Foto: Eduardo Ramos (Diário/Arquivo)
Com o atual contrato de concessão da Malha Sul próximo do fim, o futuro das ferrovias volta ao centro das discussões. Para o Sindicato dos Ferroviários do Estado, a proposta apresentada pelo governo federal para a nova concessão não resolve os problemas acumulados ao longo dos últimos anos e ainda divide uma estrutura que, historicamente, integra Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná.
As ferrovias são operadas, atualmente, pela empresa Rumo Logística, com sede no Paraná. A concessão se encerra em fevereiro de 2027, e não há interesse da União em renovar com a Rumo.
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Em entrevista ao Bom Dia, Cidade! da Rádio CDN, nesta segunda-feira (13), o presidente do Sindicato dos Ferroviários do Rio Grande do Sul, João Calegari, afirmou que a entidade acompanha audiências públicas e debates sobre o futuro da malha férrea. Segundo ele, o sindicato se posiciona contra o modelo de divisão apresentado para a nova concessão.
O Ministério dos Transportes planeja licitar a região em três lotes. Uma das áreas busca conectar o porto de Rio Grande a Uruguaiana, integrando o Estado à malha da Argentina.
— Temos debatido bastante contra esse projeto apresentado pelo governo para renovação de contrato, nesse fatiamento. A Malha Sul são os três Estados: Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul — afirmou.
O cenário, segundo Calegari, tornou-se ainda mais grave após as enchentes. Atualmente, conforme o presidente da entidade, o sistema ferroviário gaúcho está sem ligação com as demais malhas ferroviárias do país e mantém em operação apenas o trecho entre Cruz Alta e Rio Grande, por onde é escoada a produção de grãos do Estado.
O chamado Tronco Sul, que dá acesso a Santa Catarina e ao restante do Brasil, permanece interditado. De acordo com o sindicalista, há pontes caídas, túneis obstruídos e trechos de linha danificados. Ele também cita problemas na ligação entre Canoas, Rio Pardo e Santa Maria.
— Após as enchentes, a ferrovia do Estado está totalmente sem ligação com as demais malhas ferroviárias do Brasil. Estamos operando somente Cruz Alta ao porto de Rio Grande. O nosso acesso, chamado Tronco Sul, a Santa Catarina e ao resto do país, está interditado. Não foi removida uma pá de barro — disse.
Para Calegari, no entanto, a deterioração da estrutura ferroviária gaúcha não começou com os eventos climáticos. Ele afirma que, ao longo do período de concessão, diferentes ramais foram fechados e a extensão da malha em funcionamento diminuiu. Atualmente, segundo o sindicato, pouco mais de 900 km permanecem em operação no Estado.
— A situação já era ruim. Agora, está caótica. Não era novidade para ninguém que, durante o contrato de concessão, a concessionária fechasse vários ramais no Estado do Rio Grande do Sul. Hoje, só temos 900 e poucos quilômetros em operação — informou.
Sindicato questiona divisão da malha
Uma das principais críticas da entidade está no modelo apresentado para o futuro da concessão. Segundo Calegari, a proposta divide trechos que estão em operação daqueles que atualmente estão paralisados.
O presidente do sindicato citou o ramal de Uruguaiana, fechado, segundo ele, há 16 anos e que necessitaria de investimentos elevados para voltar a operar.
Para Calegari, o Rio Grande do Sul perdeu espaço no transporte ferroviário ao longo dos anos, apesar das características do modal, como a capacidade de transportar grandes volumes e a redução na emissão de gases em comparação com outros meios de transporte.
— Ferrovia é um valor alto, apesar de toda a condição de um transporte de maior capacidade, de redução de gases, um transporte muito necessário mundialmente. Mas estamos totalmente atrasados. O Rio Grande do Sul só perdeu com essa concessão, com a privatização da ferrovia. A cada ano de concessão, vem reduzindo a sua operação — declarou.
Questionado sobre a possibilidade de empresas demonstrarem interesse no futuro leilão, Calegari disse que o governo sinaliza a existência de interessados, mas que, até o momento, o sindicato não vê informações concretas sobre possíveis participantes.
Ele também citou a situação financeira do Grupo Cosan, do qual a Rumo faz parte, e comparou os investimentos realizados em outras regiões do país com o cenário da Malha Sul. Na avaliação do sindicalista, houve investimentos significativos nas malhas de São Paulo e Goiás, enquanto o mesmo não teria ocorrido no Sul.
Transporte de cargas e falta de investimentos
Para o presidente do sindicato, a falta de investimentos no Rio Grande do Sul ocorreu por falta de interesse da própria concessionária. Ele afirma que o transporte ferroviário atual está concentrado principalmente no agronegócio e que a indústria utiliza pouco o modal.
Mesmo em um Estado com forte produção agrícola, Calegari afirma que produtores enfrentam dificuldades para utilizar a ferrovia. Como exemplo, citou a região de Uruguaiana e Alegrete, produtora de arroz.
— Mesmo aqui no Estado, a concessionária impõe muitas regras para transportar o produto produzido pelo produtor gaúcho. Se pegarmos o exemplo de Uruguaiana, a região para baixo de Alegrete, um baita produtor de arroz, ela teve que entrar na Justiça para manter o transporte do arroz da região, porque o ramal foi fechado — afirmou.
Incerteza também atinge trabalhadores
A situação da malha e a proximidade do fim da atual concessão também geram preocupação entre os ferroviários. Conforme João Calegari, cerca de 400 funcionários trabalham atualmente na região do trecho em operação entre Cruz Alta e o Porto de Rio Grande. O presidente do sindicato afirma que a indefinição sobre o futuro da ferrovia afeta diretamente os trabalhadores. Além dos funcionários demitidos, há ferroviários que foram transferidos para outros Estados após os danos provocados pelas enchentes.
Segundo o dirigente, mais de 100 trabalhadores transferidos para o Paraná e São Paulo aguardam a possibilidade de retornar ao Rio Grande do Sul.
— Os funcionários trabalham numa condição psicológica muito ruim. Eles não sabem o dia de amanhã. Temos funcionários que foram demitidos, e muitos já aguardam o retorno da ferrovia para voltar. Também temos mais de 100 funcionários que querem retornar ao Estado e estão fora, porque optaram pela oportunidade de conseguir um emprego em outro Estado do grupo da Rumo — relatou.
Para o sindicato, a discussão sobre o novo modelo de concessão ocorre, portanto, em um momento de infraestrutura danificada, redução da operação ferroviária e incerteza para os trabalhadores. A entidade afirma que seguirá acompanhando as audiências e os debates sobre o futuro da Malha Sul.