O Bairro do Alto da Lapa, em São Paulo, é um local aprazível, com muitos casarões das décadas de 1950 e 1960, arborizado, com praças e parques, que em parte vem sendo atualmente verticalizado, pela presença, cada vez mais frequente, de prédios eminentemente residenciais. As grandes famílias que habitavam estes casarões foram diminuindo e uma parte deles foi sendo alugado para uma finalidade específica: a instalação de Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPIs), o que costumávamos chamar de casas de repouso ou asilos.
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Existe um grande número de ILPIs no local, essencialmente residências coletivas para idosos, que não se caracterizam por serem clínicas de assistência à saúde dos idosos. Uma grande polêmica vem ocorrendo atualmente neste bairro, de classe média alta, que é o questionamento da presença deste tipo de ocupação no lugar, pois as mesmas estariam descaracterizando e desvalorizando o bairro. Gestões tem sido feitas junto à prefeitura para a cassação dos alvarás de funcionamento destas casas, pressionando para o seu fechamento. A vizinhança, descontente com as ILPIs, tem tomado atitudes como colocar som alto, com rock pesado, nas janelas das casas, direcionando-os para estas instituições, com o objetivo explícito de causar desconforto às pessoas idosas que ali vivem; tem feito campanhas com filmagens, exibidas nas redes sociais e na mídia, mostrando o movimento de ambulâncias e de carros funerários circulando no bairro. Numa das filmagens, um morador fala abertamente: “– mais um defunto”, apontando para o carro funerário, indignado pela situação.
Quem tem razão nessa história toda? Claramente estamos nos defrontando com manifestações explícitas de etarismo, o preconceito contra idosos, de forma agressiva e pouco sutil – ao contrário, de maneira aberta e dura. Trata-se de pessoas, em sua maioria, em final de vida, que frequentemente vão para estas instituições como último recurso de moradia, pois esgotaram-se as possibilidades de viverem sós ou na companhia de outrem. Carecem de um mínimo de espírito humanitário ações que culminem na perda do local de moradia para estes idosos, atitude que pode ser vista como higienista, pois procura “limpar” da sociedade algo que “atrapalha” e compromete a qualidade de vida do bairro, levando à sua desvalorização.
A posição da prefeitura, questionada por muitos, tem sido de cassar alvarás de algumas instituições privadas, entendendo que as mesmas estariam ferindo a legislação, colocando imóveis com conotação comercial nestas áreas estritamente residenciais. Se passearmos um pouco ao longo destas ruas calmas e aprazíveis, veremos que um grande número de casas estão à venda ou sendo alugadas – e os bairros ficando vazios. É natural, pelas características da região, que elas se tornem foco de escolha para a constituição de ILPIs: são casas espaçosas e tranquilas, permitindo a alocação de um número razoável de idosos, em uma região que não é distante da cidade, o que facilita seu funcionamento e a manutenção de uma vida mais inclusiva aos idosos, pois assim podem estar próximos de seus familiares, permitindo que sejam visitados com facilidade e também que tenham acesso fácil à recursos de atenção à saúde. Colocar os idosos que necessitam de abrigo em lugares distantes é uma espécie de segregação, o que vai de forma contrária à políticas inclusivas, que coloquem a velhice não às escondidas da sociedade, mas fazendo parte dela como um segmento que a integra, seja qual for a condição e o momento que esteja a pessoa idosa esteja vivendo.
É uma questão complexa, que engloba a forma como a sociedade vê e vivencia a finitude e a velhice. O importante é que as decisões fossem tomadas sob a luz de uma legislação clara, justa e democrática. A verdade é que esta legislação não existe no que tange a esta questão em particular, ou, se existe, pode ser interpretada de forma dúbia. Por um lado, estão idosos em situação de enorme vulnerabilidade e por outro, moradores de um bairro que buscam preservar a sua vida sem mudanças no seu ambiente. As opiniões sobre o assunto são muito divergentes.
É claro que atitudes extremas, deseducadas e rudes não ajudam a tornar o debate mais civilizado e resolutivo. Há que existir uma alternativa que seja ponderada e que se adeque ao desejo de ambas as partes. Mas simplesmente negar às pessoas idosas a possibilidade de viverem em paz seus últimos anos de vida, em condições dignas e respeitosas, não deve estar entre as alternativas contempladas. A sociedade tem dificuldades de lidar com questões desta complexidade, pois ainda valoriza a juventude e a potência como características louváveis; a fragilidade acaba sendo vista com descaso e preferencialmente escondida da vista das pessoas. Fragilidade esta que pode fazer parte do futuro de qualquer pessoa, pois embora a velhice possa ser um construção positiva pelas atitudes que tomamos ao longo da vida, sempre existem as incertezas, o imponderável e o imprevisível. É melhor aceitarmos esta possibilidade de uma futura necessidade, como a de precisarmos um dia de uma moradia coletiva que nos cuide de forma digna, do que tomarmos uma atitude de intolerância e indiferença à vulnerabilidade.