Caso Gabriel: pais do jovem falam no primeiro dia do julgamento dos PMs acusados de homicídio

Caso Gabriel: pais do jovem falam no primeiro dia do julgamento dos PMs acusados de homicídio

Foto: Vitória Parise (Diário)

Júri popular, que pode durar quatro dias, teve início na manhã desta segunda, no Fórum da cidade. Após intervalo durante o jogo do Brasil na Copa, sessão foi retomada com depoimentos de testemunhas.

O primeiro dia do júri dos três policiais militares acusados pela morte de Gabriel Marques Cavalheiro, 18 anos, em agosto de 2023, foi marcado por depoimentos emocionados da família do jovem e por discussões sobre as agressões relatadas no início da investigação. O julgamento começou com atraso, no fim da manhã desta segunda, no Fórum de São Gabriel, e teve como primeiras testemunhas a mãe e o pai de Gabriel, além do delegado responsável pelo inquérito. Os réus são o sargento Arleu Júnior Cardoso Jacobsen e os soldados Cléber Renato de Lima e Raul Veras Pedroso.

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A primeira a ser ouvida pela juíza Liz Grachten foi Rosane Machado Marques, mãe de Gabriel, por volta do meio-dia. Vestindo uma camiseta branca com a frase “Justiça Gabriel” e uma imagem do filho com asas de anjo, a voz cansada ficou embargada diversas vezes ao longo do depoimento, sempre que lembrava do filho. Rosane relatou que o filho havia se mudado para São Gabriel para servir ao Exército e que estava morando com um tio.

Segundo ela, o jovem era um “menino companheiro” e um “menino de ouro”. Ele gostava de música gaúcha, ouvia Mano Lima e Baitaca, e sonhava em seguir carreira no Exército antes de decidir que queria ser campeiro. Em um dos trechos mais emocionados, a mãe revelou à magistrada:

– Eu jurava que ele ia voltar.

Rosane contou que, na noite do desaparecimento, Gabriel perguntou para a irmã se podia beber. Segundo ela, o filho costumava beber apenas em festas de família, e “pouco”. Também relatou as dificuldades enfrentadas pela família durante as buscas.

Sobre o paradeiro de Gabriel, a mãe firmou que os policiais disseram apenas que teriam dado uma “carona” ao jovem e o deixado próximo a uma casa verde. A versão, no entanto, foi contestada pela mãe:

– Se tivessem dado só uns tapas no Gabriel, ele teria voltado. (...) Tenho certeza que largaram meu filho morto. Eu não entendi o que o Gabriel fez de tão criminoso que mataram ele a paulada – afirmou Rosane, que acrescentou:

– Acabou minha vida, né?

Segundo ela, o quarto de Gabriel segue montado, com bonés e medalhas ainda guardados. A mãe relatou, por fim, que toma remédios para dormir e que a família “não tem mais vontade de nada”.

Durante o contraditório, a defesa do sargento Arleu Jacobsen questionou principalmente o relato da mulher que chamou a Brigada Militar na noite da abordagem. Os advogados questionaram o fato de ela não ter relatado, naquele momento, supostas pancadas na cabeça de Gabriel.

Já a defesa dos soldados questionou o fato de a jaqueta de Gabriel ter sido encontrada apenas na quarta-feira, dias após o início das buscas. Rosane respondeu que, se a peça estivesse no local desde o início, teria sido encontrada antes.

Versão

Na sequência, foi ouvido o pai de Gabriel, Anderson da Silva Cavalheiro. Ele descreveu o filho como um jovem respeitoso, que “sempre pedia permissão para muitas coisas”.

O pai também relatou que a família só teve conhecimento da versão dos policiais cinco dias após o desaparecimento. Disse, ainda, que as primeiras imagens e vídeos da abordagem chegaram à família no sábado.

Durante as perguntas da defesa do sargento, houve momentos de tensão Anderson reagiu ao entender que um dos questionamentos da defesa dos réus sugeria que ele poderia ter passado pelo local e não ter visto a jaqueta do filho. A juíza responsável pelo caso precisou intervir e pediu que o pai se acalmasse e apenas respondesse às perguntas.

Delegado diz estar convicto que agressões causaram morte

O terceiro depoimento foi do delegado José Soares Bastos, responsável pelo inquérito policial à época. Ele afirmou que, assim que o corpo de Gabriel foi encontrado, a investigação já passou a trabalhar com hipótese de homicídio. Os relatos de agressão feitos pela moradora que chamou a Brigada e outras testemunhas eram compatíveis com a perícia.

Em um dos trechos mais importantes do depoimento, o delegado afirmou que a decisão de levar Gabriel para a barragem teria sido tomada dentro da viatura, o que, segundo ele, explicaria o fato de a moradora não ter como saber o destino do jovem.

Pouco tempo depois, o promotor Eugênio Paes Amorim perguntou se, até então, os policiais haviam informado oficialmente que teriam dado carona ao jovem. Em resposta, o delegado afirmou que, para a investigação, até aquele momento apenas existia a informação de que os próprios PMs teriam pego Gabriel e, segundo a versão deles, dado uma carona ao rapaz na noite de sexta para sábado, quando o jovem desapareceu.

Bastos também afirmou que, no sábado, domingo e segunda-feira, ainda não havia detalhes sobre a suposta carona ou sobre o local onde Gabriel teria sido deixado após a abordagem da Brigada. De acordo com o delegado, a versão mais detalhada só começou a aparecer depois da análise das imagens e do GPS da viatura.

Estado do corpo

O delegado afirmou que os ferimentos identificados no corpo de Gabriel eram compatíveis com as agressões descritas pelas testemunhas e disse estar convicto da conclusão da investigação. Em um dos momentos mais fortes do depoimento, declarou:

– Estou muito convicto que foram aquelas agressões que causaram a morte do Gabriel.

Segundo Bastos, o estado do corpo indicava que Gabriel não teria condições de caminhar sozinho na região onde foi deixado.

O delegado também afirmou que a Polícia Civil trabalhou diferentes linhas investigativas ao longo do inquérito, mas reforçou que a convicção da investigação permaneceu centrada na atuação dos policiais militares acusados no processo.

O julgamento não havia se encerrado até a publicação desta matéria. Os trabalhos devem ser retomados nesta terça-feira (30).


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