BR-158: obra avança, mas motoristas ainda enfrentam longas filas

BR-158: obra avança, mas motoristas ainda enfrentam longas filas

Foto: Rian Lacerda (Diário)

Na BR-158, a viagem até Itaara começa em marcha lenta. A fila formada pelo sistema de pare e siga obriga motoristas a esperar por mais de 40 minutos. Nesse intervalo, os motores são desligados, os condutores deixam os veículos, conferem o celular e até compram produtos de ambulantes que aproveitam o congestionamento para trabalhar. Quando a passagem é liberada, a lentidão continua. Na subida da serra, caminhões e outros veículos pesados passam a ditar o ritmo de quem percorre a principal ligação entre Itaara e Santa Maria, onde o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) executa obras de contenção de encostas.


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Em uma rodovia que é um dos principais corredores de exportação do norte para o sul do Estado, arrancar o carro na subida exige paciência. Se houver um caminhão carregado à frente, que chega a trafegar a menos de 30 km/h, o tempo total para vencer o trecho da serra pode ultrapassar uma hora.

Foto: Rian Lacerda (Diário)

No local, o Dnit realiza obras para conter o risco de novos deslizamentos em 18 pontos da encosta. Para substituir os antigos trilhos de trem por uma estrutura robusta, a autarquia envelopa os morros com quase 45 mil metros quadrados de telas de aço, área equivalente a cinco campos de futebol. Para dar mais segurança a obra exige a perfuração de 133 quilômetros de barras de aço rocha adentro. Todo esse maquinário em operação obriga a interdição de parte das pistas e pode explicar a necessidade do sistema de pare e siga atualmente em andamento.

No dia 19 de junho, a Auditoria Fiscal do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) embargou parcialmente os serviços por identificar situações de grave risco à segurança dos operários. Atualmente, a construtora responsável reduziu o fluxo a apenas uma pista, criando o atual pare e siga de 2.750 metros de extensão. O bloqueio programado funciona das 8h às 17h30min, com ciclos de 20 minutos de abertura para cada lado. A estimativa oficial de espera é de 40 minutos, mas, na prática, horários de pico formam filas de veículos que não conseguem passar na primeira abertura da rodovia, o que pode dobrar a estimativa de tempo de acordo com os motoristas.

O investimento total do governo federal ultrapassa os R$ 200 milhões, valor que engloba também sete pontos de contenção na BR-287. O Dnit previa finalizar a intervenção no primeiro semestre de 2026, o que não ocorreu e deve seguir até o final deste ano. Ao todo, mais 300 funcionários operam nas encostas.

Impacto da espera

Foto: Rian Lacerda (Diário)

Com a BR-158 passando pelo perímetro urbano de Itaara e com o bloqueio da Estrada do Perau, os moradores convivem diariamente com o estresse da espera. O Diário conversou com motoristas, comerciantes e lideranças públicas para entender como os bloqueios diários afetam a rotina, a economia e até a saúde de quem depende do trajeto entre Itaara e Santa Maria. Confira os relatos:


Juliane Hauenstein Gehm, 34 anos, funcionária pública e moradora de Itaara

"Hoje mesmo, estava subindo a serra para Itaara e quase colidi frontalmente contra uma ambulância que descia na contramão em direção a Santa Maria. Tive que parar meu veículo e esperar um caminhão passar no meu lado para dar passagem. Qual é o risco que a gente tá correndo diariamente? Qual é o peso da população nessa balança? Muito se fala em segurança, mas para quem? A gente não tá na estrada para passear, a gente tá porque precisa trabalhar."


Mariana Fleytas Ruas, 36 anos, moradora de Itaara

"Em fevereiro deste ano, fomos atacados por abelhas africanas na nossa propriedade. Meu marido levou mais de 45 picadas só na cabeça. Começou a ter reação alérgica e viemos às pressas para Santa Maria. Paramos no pare e siga. Foi desesperador. Quando abriu, já estávamos há 30 minutos parados. Tinha muito movimento descendo e demoramos 45 minutos para chegar. Quase morremos. Se ele fosse alérgico, não teria sobrevivido, isso não tem dúvida. E não tem outra via, você morre parado ali."


Denilson Londero, 51 anos, estudante e usuário da rodovia

Foto: Rian Lacerda (Diário)

"Tem relatos de pessoas que acabaram saindo daqui de Itaara e indo morar em Santa Maria para poder chegar no horário e não ser demitido. Quando se faz um grande tempo de pare e siga, a fila fica intensa e tranca cruzamentos dentro da cidade. Se entende que se tem que priorizar vidas, mas de todos os usuários da BR. Sugerimos ao Dnit diminuir a extensão da obra, usar barreiras físicas que permitissem velocidade reduzida mas constante. E nunca tem empatia com a população."


Zenir Oliveira (PSB), vice-prefeito de Itaara

Foto: Mateus Rossato (Diário)

"O município entende que a obra é necessária, mas a população vem sofrendo muito, inclusive com a obra da Estrada do Perau também demorada. Entramos em contato com o Dnit e a promessa é que vão reduzir o curso do bloqueio. Antes não causava tanto transtorno porque eram duas pistas, mas com a recomendação do Ministério do Trabalho, ficou só uma. A prefeitura está empenhada para amenizar esse tempo que prejudica o transporte escolar e a nossa economia."


Alessander Guilherme da Rosa Flores, 26 anos, gerente de posto de combustíveis às margens da BR-158

Foto: Mateus Rossato (Diário)

"O pare e siga tem atrapalhado, pois tem dias que a fila passa aqui na frente e o posto fica parado, sem movimento. Tem muita gente de viagem e na hora que libera não quer parar, pensa 'vou aproveitar porque vai que pare de novo'. Final do mês deu uma diminuída boa, a gente tinha um volume para atingir de venda e não conseguiu. Deveriam diminuir o tamanho, é um trecho muito grande e a fila se estende bastante."



O que diz o Dnit

Em um grupo composto por mais de 1,3 mil integrantes que utilizam a rodovia, o Dnit informou que trabalha para tentar minimizar os problemas.

– Temos duas linhas de atuação: diminuir a extensão do pare e siga e garantir o deslocamento interno de Itaara, sem o bloqueio dos acessos. Garantindo a primeira já ajuda na outra. Assim que possível, trabalhamos com a ideia de ser a última semana com pare e siga nesta extensão, mas depende do tempo estável para possibilitar avançar. Desde a última quinta, trabalhamos para sincronizar o trabalho das duas empresas e assim não ser necessário ficar tão longo.

A reportagem solicitou mais informações e posição do órgão e aguarda um retorno. 


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