainda houver maior volume de passageiros pagando em espécie.
Questionado sobre o processo que levou à edição do decreto, Fabrin afirmou que a possibilidade de retirar a obrigatoriedade dos cobradores já vinha sendo discutida com as empresas de transporte. Em relação ao sindicato, reconheceu que não houve uma negociação direta antes da publicação da medida.
– As empresas já vinham há muito tempo solicitando que a gente fizesse essa alternativa para elas. Com o sindicato, foi conversado indiretamente, não a ponto de uma definição de que nós não fizéssemos esse tipo de atendimento – declarou.
Indagado quanto ao impacto da medida no preço da passagem, o secretário afirmou que a retirada dos cobradores reduzirá os custos do sistema. Segundo ele, esse custo representa entre 2,5% e 3,5% da planilha tarifária.
Fabrin também disse que a economia não deve ter reflexo imediato porque a tarifa técnica atualmente é de R$ 7,65, enquanto os usuários pagam R$ 7,25. No entanto, afirmou que a mudança deverá influenciar a próxima revisão tarifária.
– Na tarifa atual hoje não vai ter tanta influência porque a tarifa é R$ 7,65 e está sendo cobrado R$ 7,25. Então esses 3% não influenciariam, mas na próxima tarifa com certeza vai ter um impacto – declarou.
Empresas dizem que “situação era anunciada”
Para as empresas, a possibilidade de operar sem cobradores não representa uma surpresa.
Segundo o diretor da Associação dos Transportadores Urbanos (ATU), Edmilson Gabardo, a redução gradual da obrigatoriedade desses profissionais começou ainda durante a pandemia, quando o percentual mínimo de ônibus com cobradores passou de 50% para os atuais 25%.
Conforme Gabardo, atualmente cerca de 11% dos passageiros ainda pagam a passagem em dinheiro. No último mês, segundo ele, foram aproximadamente 136 mil usuários nessa modalidade, o que representa, em média, dois a três passageiros por viagem.
O diretor estima que as empresas ainda tenham cerca de 95 cobradores nos quadros. Segundo ele, parte desses profissionais já vem sendo realocada para outras funções administrativas e operacionais, enquanto antigos cobradores passaram por treinamento para atuar como motoristas. Quando questionado sobre a tendência da retirada completa do efetivo, respondeu:
– É possível que em breve nós não tenhamos mais os cobradores.
Gabardo também argumentou que manter cobradores para atender um número reduzido de passageiros que ainda utilizam dinheiro em espécie aumenta o custo da operação.
– Essa situação era anunciada. O cobrador não tem mais função. Imagina ter que manter um posto de trabalho, uma pessoa trabalhando para atender duas pessoas por viagem. É pagar uma pessoa para ficar passeando de ônibus, não existe. Quem paga esse custo é o usuário – disse.
Segundo o diretor da ATU, o sistema transportava cerca de 30 milhões de passageiros por ano em 2017. Atualmente, esse número seria de aproximadamente 14 milhões, uma redução de 51%.
Durante a entrevista, Gabardo comparou a mudança no transporte coletivo à construção das pontes sobre o Rio Tâmisa, em Londres. De acordo com ele, a evolução tecnológica acaba substituindo algumas funções ao longo do tempo.
– Quando começaram a construir as pontes, os barqueiros ficaram enlouquecidos porque iam perder o serviço. Mas as pontes melhoraram a vida das pessoas. É a mesma coisa – afirmou.
Sindicato critica falta de diálogo e prevê demissões
O presidente do Sitracover, Rogério Santos da Costa, afirmou que o sindicato não foi surpreendido pelo decreto, mas criticou a forma como a decisão foi tomada. Segundo ele, a categoria não foi chamada para discutir a medida antes da publicação.
– Entendíamos que, com as novas tecnologias, esse momento iria chegar. O que queríamos era diálogo sobre a forma como isso iria acontecer, não na base da guilhotina, tira tudo – disse.
O dirigente também contestou os números apresentados pelas empresas sobre a quantidade de cobradores ainda em atividade.
Enquanto a ATU estima que existam cerca de 95 profissionais no sistema, o sindicato afirma não possuir um levantamento atualizado. Na avaliação da entidade, atualmente esse número não passa de 50 trabalhadores.
Apesar de o decreto deixar a decisão a cargo das empresas, o presidente do sindicato acredita que a tendência é de desligamento dos cobradores.
– Sabemos que, com certeza, vão ser demitidos todos – disse.
Costa também questionou o argumento da prefeitura de que a retirada dos cobradores reduzirá os custos do sistema.
– Se o decreto diz que isso representa entre 2,5% e 3,5% da tarifa, então reduzam a passagem. Quando fazemos o cálculo, a tarifa baixa para R$ 7, e não R$ 7,25 – afirmou.
Além da questão trabalhista, o dirigente sindical argumenta que a ausência dos cobradores poderá trazer impactos para idosos, gestantes, pessoas com deficiência e passageiros que necessitam de auxílio para embarcar nos ônibus.
Ele tambémcriticou as condições da infraestrutura do transporte coletivo em Santa Maria, citando problemas nas vias por onde circulam os ônibus e a falta de cobertura em pontos de parada.