Foto: Vinicius Becker (Diário)
Com a celebração do Dia Mundial da Abelha, na terça-feira (20), e do Dia do Apicultor, nesta sexta (22), a semana reforça a importância da produção apícola no Rio Grande do Sul. O setor dá sinais de recuperação após as perdas causadas pelas enchentes de 2024 e projeta, segundo a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater), alcançar 11 mil toneladas de mel no Estado em 2026. Na Região Central, o cenário também é de melhora. Em 2025, foram registradas 190,41 toneladas de mel, das quais 74,4 toneladas foram comercializadas. A projeção para este ano é de um volume ainda maior.
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Em meio às datas, a reportagem do Diário visitou um apiário, localizado nos fundos do Instituto São José, no Bairro Dom Antônio Reis, em Santa Maria, e conversou com Patric Luderitz, presidente da Associação de Apicultores de Santa Maria (Apismar), para entender como funciona uma produção apícola.
45 mil abelhas em uma colmeia

O apiário visitado é pequeno: são 30 caixas espalhadas pelo campo dos fundos da instituição de ensino tradicional da cidade. Mesmo fora do período de maior safra, que ocorre durante a primavera e verão, a produção chama atenção.
Ao observar uma das colmeias cercada por árvores, Luderitz identifica rapidamente o rendimento pela movimentação das abelhas.
— Eu conheço de olhar, pela quantidade de abelhas que entra e sai — explicou.
Dentro da caixa aberta durante a visita, há um enxame com cerca de 45 mil abelhas que produz há dois meses. Ao retirar a tampa, aparece a estrutura interna da colmeia. Na parte superior está a melgueira, separada em quadros, onde o mel é armazenado. Já na parte inferior ficam o ninho e a criação, área onde se jovem abelhas emergem e permanece a rainha.
— Uma caixa dessas geralmente dá em torno de 10 a 12 quilos de mel — detalhou.
Após a coleta, os quadros seguem para a Casa do Mel da Apismar, onde passam pela centrífuga para a retirada do mel, que depois é armazenado e comercializado.
— A gente tira daqui, limpa e passa para a centrífuga. Depois vai para as peneiras, para os decantadores e depois para o balde — descreveu Luderitz.
A produtividade varia conforme o manejo, o clima e a disponibilidade de floradas. Em apiários maiores, as caixas podem ser deslocadas para áreas com maior concentração de flores para ampliar o rendimento. Em condições favoráveis, uma única colmeia pode chegar a produzir até 100 quilos de mel durante a safra.
— Movemos elas conforme a florada e conseguimos aumentar bastante a produção — relatou Luderitz.
Nos períodos de frio ou escassez de alimento, o manejo também exige suporte nutricional para manter as colmeias.
— Daqui uns dias começam a chuva e o frio, e elas não conseguem se alimentar mais. É quando usamos alimentos energéticos e proteicos — acrescentou Luderitz.
No apiário com mais de 60 aos fundos do Instituto São José, a assistência técnica da Apismar teve impacto direto no rendimento recente. Segundo o apicultor responsável, Francisco Bellé, 72, o acompanhamento técnico e o manejo adequado fizeram a produção local aumentar de três a quatro vezes ao longo do período.
A produção mel em Santa Maria

Em Santa Maria, a produção de mel está concentrada principalmente em pequenos e médios apicultores, muitos ligados à agricultura familiar. Na cidade, a Apismar reúne cerca de 80 produtores e atua no apoio técnico, manejo e também na retirada de enxames em áreas urbanas.
Conforme Luderitz, a maior parte do mel produzido ainda permanece no mercado regional. A comercialização ocorre principalmente em feiras, mercados e na venda direta.
— O mel produzido em Santa Maria é praticamente todo consumido na região - afirma.
Já os produtores de maior escala conseguem escoar parte da produção para entrepostos e exportação.
— Alguns maiores produtores acabam exportando, vendendo para os entrepostos grandes que vêm buscar na nossa região e levam para fora do Rio Grande do Sul e, consequentemente, para fora do Brasil - explica.
Desafios atuais
Entre os principais desafios enfrentados pelos apicultores estão as instabilidades climáticas, a mortandade de abelhas e os impactos causados por contaminações e manejo inadequado no campo.
Luderitz explica que diante da possibilidade de eventos climáticos extremos, como o El Niño, a orientação aos apicultores é retirar colmeias de áreas de baixio, vales e beiras de rio, além de manter alimentação constante para as abelhas.
— O clima está muito instável. Se chover demais, lava as flores e não tem produção. Se tiver muito frio, aborta a flor. Se tiver muito quente, seca tudo - conta.
Além da questão climática, o uso incorreto de defensivos agrícolas ainda preocupa apicultores, principalmente pelo risco de perdas de enxames.
— Sempre é uma preocupação a questão dos defensivos agrotóxicos, que podem vir a afetar nossas abelhas e seguidamente, infelizmente, por más aplicações, acabamos perdendo enxames - relata.
Importância das abelhas além do mel

Na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), o trabalho de pesquisa e extensão também tem contribuído para o fortalecimento da atividade apícola e para a preservação das espécies, com atuação próxima de produtores e associações da região, como a Apismar.
Para entender a importância das abelhas para além da produção de mel e os impactos desses insetos no meio ambiente e na segurança alimentar, a reportagem também conversou com a professora titular do Departamento de Zootecnia da UFSM e responsável pelo Laboratório de Apicultura e Meliponicultura (Lapimel-UFSM), Fernanda Cristina Breda Mello.
— As abelhas participam da polinização de aproximadamente 70% das plantas que fornecem alimentos e, dessa forma, ajudam a melhorar a quantidade e a qualidade da produção agrícola — explica.
Além do impacto ecológico, a importância econômica também é significativa. Segundo dados citados pela pesquisadora, os serviços de polinização prestados principalmente pelas abelhas representam bilhões de reais para a agricultura brasileira, especialmente em culturas como soja, café, laranja e maçã.
— De acordo com o 1º Relatório Temático sobre Polinização, Polinizadores e Produção de Alimentos publicado em 2019, os serviços de polinização prestados pelos animais, especialmente as abelhas, à agricultura brasileira foram estimados em R$ 43 bilhões em 2018 — destaca.
Apesar de serem amplamente associadas apenas ao mel, as abelhas também produzem outros derivados e cumprem uma função ecológica indispensável durante a coleta de recursos naturais.
— As abelhas produzem mel, própolis, geleia real, cera, apitoxina e coletam pólen. Durante a coleta de néctar, pólen, resina de árvores e água, elas realizam o serviço de polinização aos ecossistemas — afirma.
A professora conta que dentro da colmeia, a produção do mel envolve um processo biológico complexo. O néctar coletado das flores é armazenado e transformado até atingir o ponto ideal para consumo e colheita.
— O néctar é armazenado no estômago das abelhas, onde ocorre a quebra da sacarose em glicose e frutose, por meio da enzima invertase. Depois, o mel é armazenado nos favos e inicia-se o processo de maturação — explica.
A diversidade de flora e de espécies de abelhas no Brasil também faz com que o mel produzido no país tenha características próprias. Só no Rio Grande do Sul, por exemplo, a Secretaria do Meio Ambiente e Infraestrutura lista 24 espécies de abelhas nativas sem ferrão, reforçando essa riqueza biológica que influencia sabores, aromas e cores dos méis em cada região.
Na questão de preservação das abelhas, segundo a pesquisadora, depende tanto do manejo correto por parte dos produtores quanto da conscientização da população sobre o papel desses polinizadores para o equilíbrio ambiental.
— Apicultores e meliponicultores devem buscar conhecimento e dialogar com agricultores para evitar a contaminação de colônias por defensivos agrícolas. Já a população precisa compreender a importância da polinização e promover ações que ajudem a preservar o meio ambiente — conclui.