Quanto custa completar vários álbuns ao mesmo tempo? Pesquisa da UFSM tenta resolver problema matemático sem solução desde 1961

Colaboração de Alexandre La Bella

Quanto custa completar vários álbuns ao mesmo tempo? Pesquisa da UFSM tenta resolver problema matemático sem solução desde 1961

Foto: Vinicius Becker (Diário)

Com 980 cromos, o álbum de figurinhas da Copa do Mundo de 2026 é o maior já lançado pela Panini e também o mais caro para ser completado. Sem trocas, o investimento pode chegar a cerca de R$ 7,3 mil, segundo cálculos matemáticos já conhecidos. Agora, uma pesquisa desenvolvida pelo professor do Departamento de Estatística (DSTC) da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Rodrigo Marinho, e pela graduanda em Estatística da UFSM, Maria Eliza Castro, busca responder uma questão ainda mais complexa: quanto é necessário gastar, sem trocas, para completar vários álbuns da Copa ao mesmo tempo?

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"Desde 1961, ninguém conseguiu resolver"

Foto: Vinicius Becker (Diário)

A pesquisa desenvolvida surgiu dentro do grupo de pesquisa Probabilidade e Processos Estocásticos a partir do estudo sobre processos aleatórios e tempo necessário para que determinados sistemas atinjam um estado final. Dentro dessa linha, os pesquisadores passaram a analisar casos chamados “absorventes”, em que o processo termina ao atingir um objetivo, como completar um álbum de figurinhas.

– Nós começamos a olhar esse tipo de processo e descobrimos que tinha um problema superinteressante relacionado ao colecionador de figurinhas – conta Marinho.

A origem mais direta da investigação veio quando o professor encontrou a questão ao acompanhar artigos publicados no ArXiv, plataforma internacional de pré-publicações científicas bastante usada por pesquisadores de matemática, estatística e física.

– Vi esse problema e pensei: “Olha, tem esse problema aqui. Desde 1961 ninguém conseguiu resolver” – relata.

O problema remete ao trabalho clássico dos matemáticos Paul Erdős e Alfréd Rényi, publicado em 1961. A dupla desenvolveu uma fórmula para estimar o comportamento desse tipo de coleção quando o número de figurinhas é muito grande. No entanto, segundo Marinho, essa expressão funciona apenas em casos específicos, especialmente quando o número de álbuns permanece pequeno em relação à quantidade total de cromos.

É justamente esse limite que a pesquisa da UFSM tenta avançar: entender matematicamente quanto é necessário gastar, quando o desafio deixa de ser completar um único álbum e passa a envolver várias coleções ao mesmo tempo, sem a possibilidade de trocas.

O estudo considera que todas as figurinhas têm a mesma probabilidade de aparecer e desconsidera cromos promocionais como os das garrafas da Coca-Cola.


Por que vários álbuns tornam o problema mais difícil

Se completar um único álbum já envolve cálculo de probabilidade, o problema aumenta quando o colecionador tenta preencher duas ou mais coleções ao mesmo tempo. Isso porque figurinhas repetidas deixam de ser descartáveis e passam a ter utilidade em outros álbuns. Marinho explica que, na prática, o reaproveitamento altera o comportamento probabilístico e torna o cálculo mais complexo.

– Se eu tenho dois álbuns, eu posso aproveitar e colar no segundo álbum. Então já começa a ficar mais complexo o problema. E quanto maior o número de álbuns, mais difícil essa conta fica – detalha.

Conforme o professor, a dificuldade está justamente em modelar matematicamente esse reaproveitamento. A lógica usada para estimar o preenchimento de um único álbumnão se aplica de forma direta quando há várias coleções simultâneas.


Como os pesquisadores testam hipóteses

Foto: Vinicius Becker (Diário)

Para analisar esse comportamento, a pesquisa usa simulações computacionais conduzidas pela graduanda em Estatística Maria Eliza.

O método replica o processo de montagem dos álbuns diversas vezes para medir o tempo médio — ou a quantidade média de figurinhas que precisam ser compradas — até completar diferentes quantidades de álbuns.

– Ele pega mil réplicas e conta o tempo dessas mil réplicas e tira a média – explica Maria Eliza.

Depois disso, os pesquisadores comparam os resultados entre três frentes: a média observada nas simulações, a fórmula clássica já conhecida e a nova hipótese matemática desenvolvida pela dupla.

Segundo Marinho, o objetivo é verificar qual modelo representa melhor o comportamento real quando o número de álbuns cresce


Resultados iniciais e próximos passos

A graduanda em Estatística da UFSM, Maria Eliza Castro, 27, e o professor do DSTC da UFSM, Rodrigo Marinho, 32.Foto: Vinicius Becker (Diário)

Os primeiros resultados indicam que a fórmula clássica proposta por Erdős e Rényi começa a perder precisão à medida que o número de álbuns aumenta. Nas comparações feitas a partir das simulações, a diferença entre o resultado teórico e o observado se torna maior conforme mais coleções entram no cálculo.

– Quando começamos a aumentar o número de álbuns, vemos que a razão entre a média observada e a expressão dada pela fórmula deles fica diferente de 1. – afirma Marinho.

Ao mesmo tempo, a hipótese desenvolvida por Maria Eliza e Marinho tem apresentado comportamento mais próximo dos resultados esperados nas simulações.

– Até então, à medida que o número de álbuns aumenta, a nossa hipótese está se comportando bem – diz o professor.

Apesar dos avanços, o principal desafio agora é transformar essa hipótese em uma demonstração matemática que permita calcular, de forma precisa, o valor necessário para completar diferentes quantidades de álbuns. Segundo Marinho, as simulações indicam que o caminho está correto, mas a dificuldade está em desenvolver e provar uma formulação geral que se sustente teoricamente.

A pesquisa deve integrar o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) de Maria Eliza, com potencial de se desdobrar em estudos futuros, como uma dissertação de mestrado. A dupla afirma que prefere avançar com cautela antes de considerar a solução consolidada.

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