
Santa Maria sabe o valor da educação. A presença da Universidade Federal de Santa Maria, a força das escolas públicas e a formação de professores ajudam a explicar por que o tema sempre teve peso na identidade local. Justamente por isso, a cidade não pode tratar a ampliação da escola em tempo integral como uma medida administrativa qualquer. Permanecer mais tempo na escola pode ser uma grande oportunidade para crianças e adolescentes. Mas, sem estrutura, planejamento e gestão, a boa intenção se transforma em improviso.
O conceito parece simples: ampliar a jornada escolar para sete horas diárias ou 35 horas semanais. Na prática, exige muito mais do que alterar horários. Uma escola que recebe o aluno por mais tempo precisa alimentar melhor, acolher melhor, organizar melhor os espaços, qualificar as atividades pedagógicas e garantir condições adequadas para professores, funcionários e estudantes. Tempo integral não é apenas mais tempo dentro do prédio. É outra forma de organizar a escola.
Os dados oficiais mostram que a política já entrou na agenda municipal. O relatório educacional do MEC informa que a rede municipal de Santa Maria possui 12,09% das matrículas da educação básica em jornada de tempo integral. Também registra que o município apresentou política de educação em tempo integral e declarou 260 matrículas no Programa Escola em Tempo Integral no ciclo 2024–2025. Há, portanto, uma porta aberta. O problema é que política pública não se mede apenas pela adesão ao programa. Mede-se pela capacidade de fazê-la funcionar todos os dias.
É nesse ponto que a infraestrutura deixa de ser detalhe e passa a ser condição de sucesso. Na rede municipal, 100% das escolas convencionais possuem água potável, energia elétrica, esgoto e banheiro. Esse é um dado positivo. Mas outros números revelam o tamanho do desafio: apenas 41,86% possuem quadra; 50% possuem pátio; 43,02% contam com laboratório de informática; e somente 5,81% possuem laboratório de ciências. A ampliação da jornada precisa vir acompanhada de um plano físico da rede.
Uma escola em tempo integral precisa de cozinha em boas condições, refeitório adequado, áreas cobertas para dias de chuva, espaços de convivência, biblioteca, salas multiuso, quadra, acessibilidade, segurança, ventilação e manutenção permanente. O aluno que fica mais tempo na escola não pode permanecer o dia inteiro em uma estrutura pensada para apenas um turno.
Esse alerta vale especialmente para municípios de médio porte, como Santa Maria, que possuem rede complexa, orçamento pressionado e demandas simultâneas. Há problemas de aprendizagem a enfrentar, filas na educação infantil, valorização dos profissionais, manutenção predial e expansão de vagas. Nenhum gestor público sério ignora essas pressões. Mas justamente por isso o planejamento deve ser mais rigoroso, e não mais improvisado. A boa administração pública sempre ensinou que o recurso público precisa ser aplicado com método, prioridade e responsabilidade.
A ampliação do tempo integral deve começar por uma pergunta objetiva: quais escolas da rede municipal têm condições reais de receber a jornada ampliada com qualidade? Depois, vêm outras perguntas inevitáveis: onde faltam espaços cobertos? Onde a cozinha atende à nova
demanda? Onde será necessário melhorar banheiros, acessos, pátios e áreas esportivas? Quais bairros concentram maior vulnerabilidade social? Sem esse diagnóstico, corre-se o risco de transformar uma política importante em uma promessa difícil de sustentar.
Santa Maria pode avançar. A cidade tem história, conhecimento técnico, instituições fortes e capacidade de mobilização. Mas o avanço precisa sair do discurso. Educação em tempo integral não se consolida apenas com portaria, matrícula declarada ou recurso previsto. Ela se consolida quando o aluno encontra uma escola preparada para recebê-lo com dignidade, alimentação, atividades qualificadas e espaços adequados.
O poder público precisa agir antes que a expansão aconteça de forma desordenada. É melhor planejar agora do que corrigir depois. É melhor escolher prioridades com base em dados do que responder apenas à pressão do momento. Na educação, como na construção civil, aquilo que começa sem projeto costuma custar mais caro no futuro.
É nesse campo que a TR Assessoria e Projetos atua: apoiando gestores públicos na leitura técnica da rede física, na estruturação de projetos, na organização de prioridades e na transformação de metas educacionais em obras, ampliações e soluções possíveis. Tempo integral é uma boa meta. Mas, para que ela seja justa, eficiente e duradoura, precisa caber dentro de uma escola real, preparada e bem planejada.
Tiago Radünz Arquiteto e urbanista | CEO da TR Assessoria e Projetos