Um Natal separado pela pandemia: histórias de quem renovou crenças e tradições

Diário

Um Natal separado pela pandemia: histórias de quem renovou crenças e tradições
Foto: Pedro Piegas (Diário)

De longe, Laszlo Orosz, 69 anos, o Papai Noel do Royal Plaza Shopping, abanava a todos que passavam pelo hall do estabelecimento e posava para fotos a uma distância delimitada por um cordão. Porém, o que ele mais lamenta é ter de improvisar “abraços sem toque”. Atuando há nove anos como o Bom Velhinho, esta é a primeira vez que foi privado da proximidade do seu público, na maioria composto por crianças ou até mesmo por jovens e adultos, como o casal de estudantes Daiane Cardoso Ribeiro, 20 anos, e Eric Rodrigues Santana, 18.

– Não somos mais crianças, mas viemos aqui só para ver o Papai Noel. Ao mesmo tempo que é triste por estarmos longe, é também compreensível. É uma medida de saúde. Talvez essa pandemia nos deixe lições para valorizarmos coisas como a importância do abraço – diz Santana.

Natural da cidade de Debrecen, na Hungria, Orosz é engenheiro por formação e, hoje, está aposentado por uma empresa de equipamentos hospitalares. Ele chegou ao Brasil em 2000. Depois de passar por Porto Alegre e Belo Horizonte, em 2005, radicou-se em Santa Maria, onde vive com a atual companheira. Já foi feirante, ocasião em que vendia o tradicional e húngaro bolo chaminé, fez trabalhos com marcenaria, além de atuar como Noel . Isso porque o Natal tem significados importantes na vida de Orosz. Na terra-natal, ele fazia trabalhos voluntários como Papai Noel. Contudo, a data por lá é comemorada no Dia de São Nicolau, em 6 de dezembro, quando é realizada a troca de presentes.

Hoje, o sentimento do pai de um casal de filhos que vive na Hungria e Espanha e do avô de três netos se confunde com desejo do Papai Noel. Ambos, o homem e a personagem, esperam que a mensagem natalina seja renovada para além dos abraços que não podem ser dados e se desdobre em compreensão e amor. 

– É um ano diferente em que o maior presente será a saúde. Peço a todos muita paciência e amor, porque vai passar e, então, voltaremos a nos abraçar – diz Orosz com um português ainda carregado de sotaque e ternura.

UM PLANTÃO NA UTI COVID EM 25 DE DEZEMBRO DE 2020

Foto: Renan Mattos (Diário)

Quando relata orgulhosa o lugar que tem ocupado na Medicina, Édina Stadler Schossler, 33 anos, ressalta que o que tem vivenciado ao longo deste ano passou longe dos bancos da faculdade. Quis o destino que, em 2020, ela ingressasse para residência de terapia intensiva no Hospital Universitário de Santa Maria (Husm). Sem “aviso prévio”, teve de adquirir conhecimento de maneira mais rápida que o habitual, aprender tudo sobre a Pneumonia Viral por SARS CoV-2 – ou Covid-19 -, e manter-se atualizada. A profissional ocupa a linha de frente da pandemia. Ela ajudou na criação do protocolo de atendimento à Covid do Husm, atuando desde a porta de entrada, no pronto-socorro, até a UTI Covid.

As surpresas não pararam por aí. Ela foi a primeira médica da cidade a contrair coronavírus, segundo registros dos colegas de profissão. Adquiriu a doença do “paciente 1”, que veio de um cruzeiro quando pouco se sabia sobre a evolução da doença por aqui. Esse também será o primeiro ano de Édina longe da família, que vive em Alegria, no Noroeste do Estado, e que trabalhará com terapia intensiva e sendo a plantonista da noite de Natal:

– É uma época sagrada para nós, um período de encontro da família que tem poucas oportunidades de se reunir ao longo do ano. Costumamos nos reunir na casa dos meus pais e fazemos a ceia juntos. Neste ano, passarão sozinhos, para a proteção deles. Eu estarei de plantão, e meus irmãos cada um nas suas casas. Em anos anteriores, quando trabalhei no Natal, sempre conseguíamos nos reunir com a equipe no hospital e confraternizarmos. Devido à pandemia, será diferente.

Outra situação relatada pela médica é a das pessoas internadas na UTI Covid, em isolamento, que não podem ver seus familiares. Édina mal consegue falar como irá ligar aos familiares dos pacientes no próximo dia 25.

– Mais de uma vez, chorei no banheiro com muita angústia por não saber o que fazer por esses pacientes. Eu não consigo imaginar o que será ligar para as famílias neste Natal. Ligamos sempre das 11h às14h. Com quem está acordado, fazemos videochamadas. Sempre que estou no plantão, eu ligo. A gente sempre foca na parte boa tentando fazer com que exista uma esperança neste ano, que nem sei explicar com palavras o que ele foi. É tudo diferente. Temos pacientes jovens saudáveis que estão em uma situação que não era esperada, entendes? O que eu guardarei na minha lembrança é a união de toda a equipe de saúde, todos que ajudaram, apesar de todas as perdas e momentos de tristeza, para que o trabalho do dia a dia fosse mais leve. E espero Natal nos traga esperança do final da pandemia, valorização das ciências e início da vacinação – pontua a médica.

PELA  1ª VEZ EM 30 ANOS, A MISSA NATALINA SERÁ VISTA PELA TV

Foto: Pedro Piegas (Diário)

Os dezembros da aposentada Teófila Alves de Miranda, 75 anos, sempre foram esperados com expectativa e alegria. Catequista há cerca de três décadas, já transmitiu os ensinamentos necessários à Eucaristia e à Crisma para diferentes gerações. Não raro, se emocionou ao reencontrar em suas andanças pela cidade antigos alunos e seus filhos já crescidos. Neste ano, porém, a emoção é atrelada à saudade e às ausências. Desde março, ela interrompeu as atividades habituais, como ministrar catequese três vezes por semana a diferentes turmas de crianças e adolescentes, e ir às missas na Catedral Metropolitana de Santa Maria. O afastamento se deu pela necessidade do distanciamento social e pela ameaça do coronavírus. Até a tradicional ceia será adaptada. Pela primeira vez, em 30 anos, a missa natalina será pela TV. O que ela, que não tem filhos biológicos, coleciona “filhos de coração”, espera é que o próximo Natal e 2021 sejam de reencontro e reflexão dos ensinamentos de Jesus:

– A saudade das minhas crianças chega a doer. Mas estou me cuidando e assistirei à missa pela Rede Aparecida, pela televisão, pois a fé é a mesma. Este é o ano que realmente percebemos que não importam tanto os presentes e as comilanças, mas, sim, o amor e a valorização ao próximo que Jesus pregou e todo o sentido que o Natal carrega.

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