Aos 62 anos, aprovados no Vestibular da UFSM mostram que nunca é tarde para começar uma graduação

Aos 62 anos, aprovados no Vestibular da UFSM mostram que nunca é tarde para começar uma graduação

Fotos: Vinicius Becker (Diário)

O listão começou a ser lido ao vivo. Em casa, a família aguardava ansiosa – 30 minutos, 15 minutos, cinco minutos. O nome demorava a aparecer. Foi o último do curso a ser anunciado. Quando finalmente foi dito, o grito veio antes da confirmação: o filho levantou da cadeira e comemorou em voz alta.

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Aos 62 anos, Marlei Medianeira Rigo de Lima estava oficialmente aprovada no curso de Educação Especial (noturno) da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). O momento foi registrado em vídeo pelo filho Estêvão Rigo de Lima, 19, enquanto a família acompanhava a transmissão feita pela Rádio CDN (93.5 FM), do Diário de Santa Maria, no YouTube.

– Representa uma inovação. Um recomeço. Algo inexplicável. Acho que nem tenho palavras. Mas eu estou muito feliz – confessa.

Na mesma lista de aprovados, outros dois nomes chamavam atenção por virem acompanhados da identificação “Pessoas com 60 anos ou mais”: Mauro Nascimento Pereira, aprovado em Direito (diurno), e Taisa Cardoso Schultz do Nascimento, aprovada em Direito (noturno).

Os três ingressaram por meio das vagas suplementares destinadas a pessoas com 60 anos ou mais, modalidade criada pela UFSM em 2023. No Vestibular 2026, três candidatos foram classificados nessa categoria e dois já confirmaram matrícula.

O três pode parecer um número ínfimo diante das centenas de nomes no listão. Mas as histórias por trás desse numeral são densas, atravessadas por décadas de trabalho e muita persistência.


“É voltar no passado e realizar aquele sonho que ficou para trás”

Foto: Vinicius Becker (Diário)

Formada em Marketing pela Unopar e comerciante por 36 anos, Marlei conta que o desejo de estudar na UFSM surgiu ainda na juventude, mas ficou para trás diante das exigências da vida adulta.

Lá atrás, quando eu sonhava em estar na UFSM, não consegui. Naquela época, eram apenas duas universidades em Santa Maria, era tudo mais difícil. Eu sempre tive que trabalhar. Não tinha uma família que bancasse o meu sustento. As vagas eram muito mais concorridas, e a redação me deixou fora – conta.

A motivação para voltar a estudar ganhou ainda mais força por uma razão pessoal. O filho Estêvão é estudante de Engenharia da Computação na UFSM e foi diagnosticado com autismo aos 3 anos de idade. A aprovação representa, para ela, uma forma de ampliar o entendimento sobre o tema e também ajudar outras famílias.

– O meu principal objetivo é buscar respostas para ajudar o meu filho. Quero entender mais, ter mais conhecimento. E também quero ajudar outras famílias que não têm dinheiro, que não têm acesso. O estudo liberta. É tudo de bom na vida da gente – destaca.

A trajetória universitária já faz parte da rotina da família. Além do filho na Engenharia da Computação, a filha Júlia Rigo de Lima, 25 anos, formou-se em Medicina Veterinária pela UFSM em 2024. O marido, Rochester Soares de Lima, 68 anos, também é estudante da instituição e cursa História.

Foto: Arquivo Pessoal

Para se preparar, Marlei buscou o Pré-Universitário Popular Alternativa (Pupa), projeto de extensão vinculado à UFSM que oferece aulas gratuitas para estudantes que não podem pagar cursinhos privados.

No início, perdia com frequência as primeiras aulas porque precisava fechar a loja antes de sair:

– Eu chegava correndo, fechava a loja, e ia. Não foi fácil. Mas eu queria muito.

Apesar do apoio da família, o frio na barriga permaneceu até o último momento.

A maioria deles já contava certo com a minha aprovação. Eu que ainda tinha aquele medinho da decepção. O meu filho dizia: “Mãe, eu tenho certeza que tu vais passar”. E realmente foi um momento muito especial – conta Marlei.

Hoje, ela resume a conquista como um reencontro com o próprio passado:

É voltar no passado e realizar aquele sonho que ficou para trás. Não existe idade para aprender. Digo para quem já aposentou e acha que agora é só descansar: o estudo não é trabalho. O estudo é tudo. Eu estou encantada em voltar a estudar.


Educação popular e encontro de gerações

No Alternativa, a presença de estudantes mais velhos não é novidade. A professora Beatriz Campanha, da coordenação do projeto, afirma que o cursinho já atendeu alunos com até 80 anos.

Segundo ela, muitos chegam por indicação de amigos, colegas de trabalho, grupos de apoio ou até por incentivo dos próprios netos. Frequentemente, trazem a dúvida se ainda é possível ingressar no Ensino Superior. Nesse contexto, o papel dos educadores voluntários vai além do conteúdo: é também de acolhimento e fortalecimento da autoestima.

– Cada aprovação não é apenas um resultado, mas a inserção do popular na universidade, fazendo com que esses espaços não se tornem restritos a uma pequena parcela da sociedade – afirma Beatriz.

Ela avalia que a democratização do Ensino Superior não se limita à ampliação de vagas, mas à criação de condições reais para que trajetórias marcadas por interrupções e exclusões possam chegar e permanecer na universidade.


Uma vida inteira ligada à UFSM

Foto: Vinicius Becker (Diário)

Se para Marlei a universidade representa a realização de um sonho interrompido, para Mauro Nascimento Pereira, 62, simboliza um retorno.

Filho de ferroviário, ele iniciou a carreira técnico-administrativa na UFSM em 1985. Foram 33 anos de trabalho, passando por setores como o Hospital Universitário, o Restaurante Universitário e a Reitoria. Graduou-se em Administração na instituição e foi ali que conheceu a esposa, ​Lourdes Nilda Lindner, 66 anos, também servidora aposentada e graduada em Educação Especial pela UFSM. Os dois se conheceram em 1990, nos corredores da universidade.

– A minha vida, a minha esposa, que hoje está aposentada pela universidade, toda a família tem uma história com a universidade, como boa parte da população de Santa Maria. Quem não tem um filho, um neto, ou não teve uma formação aqui?Isso está diretamente ligado à história da universidade, à importância dela – reflete.

O curso de Direito, segundo ele, sempre exerceu fascínio. Já tinha tentado entrar na UFSM no ano anterior, pelo Sistema de Seleção Unificada (Sisu), mas a decisão de prestar vestibular veio após uma conversa com o neto, que já estuda na instituição e comentou sobre a existência das vagas suplementares.

– Eu não me dava por conta que tinha isso (das vagas suplementares). Conversando, no ano passado, fiquei sabendo. Aí eu disse: ano que vem eu faço pelo vestibular, nas vagas de 60+. E fiz – relata Mauro.

No curso de Direito, ele terá uma experiência singular: o neto já é estudante da graduação e será seu veterano. Os detalhes dessa relação e dessa história familiar podem ser conferidos em outra reportagem do Diário.

Diferentemente de muitos candidatos, Mauro não frequentou cursinho.

– Na realidade, eu não me preparei. Me organizei para ir prestar prova, ter paciência. Com a vivência dentro da universidade, com o acompanhamento das notícias, você acumula conhecimento ao longo do tempo. Fiz a prova sem fazer cursinho. Pensei: vou tentar. Se não der, me preparo melhor – diz o calouro.

Ao conferir o gabarito, não ficou confiante:

Fui olhar o ponto de corte e achei que estava fora. Pensei: não passei, vou desencarnar disso, me preparar melhor e tentar de novo.

Acabou esquecendo do assunto até o dia da divulgação.

Eu estava falando com a minha irmã pelo telefone quando ouvi meu irmão comentar com ela: “Como é que o Mauro não falou que tinha feito vestibular e foi aprovado?”. Foi assim que eu fiquei sabendo – lembra.

Para Mauro, ter mais de 60 anos também não é obstáculo:

A questão da idade não é um impeditivo, porque a vida é um eterno aprendizado. Só não aprende quem já deixou a saudade. Você aprende todo dia. Aprende indo ao mercado, com a pessoa que está na rua, com quem coleta o lixo.


Como funcionam as vagas suplementares na UFSM

Na UFSM, o ingresso para pessoas com 60 anos ou mais foi aprovado pelo Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (Cepe) em abril de 2023 e regulamentado pela Resolução nº 125/2023.

O pró-reitor substituto de Graduação e coordenador de Planejamento Acadêmico, Tarcísio Ceolin Jr., explica que se tratam de vagas suplementares – ou seja, adicionais às ofertadas pelo Vestibular, pelo Sistema de Seleção Unificada (Sisu) e pelo Processo Seletivo Seriado (PSS).

As vagas suplementares não reduzem nem interferem no quantitativo de vagas ofertadas pelas formas tradicionais de ingresso. Elas são adicionais – reitera.

Além da modalidade 60+, a resolução contempla outras políticas de acesso, como vagas para Pessoas com Deficiência, Pessoas Transgênero, Indígenas, Quilombolas, Refugiados, Atletas de Rendimento e Estudantes Medalhistas em Competições de Conhecimento.

As vagas 60+ podem chegar a até 5% do total de cada curso, conforme aprovação do colegiado. Desde a implementação da modalidade, três estudantes ingressaram pelo Vestibular 2025. No Vestibular 2026, três candidatos foram classificados e dois já estão na condição de calouros.

Para Ceolin Jr., a política reafirma o compromisso da UFSM com uma universidade pública, gratuita, plural e socialmente referenciada.


Crescimento nacional de estudantes 60+

O movimento observado na UFSM acompanha uma tendência nacional. Segundo o 15º Mapa do Ensino Superior no Brasil, divulgado em 2025 pelo Sindicato das Mantenedoras de Ensino Superior (Semesp), o público com 60 anos ou mais foi o que registrou maior crescimento proporcional de matrículas entre 2013 e 2023.

Dados do Censo da Educação Superior 2022, do Ministério da Educação (MEC), indicam que o Brasil tem 51.369 estudantes 60+ matriculados em cursos de graduação – alta de 56% entre 2012 e 2021.


Calouro como qualquer outro

Marlei e Mauro já foram encontrados pelos veteranos nas redes sociais e adicionados aos grupos das respectivas turmas. Participarão dos trotes e das atividades de recepção como qualquer outro estudante.

Ela fala em recomeço. Ele fala em continuidade. Ela sempre sonhou em ingressar na UFSM. Ele passou uma vida inteira dentro dela.

Em comum, carregam a mesma certeza: aprender não tem prazo de validade.

Aos 62 anos, mostram que o vestibular pode ser também uma porta e que a universidade pública pode ser ocupada em qualquer fase da vida.

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