Foto: Rian Lacerda (Diário)
A sobrecarga no Pronto-Socorro do Hospital Universitário de Santa Maria (Husm) virou uma rotina que testa os limites físicos e emocionais de pacientes e profissionais de saúde na região central do Estado. Com taxas de ocupação que ultrapassam os 250%, e que chegou ao pico de 320% na quarta-feira (27), a instituição, que é referência para dezenas de municípios gaúchos, não consegue dar vazão ao volume de pessoas. O impacto é sentindo nos corredores transformados em leitos improvisados, pacientes graves espremidos em salas que comportam apenas um terço da demanda e equipes assistenciais operando à beira do esgotamento.
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Na manhã desta quinta-feira (28), a reportagem do Diário esteve dentro do Husm e presenciou um cenário que o próprio superintendente do hospital, Humberto Moreira Palma, classificou como “triste”. Do lado de fora, a movimentação de ambulâncias chegando de diversas partes do Rio Grande do Sul não parava. Enquanto um veículo desembarcava um paciente na emergência, outro já encostava para buscar alguém que havia recebido alta, num esforço contínuo da instituição para tentar liberar espaço.

O interior do Pronto-Socorro reflete a falta de espaço para comportar todo mundo. Corredores antes destinados apenas à passagem abrigam pacientes com diferentes problemas e níveis de gravidades, pessoas sob custódia e familiares em pé, disputando espaço com a correria de médicos e enfermeiros.
Entre a noite de terça (26) e às 16h de quarta-feira (27), o Pronto-Socorro atingiu o pico de 320% de lotação, com a entrada de 62 novos pacientes. Já o balanço parcial até as 9h desta quinta-feira (28) contabilizava outras 43 admissões desde a noite anterior, operando a uma taxa de 227%.
"Estamos adoecendo com nossos pacientes"

Uma enfermeira que atua na linha de frente, e que preferiu não ser identificada, desabafou sobre a realidade exaustiva do setor.
– As equipes de assistência estão no limite do desgaste físico e emocional. Passamos o dia inteiro com a Sala Vermelha (destinada a casos graves) superlotada. Essa sala, que tem capacidade máxima para quatro pacientes, está com 12 no momento. É desumano para a equipe e para os próprios pacientes. Não tem como realizar um bom atendimento com o mínimo de qualidade e eficácia necessária nos primeiros momentos de chegada ao hospital – relatou.
Segundo a profissional, o estresse gerado pela sobrecarga tem reflexos diretos na força de trabalho.
– A cada dia que passa, perdemos funcionários por diversos problemas de saúde e perdemos também a motivação, pois não somos ouvidos. Não há resolutividade da direção do Husm junto aos órgãos competentes. As equipes de emergência pedem socorro. Estamos adoecendo juntamente com os nossos pacientes – completou.
"Há necessidade urgente de uma reformulação da rede de urgência e emergência da região"
Administrado pela HU Brasil Hospitais Universitários Federais (antiga Ebserh), em parceria com os governos federal e estadual (responsável pela regulação), o Husm não pode recusar pacientes. Todos os que chegam são examinados e avaliados.
O superintendente da instituição, Humberto Palma, reconhece que a fila de espera e o longo tempo para as triagens geram transtornos. Ele argumenta que o problema não está apenas dentro do Hospital Universitário, mas, sim, na fragilidade do sistema básico de saúde nos municípios da região.
– Há necessidade urgente de uma reformulação da rede de urgência e emergência da região. Alguns municípios se estruturaram para fazer a sua atenção primária, mas outros têm isso de forma muito frágil. Cerca de 50% da nossa demanda vem de Santa Maria, que é a maior cidade da região e também tem dificuldades na sua rede básica. O hospital universitário não consegue, isoladamente, trabalhar toda a rede de atenção – avaliou o superintendente.
Enquanto as redes municipal e estadual não absorve a demanda de menor complexidade, o Husm segue tentando equilibrar a balança com transferências para hospitais de apoio e autorizações de saída para quem já apresenta melhora clínica.
– O que nós pedimos à população é que tenha consciência e procure outros pontos de entrada no sistema, como as Unidades Básicas (UBS), as Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) e os Pronto Atendimentos (PAs). Para que esses pacientes possam ser triados lá e venham para o Husm somente se realmente necessário – apelou Palma, garantindo que o Pronto-Socorro não fechará as portas.
– Conforme vão chegando, nós vamos alocando no corredor, procurando dar o máximo de segurança. Mas eu não posso simplesmente tirar o paciente do hospital para desafogar o sistema, eu preciso que a alta seja segura – afirma.
O que diz a SES
A reportagem do Diário entrou em contato com a Secretaria Estadual da Saúde (SES), órgão responsável por regular os leitos no Rio Grande do Sul, para buscar um posicionamento mas ainda não obteve retorno.