Fotos: Vinicius Becker (Diário)
Baiano de fala mansa e dono de um coração sem medo, o escritor Itamar Vieira Junior chega a Santa Maria para falar sobre o Brasil que atravessa sua literatura: um país marcado pela herança colonial, mas também pela força das relações familiares e do vínculo com a terra. Autor de Torto Arado, um dos maiores sucessos de público e crítica da literatura brasileira nas últimas décadas, ele consolidou a chamada Trilogia da Terra com Salvar o Fogo e Coração Sem Medo. O autor falou sobre as obras durante uma palestra promovida pelo Sesc na noite de terça-feira (12).
Vencedor dos prêmios Prêmio Leya, Oceanos e Jabuti, Itamar nasceu em Salvador, em 1979. Geógrafo e doutor em estudos étnicos e africanos pela Universidade Federal da Bahia, o autor falou ao Diário sobre a trajetória, construção das personagens e o movimento da vida. Afinal, como escreveu o autor certa vez: “se a gente não se movimenta, não tem vida”.
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Diário – O livro “Torto Arado” foi um sucesso absoluto. Como foi lidar com isso? “Torto Arado” chegou a ser um peso, pensando no que viria depois?
Itamar Vieira Junior – Foi tudo inesperado. O que aconteceu com esse livro não foi pensado, não foi fabricado. Eu senti um pouco de medo de que essa história se tornasse um peso e que eu não conseguisse mais desenvolver o meu projeto literário por conta daquilo. Mas, ainda bem, esse medo não durou muito, foi breve, e eu aprendi a me relacionar com essa história. Sempre que estou fora, falo sobre aquilo que estou realizando, aquilo que estou fazendo. E, quando estou escrevendo, continuo a mesma pessoa, interessada em literatura e com seus projetos. Se eu pensasse muito nisso [no sucesso], poderia se tornar um bloqueio criativo.
Como não se perder nesse ritmo do mercado literário?
Itamar Vieira Junior – Quem decide o que será escrito, como será escrito e quando será entregue sou eu. Ter essa autonomia é importante, porque o processo criativo necessita de tempo. E tempo é algo escasso para todos nós. Tudo é desejado com muita urgência. Mas eu não sofro essa pressão. E isso contribui imensamente para que eu possa escrever livremente. Tanto que meus editores nem sabem sobre o que estou escrevendo. Eu não costumo compartilhar. Só compartilho quando considero que está pronto.
As protagonistas de “Torto Arado” são mulheres. “Salvar o Fogo” nos apresenta outras duas mulheres fortes, Luzia e Mariinha. De que maneira você, enquanto homem, construiu essas personagens?
Itamar Vieira Junior – Para mim, essa é a beleza da literatura, da criação: a possibilidade de a gente se colocar no lugar do outro. Tanto quem cria quanto quem lê. Eu escrevi histórias sob a perspectiva de personagens mulheres porque decidi que teria que ser assim. Acho que cada história traz as suas exigências, e eu preciso ter sensibilidade para entender as exigências daquela narrativa. Foi com essa sensibilidade que descobri que essas histórias precisavam ter essas personagens em primeiro plano, contando a história. Sempre penso que a criação literária guarda certa relação com a arte da representação, com o ofício do ator e da atriz. De que maneira? O ator e a atriz sobem ao palco e interpretam a personagem com um corpo inteiro. O escritor faz algo muito parecido, só que o palco dele é a página em branco. Ele sobe naquele “palco”, entre aspas, e ali interpreta a vida das personagens. Essa é a beleza da literatura: a liberdade que temos para criar.
Tuas personagens contam a história de um Brasil com herança escravocrata, que massacrou e massacra povos negros e indígenas. Construir os personagens com essa carga histórica foi proposital?
Itamar Vieira Junior – Eu venho das ciências humanas. Sou geógrafo de formação, mas também estudei antropologia e sociologia. Essa leitura do mundo é uma leitura que a ciência e as disciplinas me deram. Só pude realizar essa interpretação do mundo a partir de tudo aquilo que aprendi. Quando penso na colonização e na escravidão, embora sejam eventos que tenham se iniciado no passado entre nós, eles ainda reverberam no nosso presente, no nosso cotidiano, de muitas maneiras. Essa compreensão, essa percepção de que tudo isso continua muito vivo entre nós, é o que me fez entender que era importante escrever sobre essas questões.

Itamar, aqui em Santa Maria nós temos comunidades indígenas das etnias kaingang e guarani. Lá, há luta por visibilidade e questões básicas, como água potável e acesso. Você acha que ainda há um caminho para maior valorização desses povos?
Itamar Vieira Junior – Eu acho que há um caminho muito forte. Essas sociedades ainda continuam vítimas de violência, mas já vivemos em um tempo em que não fechamos os olhos para essas questões. Acho que temos nos conscientizado, nos educado. A educação tem um papel importante para que a gente reconheça a existência dessas sociedades. Tem uma coisa que considero importante: vivemos em um mundo em crise. Talvez a crise que mais tire o nosso sono, seja a crise climática, o aquecimento global, que já mudou a vida em muitos lugares. O Rio Grande do Sul, há dois anos, viveu uma tragédia de proporções épicas. Acho que esses são desafios do nosso tempo. E muitas das soluções de que precisamos para enfrentar tudo isso da melhor maneira estão, por exemplo, na relação que os indígenas e os quilombolas estabeleceram com a natureza. Se formos olhar os espaços onde eles vivem, muitos desses lugares são preservados. A terra não é habitada de uma maneira exploratória, tão nociva. É preciso estabelecer uma relação de convivência e coexistência com a natureza. E, quando se fala nisso, as populações indígenas e quilombolas têm muito a nos ensinar.
Colocar essas pessoas como protagonistas na literatura, é uma forma de mudança?
Itamar Vieira Junior – Eu acho. Como a literatura se debruça sobre a experiência humana, às vezes ela consegue devolver à humanidade aquilo que parece desumanizado. E a literatura não fica apenas na superfície. Ela fala dos eventos, mas também das nossas emoções, dos nossos sentimentos. Ela se ocupa das nossas subjetividades. E, quando podemos conhecer tudo isso por meio das histórias e das personagens, deixamos de olhar para uma pessoa indígena da mesma maneira. Não vamos olhar para uma pessoa quilombola da mesma maneira, nem para uma pessoa negra da mesma maneira.
Como a universidade pública moldou teu pensamento crítico e influenciou a tua escrita?
Eu fui a primeira geração da minha família a ingressar na universidade. Isso teve um impacto muito grande não só na minha vida, mas também na vida dos meus irmãos. Todos seguiram esses caminhos, de estudar na universidade pública e continuar a formação. E eu só pude estudar porque a universidade era pública. Se hoje eu escrevo, se hoje posso conversar sobre muitas coisas, é porque tive o privilégio de receber uma educação pública de qualidade.
Há algo que a pesquisa acadêmica e o trabalho técnico sobre território não consegue alcançar, mas a ficção sim?
Acho que são coisas distintas. Elas podem até se complementar, mas são diferentes. Uma pesquisa acadêmica geralmente é escrita em seus próprios termos, em termos acadêmicos. Ela consegue comunicar, por meio do uso de referencial teórico e de um repertório conceitual, uma linguagem que muitas vezes é própria dos especialistas daquela área. O conhecimento acadêmico é importante e continuará sendo importante, porque é a partir dele que se estrutura o pensamento intelectual de uma sociedade. E acho que a literatura vai por outro caminho. Como ela é uma expressão artística, tem uma certa liberdade na linguagem. Como ela emula histórias, é recriação, é baseada na ficção, consegue atingir outras dimensões da vida que talvez um trabalho científico não alcance. Acho que elas podem caminhar lado a lado, e que cada uma é importante à sua maneira.
O que vem primeiro quando tu pensa na história: os personagens, o cenário ou o conflito?
A literatura se debruça sobre a experiência humana. Então, tudo o que está nela nasce do ser humano. Para mim, uma história só prospera, só vai em frente, se eu considerar a personagem. Mas as personagens, assim como nós, carregam suas questões, seus conflitos, suas diferenças, seus traumas e seus dramas. E aí vem tudo o que aparece depois. Para conhecer a personagem, eu preciso conhecer as suas histórias. Para conhecer a personagem, preciso conhecer a paisagem onde ela se encontra. Tudo isso é importante, mas as personagens vêm sempre primeiro.

É possível escrever sem ler?
Não. Não é possível. Ninguém nasce escrevendo. Essa é uma habilidade que conquistamos ao longo da vida. E isso vai depender muito do quanto você se entrega para a leitura.. É a partir do hábito que vai nascer a habilidade. Eu sempre digo: quem escreve vive imerso em linguagem. Eu não posso expressar uma história a partir do movimento do meu corpo ou da dança. Para que uma história aconteça para mim, ela precisa ser escrita. E, para que ela seja escrita, eu preciso dominar um repertório, preciso dominar uma linguagem, porque vou me utilizar dela para representar a história. E de que maneira eu posso melhorar isso? Lendo. Então, não é possível escrever sem ler. A leitura é parte desse processo.
Em um ano de eleições, o que você espera do novo governo em relação à cultura?
Independentemente de quem vença, o importante é que tenhamos um compromisso com a democracia. Porque, se vivemos em uma democracia, vamos ter atenção à educação, à cultura. Vamos ter uma atenção especial à saúde, à moradia. Não dá para pensar que um ou outro vai trazer a solução. É importante que nós também tenhamos essa capacidade de dialogar, porque isso temos perdido. Não era comum que a gente, mesmo defendendo candidatos diferentes, não pudesse conversar. E, nas últimas eleições, a gente não tem conseguido fazer isso. É preciso que a gente se afaste dessas bolhas e que possa estabelecer um diálogo, afinal. Somos todos brasileiros e vivemos no mesmo país.
E o que nós, seus leitores, podemos esperar de você?
Olha, espero ter tempo, saúde e vida para continuar escrevendo. Para continuar a ter esse encontro com leitores, porque, durante muito tempo da minha vida, eu tive dificuldade: eu lia e queria correr atrás dos livros, das histórias, do que há de bom na literatura, mas não encontrava com quem fazer isso. E a minha vida de escritor me colocou em contato com muitos outros escritores e muitos leitores. Então, realmente eu trabalho e circulo fazendo o que eu gosto. Espero escrever mais e poder encontrar leitores para conversar sobre essas e outras histórias.