
Durante muito tempo, quando se falava em infraestrutura escolar, a atenção se concentrava nas salas de aula, no telhado, nos banheiros, na cozinha, na quadra e nos espaços de convivência. E com razão. A boa escola pública sempre dependeu de prédio digno, bem cuidado e adequado ao trabalho dos professores e à permanência dos estudantes.
Mas a escola do nosso tempo passou a exigir também outra estrutura essencial: a conectividade. Não se trata de substituir aquilo que sempre foi necessário, mas de acrescentar uma nova camada à infraestrutura educacional. Hoje, internet de qualidade é tão importante para o funcionamento da escola quanto energia elétrica, mobiliário, livros, equipamentos e espaços pedagógicos adequados.
O Brasil avançou nos últimos anos nessa agenda. A Estratégia Nacional de Escolas Conectadas, coordenada pelo Ministério da Educação e pelo Ministério das Comunicações, busca garantir internet de qualidade para uso pedagógico nas escolas públicas da educação básica. O desafio, contudo, não se resume a instalar um ponto de internet na escola. A pergunta correta é outra: essa conexão chega à sala de aula? Ela funciona com estabilidade? Permite o uso por professores e estudantes? Há rede wi-fi adequada? Existem equipamentos, formação e planejamento pedagógico para que a tecnologia faça sentido?
É nessa diferença que está o ponto central. Escola conectada de verdade não é apenas aquela que possui contrato de internet. É aquela em que a conexão sustenta o trabalho pedagógico, amplia o acesso ao conhecimento, permite o uso de plataformas educacionais, apoia a gestão escolar e ajuda a reduzir desigualdades.
Os dados de Santa Maria ajudam a compreender esse cenário. Segundo relatório do MEC, 75,38% das escolas do município estão conectadas dentro dos parâmetros adequados. O índice é relevante, mas ainda está abaixo do percentual estadual informado no mesmo levantamento, de 82,99%. O relatório mostra que 100% das escolas consideradas possuem energia adequada, mas a velocidade de internet adequada alcança 76,92% das unidades, e o wi-fi adequado chega a 86,15%. Ou seja, o problema já não está apenas na existência de energia ou na chegada inicial da conexão, mas na qualidade e na distribuição interna do acesso.
Outro dado merece atenção: 78 escolas de Santa Maria são apoiadas pelas políticas da Estratégia Nacional de Escolas Conectadas, com R$ 864.932 recebidos via PDDE PIEC entre 2023 e 2025. São recursos importantes, mas que precisam estar associados a planejamento. Sem diagnóstico da rede, priorização das escolas com maior dificuldade, orientação técnica e acompanhamento, a política pública corre o risco de perder força no caminho entre o orçamento e a sala de aula.
A conectividade também precisa ser compreendida como parte da infraestrutura escolar. De pouco adianta falar em educação digital se a escola não tem rede interna adequada, equipamentos disponíveis, espaços preparados e professores apoiados para incorporar os recursos tecnológicos ao cotidiano pedagógico. Tecnologia, por si só, não melhora a educação. Quem melhora a educação é o bom professor, com condições adequadas de trabalho, bons instrumentos e uma escola preparada.
Santa Maria tem uma tradição educacional importante e uma rede que deve olhar para essa agenda com responsabilidade. O avanço da conectividade não pode ser tratado como assunto exclusivamente técnico ou como simples aquisição de serviço. Ele precisa fazer parte do planejamento educacional do município, articulado à infraestrutura, à formação docente, à gestão escolar e ao currículo.
A escola pública brasileira sempre foi construída com esforço, presença territorial e compromisso coletivo. O novo desafio é garantir que essa mesma escola, preservando sua função essencial, esteja preparada para o mundo digital. Conectar a escola é importante. Mas conectar bem, com qualidade, propósito e uso pedagógico real, é o que fará diferença para os estudantes.
A TR Assessoria e Projetos atua justamente nessa integração entre planejamento educacional, infraestrutura e execução de políticas públicas, apoiando municípios na transformação de dados e programas federais em ações concretas para a rede de ensino.
Tiago Radünz | Arquiteto e Urbanista | CEO da TR Assessoria & Projetos