Solidão e envelhecimento

José Carlos Campos Velho

O envelhecimento é uma etapa natural da vida humana, marcada por mudanças físicas, psicológicas e sociais. Se tudo der certo, ficaremos velhos. Embora possa ser um período de sabedoria, experiências acumuladas e maior autoconhecimento, também traz desafios importantes, entre eles a solidão, que afeta um número crescente de pessoas idosas em todo o mundo.

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A solidão no envelhecimento está frequentemente relacionada a transformações no convívio social. A aposentadoria pode reduzir o contato diário com colegas de trabalho, enquanto a saída dos filhos de casa, a perda do cônjuge e de amigos próximos diminuem as redes de apoio. Além disso, limitações físicas, dificuldades de locomoção e problemas de saúde podem restringir a participação do idoso em atividades sociais, favorecendo o isolamento.

É importante destacar que solidão não significa apenas estar sozinho, mas sentir falta de vínculos significativos. Muitos idosos vivem acompanhados, mas ainda assim se sentem solitários por não terem relações afetivas profundas ou espaços para expressar sentimentos, opiniões e necessidades. Esse sentimento pode gerar impactos negativos na saúde mental, como tristeza, ansiedade, baixa autoestima e depressão, além de influenciar a saúde física, aumentando o risco de doenças. Sabe-se que a solidão aumenta o risco de distúrbios cognitivos, internações em instituições de longa permanência e mesmo a mortalidade.

O envelhecimento em uma sociedade que valoriza excessivamente a juventude também contribui para a solidão.Uma questão aqui se coloca: a solidão não afeta somente idosos, mas todo o espectro social Porém, frequentemente, o idoso é invisibilizado, desvalorizado ou excluído de decisões familiares e sociais, o que reforça sentimentos de inutilidade e abandono. A falta de políticas públicas eficazes e de ambientes inclusivos agrava ainda mais essa realidade.

Neste aspecto, na Inglaterra e no Japão iniciativas tem surgido no sentido de enfrentar esta situação. A Inglaterra criou um Ministério da Solidão, que busca fomentar a discussão e o surgimento de propostas que possam instrumentalizar a discussão de um tema tão complexo. Também no Japão, o fenômeno toma proporções epidêmicas. Em ambos os países um dos fatores que disparou o alerta foi o aumento do número de suicídio entre idosos e grande parte deles eram solitários. A solidão é um problema social, que se acompanha de maior morbidade física e psíquica e para a qual não existe remédio. As soluções podem passar por estratégias de políticas públicas que reinventem formas de inclusão, contato intergeracional e convivência social.

Interessante artigo de um médico francês coloca que ele se deu conta do problema da solidão através de alguns pacientes que voltavam com frequência ao seu consultório. O que ocorria é que a consulta abria uma oportunidade de interação social, tanto no momento em que a pessoa conversava com o médico quanto nas relações que eventualmente se estabeleciam nas salas de espera. A revista Lancet, em um editorial dedicado ao tema, sugere que os médicos procurem estabelecer relações significativas com os idosos que os procuram, porquê a busca de alívio do sofrimento causado pela solidão pode estar escondida atrás de queixas vagas. A prescrição social pode ser utilizada nestas situações: o médico receita participação em grupos de idosos, atividades físicas coletivas, devidamente registradas em seu receituário.

Por outro lado, a solidão no envelhecimento não é inevitável. A promoção do envelhecimento ativo, com incentivo à participação social, cultural e comunitária, é fundamental para melhorar a qualidade de vida dos idosos. Atividades em grupos, centros de convivência, projetos intergeracionais e o fortalecimento dos laços familiares ajudam a criar sentimentos de pertencimento e propósito.

O papel da família e da sociedade é essencial nesse processo. Ouvir o idoso, respeitar sua história, estimular sua autonomia e garantir espaços de convivência são atitudes que contribuem para um envelhecimento mais saudável e digno. Além disso, o acesso à tecnologia, quando bem orientado, pode facilitar a comunicação e reduzir o isolamento social.

Assim, compreender a relação entre solidão e envelhecimento é fundamental para construir uma sociedade mais empática e inclusiva. Envelhecer com qualidade de vida significa não apenas cuidar do corpo, mas também das relações humanas, do afeto e do sentido de pertencimento, elementos indispensáveis para o bem-estar em todas as fases da vida.

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