Muita gente acredita que cannabis medicinal ajuda em ansiedade, depressão e outros transtornos mentais. De fato, alguns setores da sociedade tem pressionado para o uso de compostos derivados da maconha para tratamento de uma série de transtornos. Mas o que mostram os fatos? Uma grande revisão liderada por Jack Wilson, publicada em março de 2026, analisou experimentos clínicos com mais de 2 mil participantes para responder essa pergunta. O resultado foi decepcionante para a maioria das condições. Não se encontrou benefício para tratamento de ansiedade, depressão, estresse pós-traumático, transtornos psicóticos ou dependência de opioides. Em várias dessas áreas, simplesmente não existem dados suficientes ou os resultados são negativos. Isso chama atenção porque essas são justamente as principais razões pelas quais muitas pessoas usam cannabis como tratamento. Na prática, o uso está crescendo mais rápido do que a evidência científica que o sustenta.
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Cannabis não é inofensiva e pode atrasar tratamentos eficazes
Outro ponto relevante do estudo foi a segurança. Pessoas que usaram compostos derivados da cannabis tiveram mais efeitos adversos, como náusea, tontura e desconforto geral. Em média, a cada sete pessoas tratadas, uma apresentou algum efeito colateral adicional. Há ainda um risco indireto: o uso de cannabis pode substituir ou atrasar tratamentos com eficácia comprovada, como psicoterapia ou medicamentos bem estabelecidos. Em condições como ansiedade e depressão, isso pode significar perder tempo com uma estratégia menos eficaz. Com essas informações, é impossível justificar, por exemplo, investimento de dinheiro público com esses tratamentos, pois pode não haver eficácia para tratar o que se deseja, e há possibilidade real de apenas termos mais pessoas com efeitos colaterais.
Onde a cannabis pode ajudar
Apesar dos resultados negativos para muitos transtornos, a revisão de Wilson e colaboradores encontrou alguns efeitos positivos em áreas específicas. A combinação de dois componentes da cannabis reduziu sintomas de abstinência e quantidade de uso em pessoas com dependência de maconha. Também houve melhora em tiques (como na síndrome de Tourette), e alguma redução de sintomas no autismo. Mas há um detalhe importante: a qualidade dessas evidências foi considerada baixa, ou seja, pode ter sido um efeito aleatório ou explicada por outra situação.
Em outras palavras, os resultados são incertos e podem mudar com estudos melhores. Todavia, incentiva que mais estudos sejam feitos para se diminuir o grau de incerteza sobre este assunto. Diante desse cenário, o uso rotineiro de cannabis para tratar transtornos mentais ainda carece de base minimamente sólida. As informações que temos até o momento e a conclusão dos autores é de que não há base real para incorporar cannabis medicinal na prática do psiquiatra, para nenhum transtorno mental.