Da infância às rodas de samba: quem é Martha Adaime fora do cargo

Da infância às rodas de samba: quem é Martha Adaime fora do cargo

Fotos: Vinicius Becker (Diário)

As primeiras memórias que Martha Adaime tem são da infância, quando tinha 4 anos. Desde pequena, não ficava para trás. Caçula de quatro irmãos, ela lembra que insistia em acompanhar as meninas mais velhas da rua e implorava para ir à escola antes da hora. Aprendeu cedo sobre autonomia, organização e resistência. Essas virtudes a acompanhariam por toda a vida. Agora, sentam, junto à Martha, na cadeira mais cobiçada da Reitoria da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) – cargo que assumiu, oficialmente, em 25 de dezembro.


+ Receba as principais notícias de Santa Maria e região no seu WhatsApp


Infância

Filha do bancário Jorge Adaime e da dona de casa Lecy Maria Bohrer Adaime, ela foi criada em escola pública. Percorria a cidade a pé quando criança. Eram outros tempos. Não era a melhor aluna, tampouco a pior. Era constante. Mediana, como ela mesma define, mas curiosa e disciplinada. A adolescência passou sem grandes rupturas: a maior rebeldia foi recusar o vestido tradicional dos 15 anos.

– Todo mundo queria festa de 15 anos com vestido, aquela coisa toda. Eu não. Eu queria calça jeans. Aquela obrigação de vestir um papel que não era meu, aquilo me incomodava. Essa foi a minha grande revolta de adolescente – conta.

Com apenas 16 anos, Martha atravessava o arco da UFSM pela primeira vez para cursar Química Industrial. Aos 26, em 1989, já era doutora pela Universidade de Campinas (Unicamp). No mesmo ano, retornava à UFSM como docente, decidida a ficar perto dos pais:

– Sempre entendi que precisava estar perto dos meus pais quando eles precisassem de mim. Eu sabia que, na velhice, eles iam precisar de cuidado. E, para um químico, Santa Maria só tinha a universidade. Então eu me esforcei para fazer o concurso e voltar.

Em entrevista ao Diário, Martha contou sobre infância, desejos e rotina fora da universidade


A experiência em Campinas foi o divisor de águas. Longe de casa, aprendeu a decidir, planejar e sustentar a própria rotina – experiência que moldou a gestora que viria a ser. Ali, lembra, não tinha casa, comida ou companhia dos pais. “Era você e você”, resume.


Lazer

Nada de lugares sofisticados. O descanso de Martha tem mesa compartilhada, cerveja gelada e conversa que se estende sem pressa. Se for preciso sair direto do trabalho, melhor ainda. Há alguns anos, foi apresentada à Escola de Samba Vila Brasil. No samba de chão, despertou a paixão pelo ritmo. Não sabe sambar, reconhece, mas descobriu seu próprio jeito de acompanhar a bateria.

– As pessoas não imaginam isso, porque a Martha séria, a Martha que está sempre decidindo coisas importantes, parece que não combina com isso. Mas eu sempre gostei de música, de Carnaval – conta.

Falar de Martha fora da UFSM é falar de viagens. Desde jovem, fixou como meta uma ou duas viagens por ano. Queria conhecer o mundo enquanto o corpo permitisse. Entre tantas opções, Fernando de Noronha foi uma experiência quase espiritual:

– Quando cheguei na Baía do Sancho e vi aquela praia azul, comecei a chorar. Porque aquilo não foi construído por ninguém. Não era uma maravilha feita pelo homem. Era uma coisa de Deus.

O que define Martha, também, é o cuidado com a aparência e com a saúde. No movimento do corpo, sabe os limites que seis décadas de vivências impõem. No dia a dia, não abre mão de um cabelo e unha bem- feitos. Tampouco sai de casa sem os acessórios, que combinam com a roupa. Herança direta da mãe, que cuidou da aparência até os últimos anos:

– Minha mãe era extremamente vaidosa. Mesmo velhinha, na cadeira de rodas, parava no espelho para passar um batom.

Martha mostra, com orgulho, o móvel reservado para os acessórios

Ao mesmo tempo, Martha é desapegada de bens materiais. Durante a vida, casas ficaram para trás, móveis foram vendidos, e roupas, doadas.


O amor à primeira vista (de Nilson)

Nilson entrou na vida da reitora em 2015, quando teve início a relação do casal

Martha Adaime conta que, em 2015, quando conheceu o atual marido Nilson Medeiros Alves, nunca teve tanta prova para corrigir. Foi a desculpa que encontrou para “fugir” de um primeiro encontro. Não pensava em um relacionamento, tampouco imaginou que “o grisalho risonho” que viu pela primeira vez em um bar pudesse se transformar em uma relação duradoura:

– Eu fugi. Fugi mesmo. Dizia que estava corrigindo prova, corrigindo tese. Fugi uns 15 dias. Eu não queria me envolver.

Até que, em uma noite chuvosa, Martha aceitou sentar e conversar com Nilson. Dali, não demorou muito para o início do namoro e a oficialização da união.

– A gente sentou para conversar e não parou mais. O bar fechou, a cozinha fechou, e a gente continuou ali, conversando – lembra Martha.


O feminismo

Martha nunca se apresentou como militante nos moldes tradicionais, mas sempre soube reconhecer os limites impostos às mulheres – especialmente dentro da universidade. O feminismo, para ela, foi menos teoria e mais vivência, aprendido no cotidiano. Um dos episódios mais recentes, lembra Martha, foi durante a campanha à Reitoria:

– Nos últimos quatro anos, como vice-reitora, não posso negar que atitudes muito machistas começaram a aparecer. Algumas colegas me chamaram atenção para isso. Aí teve um momento que o Luciano (Schuch, ex-reitor) me contou que, quando disse que iria me apoiar, pelo menos cinco ou seis homens foram até ele dizer que teriam melhores condições de assumir a Reitoria, sendo que nenhum deles tinha a mesma história institucional que eu. O que é isso, se não é machismo?

Mas Martha evita rótulos. Prefere batalhar por mais mulheres nos cargos de destaque das instituições de ensino:

– Não me considero feminista. Sempre entendi que a gente tinha que ir trabalhando e abrindo espaço. Quero que minha chegada nesse cargo ajude as mulheres a perceberem que é possível. Que não é sonho, que não é algo distante. É realidade. Santa Maria demorou mais, infelizmente. Em outras universidades aqui do Sul, já estão na segunda reitora.


Perguntas e respostas

  • Um lugar "Baía do Sancho (Pernambuco)"
  • Cor"Violeta"
  • Uma comida "Tabule"
  • Uma música “Não deixe o samba morrer”, da Alcione
  • Time do coração – "Grêmio"
  • O que a indigna? "Injustiça"
  • O que lhe dá esperança? "O olhar de uma criança"
  • Um momento desafiador "A eleição da Reitoria"
  • Qual seu sonho? "O que eu ia falar, não vou realizar nessa vida, que é ser mãe. Puxa vida, eu sou tão feliz com os sonhos que tive até agora. Será que eu preciso sonhar mais? (risos). Eu sou bem feliz com os sonhos que tive. Ver minha afilhada feliz e formada no que ela quer, esse é um sonho."
  • Ser reitora é… "uma realização. Eu não sonhei com isso, mas foi a realização de algo que as circunstâncias foram me levando."
  • A UFSM em uma palavra? "Transformadora"

Carregando matéria

Conteúdo exclusivo!

Somente assinantes podem visualizar este conteúdo

clique aqui para verificar os planos disponíveis

Já sou assinante

clique aqui para efetuar o login

Luciano Schuch transmite o cargo de reitor para Martha Adaime, primeira mulher a comandar a UFSM e outras notícias Anterior

Luciano Schuch transmite o cargo de reitor para Martha Adaime, primeira mulher a comandar a UFSM e outras notícias

CDL Santa Maria sorteia carro zero e encerra Natal Presente 2025 Próximo

CDL Santa Maria sorteia carro zero e encerra Natal Presente 2025

Geral