Fotos: Vinicius Becker (Diário)
A proposta prevê produção de pães uma ou duas vezes por semana, com participação direta das famílias beneficiadas.
Uma cozinha comunitária destinada à produção de pães foi inaugurada nesta Quarta-Feira de Cinzas (18) no Bairro Nova Santa Marta, em Santa Maria. A iniciativa foi apresentada durante o lançamento da Campanha da Fraternidade 2026 e faz parte de uma ação da Arquidiocese de Santa Maria com foco em alimento, dignidade e autonomia a famílias em situação de vulnerabilidade.
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O lançamento ocorreu na Igreja São Marcelino Champagnat e marcou o início do projeto Pão da Vida, que propõe a panificação comunitária como uma forma de garantir alimento dentro de casa. Nesta etapa inicial, cerca de 60 famílias serão atendidas.
A escolha da Nova Santa Marta carrega uma história que antecede o próprio projeto. O bairro surgiu há mais de 30 anos a partir de um processo de ocupação urbana em busca de moradia e, apesar de sua consolidação ao longo das décadas, ainda convive com desigualdades sociais. Entre elas, persistem dificuldades relacionadas ao acesso regular à alimentação, realidade que a iniciativa pretende ajudar a enfrentar.

A atividade reuniu moradores da região, além de representantes da Igreja Católica, como o arcebispo de Santa Maria, dom Leomar Brustolin.

Um projeto que nasce da realidade da fome

Idealizado a partir do contato direto da paróquia com situações recorrentes de insegurança alimentar, o Pão da Vida surge como resposta a uma realidade que ainda persiste na Nova Santa Marta. Segundo o padre Rogerio Aloisio Schlindwein, pároco da Igreja São Marcelino Champagnat, a escolha do local dialoga diretamente com o tema da Campanha da Fraternidade deste ano – Fraternidade e Moradia – e também com a missão histórica da Igreja junto às populações mais vulneráveis.
— A Nova Santa Marta é uma região de ocupação que começou, claro, com as lideranças, mas sobretudo com o apoio da Igreja Católica. Desde o início, padres e religiosas estiveram acampados com o povo, levando o pão necessário para que essas famílias pudessem iniciar sua vida aqui. Passados mais de 30 anos, sentimos que a fome ainda está presente.
O padre relatou que, com o surgimento de novas áreas de ocupação na região, muitas famílias passaram a procurar a paróquia em busca de alimento básico.
— Eles nos pedem pão. Às vezes, até uma cesta básica, mas não têm forno, não têm condições de fazer. Daí surgiu a ideia de criar um espaço onde as pessoas possam vir, fazer o seu pão, aprender e levar para casa.

Como vai funcionar

Nesta primeira etapa, voluntárias da Pastoral da Criança atenderão as beneficiadas, em sistema de rodízio. A produção acontecerá uma ou duas vezes por semana, com participação direta das famílias beneficiadas, especialmente das mães, que aprenderão a fazer o pão e levarão o alimento para casa.
— Não basta dar o peixe, é preciso ensinar a pescar. Aqui a ideia é essa: as pessoas ajudam a fazer o pão, aprendem e levam para casa. Quem sabe, futuramente, isso possa até gerar uma renda para a família — destaca o padre.
A paróquia disponibiliza toda a estrutura, os equipamentos e os insumos iniciais. A continuidade do projeto dependerá da colaboração de voluntários e de doações, principalmente de farinha, fermento, óleo, açúcar e sal. Os mantimentos podem ser entregues na Igreja São Marcelino Champagnat, Rua Rio Dourado, esquina com a Rua Secundária 01, Vila Sete de Dezembro.
Campanha da Fraternidade propõe olhar para a casa e para o lar

A Campanha da Fraternidade 2026 convida a Igreja no Brasil a refletir e agir a partir do tema Fraternidade e Moradia, propondo um olhar atento às condições de vida das pessoas, ao direito a um lar digno e às múltiplas formas de exclusão que ferem a fraternidade. No tempo da Quaresma, a Campanha chama as comunidades a unirem fé e responsabilidade social, recordando que a vivência cristã passa necessariamente pelo cuidado com a vida concreta, especialmente a dos mais vulneráveis.
O arcebispo dom Leomar Brustolin destacou que o tema da Campanha da Fraternidade 2026 foi escolhido com antecedência, a partir de provocações pastorais vindas de regiões marcadas por profundas desigualdades habitacionais.
— O Brasil inteiro está estudando essa realidade, desde as palafitas no Norte até as situações que vivemos aqui no Rio Grande do Sul. Quando falamos de moradia, não pensamos só na casa, mas no lar, naquilo que falta para viver com dignidade.
