Foto: Arquivo Diário
O combate à violência psicológica foi o tema central da última edição especial do programa Jogo de Cintura. Baseado no vídeo da atriz Mariana Rosa, que viralizou nas redes sociais, a conversa buscou responder à seguinte pergunta: “'As loucas': até onde chega a manipulação do agressor?”. O questionamento deu margem para uma análise sobre o processo gradativo de silenciamento das vítimas.
+ Receba as principais notícias de Santa Maria e região no seu WhatsApp
O programa, apresentado pela jornalista Fabiana Sparremberger, foi ao ar em 14 de maio deste ano na Rádio CDN (93.5 FM) e na Tv Diário, reunindo convidadas que compartilharam relatos sobre os desafios de identificar e romper o ciclo abusivo. Participaram do debate a psicóloga especialista em violência doméstica Vera Heringer, a comerciante Carine Pereira, a manicure Danniela Pereira e a manicure, pedicure e depiladora Josi Costa.
No monólogo citado, publicado no dia 8 de março em alusão ao Dia Internacional da Mulher, a artista interpreta uma personagem que detalha o processo sutil pelo qual o marido, Jorge, a convenceu de que ela estava "louca". Por meio da narrativa, as convidadas traçaram um paralelo direto com suas trajetórias pessoais e com os atendimentos clínicos.
O mecanismo do "gaslighting"
Durante a conversa, as participantes destacaram o conceito de "gaslighting" – uma forma de violência psicológica e manipulação na qual o abusador distorce a realidade para fazer a vítima duvidar de sua própria memória, percepção ou sanidade. Ao utilizar táticas de invalidação constante e insistência a longo prazo, o parceiro faz com que a mulher passe a internalizar a culpa por qualquer conflito familiar.
A psicóloga Vera Heringer explicou o funcionamento dessa dinâmica e como o agressor constrói uma reputação ilibada entre amigos e familiares para descredibilizar a vítima quando ela tenta buscar ajuda:
– De tanto que a pessoa fala que você é o problema, que está inventando, aumentando, exagerando, você se sente desequilibrada. Ele vende essa imagem para amigos e parentes, tornando-se o coitado da história. Quando ela tenta denunciar, as pessoas ao redor não acreditam, pois enxergam nele o marido perfeito.
“A violência psicológica é muito pior que um tapa”
Segundo o relato das debatedoras, o isolamento social surge como uma das primeiras estratégias adotadas pelo abusador. Elas explicaram que amigos e familiares são afastados sob o pretexto de que sentem ciúmes da felicidade do casal ou de que não querem o bem da família.
A comerciante Carine Pereira pontuou como esse processo de silenciamento mexe diretamente com o equilíbrio emocional de quem vivencia o abuso:
– Eles nos fazem duvidar de nós mesmas. Mexe muito no nosso emocional.
Ao encontro do relato, a manicure Danniela Pereira destacou que o esgotamento emocional transforma a personalidade da mulher de modo que ela deixa de se reconhecer:
– A violência psicológica é muito pior que um tapa. A dor leva anos para ser cicatrizada, e muitas vezes talvez nem seja; só aprendemos a lidar com ela. O poder da manipulação é tão grande que passamos anos achando que a culpada de tudo éramos nós. Ficamos em uma retaguarda constante, repetindo traumas, nos escondendo e nos julgando incapazes de administrar nossas vidas. É como uma lesão no cérebro que fica para sempre.
O limite da violência
O ápice do ciclo de abuso envolve a transição para a violência física ou ameaças diretas à integridade dos filhos. A manicure, pedicure e depiladora Jose Costa relembrou o período em que se mudou para Santa Maria, a dependência construída pelo parceiro e o momento exato em que percebeu a necessidade de buscar ajuda no Centro de Referência da Mulher (CRM):
– Ele gostava de dizer que eu não sabia caminhar e falar, que tinha sido ele quem me ensinou. Fui me isolando, me demiti do serviço e entrei em um limbo onde não sabia o que era real. O extremo chegou quando ele me agrediu na frente do meu filho, foi ali que corri para o CRM. Eu era frágil e apavorada, mas recebi o amparo necessário para retomar as rédeas da minha vida.
Ao final do debate, as participantes entraram no consenso de que o acolhimento institucional e a quebra do silêncio são os caminhos fundamentais para interromper a reprodução da violência doméstica entre as gerações. Para as debatedoras, o fortalecimento das frentes de proteção ajuda a desconstruir a culpa carregada pelas vítimas e evita que os filhos cresçam testemunhando os mesmos abusos.
– Eu lembro de agressões que presenciei na minha infância até hoje, aos 34 anos, e não podia deixar meu filho carregar esse mesmo trauma – afirmou Josi Costa.
Confira o programa completo: