Foto: Paulo Barauna (Divulgação)
Fragmentos de cerâmica, ferramentas de pedra e vestígios de antigas aldeias indígenas agora têm um espaço permanente em Dona Francisca. Inaugurado no último dia 22, o Museu Arqueológico da Quarta Colônia reúne cerca de 3 mil peças encontradas no sítio arqueológico Albino Marzari, na comunidade de Linha Grande. As pesquisas apontam que a área foi ocupada por comunidades guaranis há cerca de 1,5 mil anos.
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A criação do museu começa ainda em 2024, quando as enchentes expuseram as peças em uma lavoura de arroz, no interior do município. As peças ficaram escondidas por séculos. Quando vieram à superfície, revelaram detalhes sobre os povos indígenas que habitaram a região entre os anos 430 e 1600.
Segundo a produtora cultural Ariane Gassen Vargas, uma das responsáveis pelo projeto, o trabalho envolveu escavações, curadoria do acervo e a adaptação de um prédio histórico para receber o museu:
– A preparação foi muito longa. Fizemos escavações, curadoria do acervo e depois passamos para a adequação de um prédio histórico no centro da cidade para receber esse novo museu.
O espaço foi instalado no antigo auditório da Escola São Carlos, prédio histórico que sediou a primeira escola das Irmãs Palotinas da América do Sul. A estrutura passou por adaptações para garantir acessibilidade, conservação e segurança das peças arqueológicas. Além da exposição dos materiais encontrados nas escavações, o museu busca proporcionar uma imersão na história dos povos originários. Entre os recursos disponíveis, estão telas interativas com relatos de comunidades indígenas contemporâneas, que mantêm vivas suas tradições.

A expectativa dos organizadores é de que o museu fortaleça o turismo regional ligado às iniciativas do Geoparque Quarta Colônia, reconhecido pela Unesco e conhecido pelas atrações voltadas à paleontologia, gastronomia e patrimônio cultural.
– Precisamos reconhecer que a história da região não começa apenas com a colonização europeia. Os povos indígenas deixaram um legado importante, presente na cultura, na alimentação e nos costumes até hoje – destaca Ariane.
Alguns achados expostos no museu
A coleta dos materiais começou logo após as enchentes. Na época, pesquisadores da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) realizaram uma coleta emergencial de 600 peças. Uma das primeiras descobertas foi que o sítio já havia sido identificado em 1969 com o nome RS-MJ-60 – Albino Marzari.

Após o resgate emergencial do material, ocorrido logo depois das enchentes, a equipe de arqueologia realizou o tratamento das peças conforme as normas do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Cada fragmento foi inventariado, analisado e recebeu um código específico para garantir o controle do patrimônio arqueológico. Análises revelaram traços que ajudam a compreender o modo de vida dos povos indígenas que habitaram a região. Confira alguns dos achados, agora expostos no museu:
- Cerâmicas – Entre os achados mais numerosos, estão os fragmentos de cerâmica. As peças corrugadas eram moldadas com pequenos roletes de argila, unidos e comprimidos com as mãos. Também foram identificadas cerâmicas lisas e outras com coloração ou acabamento mais refinado. Estima-se que eram usadas para servir as refeições.
- Tembetá, um adorno indígena – Entre os objetos mais raros encontrados, está o tembetá, um adorno utilizado pelos povos indígenas. Por serem delicados, costumam se fragmentar com o tempo, por isso, a peça encontrada em Dona Francisca é considerada rara. Os pesquisadores acreditam que o tembetá era usado em rituais de passagem, que marcaram a transição para a fase adulta.
- Pedra lascada – Eram utilizadas por povos caçadores-coletores. Essas pedras funcionavam como ferramentas para afiar lanças e confeccionar objetos cortantes.
- Calcedônia – Entre os materiais encontrados, também está a calcedônia, uma pedra avermelhada e pontiaguda. Por suas características, os arqueólogos acreditam que eram utilizados como raspadores ou furadores.
Saiba mais sobre o sítio arqueológico: