Com avanço do El Niño, especialistas afirmam que prevenção e alertas podem minimizar impactos

Com avanço do El Niño, especialistas afirmam que prevenção e alertas podem minimizar impactos

Foto: Vinicius Becker (Diário)

Fenômenos climáticos raramente chegam sem avisar. Antes das enchentes, temporais e alagamentos, há meses de monitoramento, projeções e sinais observados por meteorologistas que acompanham o comportamento da atmosfera e dos oceanos. Desta vez, o cenário que começa a ser anunciado pelos especialistas é a formação de um El Niño de forte intensidade, com potencial para antecipar períodos de chuva acima da média no Rio Grande do Sul ainda durante o inverno e, principalmente, na primavera.

Com o avanço acelerado do aquecimento das águas do Oceano Pacífico Equatorial, meteorologistas já projetam um cenário de mais chuva, temporais e episódios de instabilidade no Estado nos próximos meses. Ao mesmo tempo, especialistas e autoridades afirmam que estruturas de monitoramento, sistemas de alerta e medidas de prevenção foram reforçados desde as enchentes de 2024, na tentativa de reduzir possíveis impactos.


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O meteorologista da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) Murilo Lopes explica que o aquecimento das águas do Pacífico ocorreu de forma mais rápida do que o esperado. Conforme o especialista, o El Niño deve se consolidar antes do período habitual, o que pode antecipar seus efeitos no Sul do país.

– O que nós temos visto é que já atingimos a taxa de aquecimento que começa a caracterizar a formação do fenômeno El Niño. Com a manutenção desse aquecimento, os primeiros impactos já podem ser sentidos a partir do inverno – explica.

Especialistas como o meteorologista Murilo Lopes (foto ao lado) defendem monitoramento constante das condições climáticasFoto: Vinicius Becker (Diário)

Ao encontro da previsão dos meteorologistas, a Administração Oceânica e Atmosférica Nacional (NOAA), dos Estados Unidos elevou, de 61% para 82% ,a probabilidade de consolidação do fenômeno no trimestre entre maio e julho, diante do contínuo aquecimento das águas do Pacífico Equatorial. Para o Rio Grande do Sul, Lopes destaca que o principal efeito esperado é o aumento da frequência e da intensidade das chuvas, especialmente durante a primavera.

O meteorologista explica que esse aquecimento das águas do Pacífico altera a circulação atmosférica e favorece a chegada de umidade ao Sul do Brasil:

– Em condições normais, os sistemas meteorológicos passam com intervalos maiores. Com o El Niño, há mais umidade vindo da Amazônia e sistemas mais frequentes, o que favorece episódios de chuva intensa – diz.


Será um super El Niño?

A possibilidade de um “super El Niño”, termo usado para episódios de intensidade muito forte, tem chegado acompanhado do temor de uma nova enchente. Mas, especialistas sugerem cautela. Segundo Lopes, os modelos meteorológicos mais recentes apontam cerca de 30% de probabilidade de o fenômeno atingir esse patamar. Apesar das projeções, especialistas alertam que um novo episódio de enchente extrema, como o registrado em 2024, não é uma consequência automática do fenômeno. A cheia histórica foi resultado da combinação de diferentes fatores atmosféricos, que incluiu um bloqueio que manteve a chuva concentrada sobre o Estado durante vários dias, condição que não pode ser prevista com tanta antecedência.

Um relatório divulgado neste mês pelo Comitê Científico de Adaptação e Resiliência Climática do Estado confirma que os períodos de El Niño aumentam o risco de chuvas intensas e temporais. O documento, porém, ressalta que eventos extremos não dependem apenas das condições meteorológicas, mas também de fatores como vulnerabilidade urbana, ocupação de áreas de risco e capacidade de resposta do poder público.


O alerta precisa chegar antes da tempestade

Entre as medidas já adotadas para amenizar possíveis impactos, Lopes cita a ampliação da rede de monitoramento meteorológico e hidrológico no Rio Grande do Sul. Segundo ele, atualmente o Estado tem mais estações de acompanhamento de chuva e rios do que em 2023, o que permite respostas mais rápidas em situações de risco.
Além disso, os sistemas de alerta também precisam ser reforçados. O meteorologista também cita o uso do Cell Broadcast – tecnologia que envia mensagens emergenciais diretamente para celulares em áreas de risco:

– Hoje essa política de alertas funciona muito melhor do que no último El Niño. Isso é fundamental para que a população consiga se preparar com antecedência.

O meteorologista ressalta ainda que os cenários mais críticos poderão ser avaliados com maior precisão nos próximos meses, no período do inverno. Enquanto isso, a recomendação é manter atenção especial para possíveis temporais, alagamentos e impactos na agricultura.

– Ter um El Niño intenso não significa necessariamente repetir a tragédia de 2024. Mas a tendência de mais chuva no Sul do Brasil existe e exige preparação tanto do poder público quanto da população – afirma.


Pesquisadores da Fiocruz apontam medidas

Pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) estiveram em Santa Maria neste mês para acompanhar de perto os impactos dos eventos climáticos e discutir medidas capazes de reduzir os danos causados por fenômenos como o El Niño. A visita faz parte do projeto “Justiça climática e resiliência comunitária”, desenvolvido em parceria com a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Ao Diário, Christovam Barcellos e o Diego Xavier, pesquisadores da fundação, falaram sobre as percepções sobre a cidade e o que pode ser feito para minimizar impactos futuros.


"Prevenção é o melhor caminho", sugere geógrafo

O geógrafo Christovam Barcellos esteve em Santa Maria e avaliou possíveis impactosFoto: Thais Immig (Diário)

De imediato, o geógrafo da Fiocruz Christovam Barcellos afirma que, “infelizmente”, os desastres climáticos devem continuar ocorrendo nos próximos anos diante do aquecimento global e das mudanças climáticas. Apesar disso, ele defende que “a prevenção é o melhor caminho” para reduzir os impactos. Sobre Santa Maria, explica que as características geográficas do município aumentam a vulnerabilidade diante de fenômenos como o El Niño. Por isso, cada região da cidade exige uma estratégia específica de prevenção.

– Santa Maria tem áreas de fundo de vale sujeitas a enchentes e alagamentos, além de encostas com risco de deslizamentos e perdas agrícolas. Cada parte do município precisa de atenção diferenciada – diz.

De acordo com Barcellos, uma das medidas mais urgentes é a criação de sistemas de alerta específicos para diferentes áreas da cidade, o que permite respostas rápidas em situações de emergência. Já a médio e longo prazo, o geógrafo defende ações estruturais como reflorestamento, contenção de encostas, construção de barragens e recolocação de famílias que vivem em áreas consideradas de risco.


Sistema de saúde

Para além de ações in loco e investimentos, o pesquisador defende que o sistema de saúde precisa estar preparado para o aumento de doenças após enchentes e alagamentos:

– Depois de uma enchente, cresce o risco de leptospirose, dengue e hepatite. As unidades de saúde e hospitais precisam estar preparados com exames diagnósticos, leitos e profissionais suficientes para atender essas situações. Isso salva vidas.

Barcellos defende maior integração entre diferentes áreas da administração pública:

– Agricultura, Meio Ambiente, Saúde e Habitação precisam dialogar. Eu gosto muito da imagem de todos esses gestores olhando para um mapa e identificando quais áreas estão sob risco, que tipo de risco enfrentam e como integrar políticas públicas para salvar essas pessoas.


“Não dá mais para negar o problema”, avalia pesquisador da Fiocruz

Pesquisador Diego Ricardo Xavier afirma que enfrentar eventos extremos exige preparação permanente Foto: Thais Immig (Diário)

O primeiro passo para enfrentar os impactos do El Niño e dos eventos climáticos extremos é deixar de negar o problema. Essa é a avaliação do pesquisador epidemiologista da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Diego Ricardo Xavier, que esteve em Santa Maria para discutir medidas de prevenção e adaptação climática no município. Para ele, as mudanças no comportamento do clima já provocam consequências diretas na saúde pública, na infraestrutura das cidades e na vida da população, o que exige planejamento permanente e investimentos em prevenção.

Não adianta negar e achar que ele vai desaparecer. Não vai. Ele vai aumentar. Não dá mais para negar que existe uma mudança no comportamento do clima que traz problemas de saúde pública, jurídicos e socioambientais – afirmou.

De acordo com o pesquisador, Santa Maria tem um papel estratégico na região, especialmente na área da saúde, o que aumenta a preocupação diante da possibilidade de novos eventos extremos relacionados ao El Niño:

Santa Maria é polo. É um local onde as pessoas vêm resolver problemas, principalmente problemas de saúde. Então, se Santa Maria cai, cai a região toda. Por isso, é muito importante que Santa Maria não entre em colapso e que os municípios do entorno também tenham estrutura, para não sobrecarregarem Santa Maria, principalmente do ponto de vista da saúde.

De uma forma geral, ao olhar para as cidades durante um desastre climático, ele chama atenção para a fragilidade estrutural dos sistemas públicos diante de situações de emergência. Conforme ele, hospitais e serviços de atendimento já operam próximos do limite e têm pouca margem para suportar aumentos repentinos de demanda.

– O sistema funciona no limite, não há folga, porque é caro manter um médico, é caro manter uma UTI. Então, se você não usa, acaba desabilitando. Quando acontece um desastre, você é pego justamente naquilo que deveria existir como suporte extra – afirmou.

Na avaliação de Xavier, o principal desafio continua sendo transformar a prevenção em prioridade permanente das gestões públicas. Ele lembra que a própria legislação brasileira já prevê políticas preventivas, mas que, na prática, ainda há pouco investimento nessa área. Nessa linha, entram na discussão as dificuldades financeiras dos municípios, o que impede maiores investimentos para enfrentar eventos extremos.

– Existem municípios que não conseguem ser resilientes justamente porque não investem em prevenção. E a prevenção acaba não sendo uma bandeira muito levantada pelos gestores, porque não é uma ação evidente, que traga algum ganho político imediato – avaliou.


Em ano eleitoral, é preciso cobrar medidas

É fundamental, na avaliação do pesquisador, que a população acompanhe e cobre dos gestores públicos ações concretas voltadas à prevenção e adaptação climática. O alerta ganha ainda mais relevância em um ano eleitoral, período em que os eleitores irão avaliar propostas de candidatos a cargos como presidente, governador e deputados.

– É muito importante saber se o candidato tem um plano para isso. Existem vários planos sendo construídos nas esferas federal, estadual e internacional. Então, basta o gestor se informar – afirmou.

Para o pesquisador, enfrentar os impactos de fenômenos como o El Niño exige planejamento contínuo, monitoramento das ações adotadas e participação ativa da sociedade na fiscalização das políticas públicas:

– A população precisa cobrar: os gestores atuais ou futuros têm um plano de resiliência? Está funcionando? Houve um evento. O que não funcionou? O que precisa ser cobrado? Acho que, se a população seguir nesse sentido, teremos um caminho razoável para melhorar as coisas a partir disso – avalia o pesquisador da Fiocruz.


Santa Maria aposta em prevenção contínua para reagir a catástrofes

A prevenção e a preparação para eventos climáticos extremos têm se tornado uma política permanente em Santa Maria, e não apenas uma resposta voltada a um eventual episódio de El Niño. A avaliação é do secretário municipal de Resiliência Climática e Relações Comunitárias, Edson Roberto das Neves Junior, que afirma que o município tem investido em um planejamento para minimizar impactos de eventos climáticos.

Segundo o secretário, a criação da própria secretaria já representa uma mudança importante na forma como Santa Maria passou a tratar os desastres naturais e tecnológicos:

Os eventos adversos vão acontecer. Não é a criação da secretaria e nem as obras que vão impedir os desastres. O que buscamos é prevenir, preparar as pessoas e fazer com que a cidade consiga restabelecer a normalidade de maneira mais rápida.

Secretário falou sobre o que o município tem feito para se prevenir em relação aos desastres climáticosFoto: Vinicius Becker (Diário)

O secretário destaca que a preparação da cidade não está focada em enchentes ou em um possível El Niño intenso. A ideia, segundo ele, é estruturar um modelo capaz de responder aos mais variados tipos de eventos extremos. Dentro dessa estratégia, Santa Maria desenvolveu um Plano de Rotina Operacional, considerado uma das principais ferramentas da gestão municipal para antecipação e organização das respostas.


O que está sendo feito

O sistema trabalha com cinco níveis operacionais (normalidade, alerta moderado, alerta alto, alerta muito alto e alerta extremo) definidos a partir do monitoramento de diferentes institutos e indicadores climáticos.

– Hoje temos um plano para antes do desastre. Quando o alerta sobe, as equipes já entram em preparação: viaturas são abastecidas, equipes ficam de plantão, equipamentos são organizados e outras secretarias começam a atuar – diz.

O município também criou um sistema digital de cadastro de famílias atingidas por desastres, o que permite agilizar atendimentos, identificar moradores em situação de vulnerabilidade e organizar respostas mais rápidas durante emergências. Conforme Neves Junior, os dados coletados também ajudam a mapear áreas vulneráveis e orientar futuras intervenções urbanas.

– Antes, as pessoas precisavam enfrentar filas para fazer cadastro. Hoje elas conseguem enviar informações pelo celular, incluindo fotos e localização. Isso dá agilidade para a prefeitura tomar decisões, captar recursos e direcionar equipes com muito mais rapidez – explicou.

Executivo destaca ações como visitas técnicas aos locais de riscoFoto: João Vilnei (PMSM)

Entre as ações já executadas ou em andamento estão obras de contenção, desassoreamento de rios e arroios, melhorias em drenagem urbana e reassentamento de famílias que viviam em áreas de risco. Outro foco da prefeitura tem sido o fortalecimento dos núcleos da Defesa Civil, em diferentes pontos da cidade, além da formação de voluntários. O secretário também reforça que a população precisa acompanhar informações oficiais:

– Quem mora próximo de rios precisa acompanhar o nível da água. Quem vive em áreas de encosta precisa observar sinais como rachaduras, árvores inclinadas e excesso de chuva. Muitas vezes, sair antes evita perdas muito maiores. A população precisa entender que ela também faz parte da gestão do risco.


“Estamos mais preparados”

Apesar dos avanços, Neves Junior ressalta que nenhum município pode se considerar totalmente preparado diante da imprevisibilidade dos eventos climáticos extremos:

– Eu nunca digo que estamos preparados, porque eu não sei o que vai acontecer. Mas posso afirmar que Santa Maria está mais preparada do que estava em 2024 e caminha de maneira muito madura para se tornar uma referência nacional em gestão de riscos e desastres.


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