Foto: Arquivo Diário
Em situações de emergência, o instinto fala mais alto. Entre o susto, a pressa e a tentativa de compreender a gravidade do risco, as escolhas acontecem em questão de segundos. Na última sexta-feira (27), durante o incêndio no Colégio Marista, nas proximidades da Rua Coronel Niederauer, em Santa Maria, o estudante João Vitor Fagundes, 25 anos, não hesitou: deixou o apartamento levando nos braços sua companheira de quatro patas, a gatinha Luna. A cena, registrada durante a cobertura do Diário, ganhou destaque e repercutiu nas redes sociais.
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Conforme relatado pelo jovem, o dia seguia como outro qualquer. João havia chegado em casa por volta das 17h e, cerca de duas horas depois, estava no banheiro quando sons estranhos passaram a interromper a rotina. O barulho lembrava vidro quebrando, algo que ele associou, em um primeiro momento, à obra que acontece ao lado do prédio. O horário, no entanto, chamou atenção. Pela janela, uma luz amarelada refletia no vidro, mas nada indicava, ainda, a gravidade da situação. Foram poucos minutos até que a percepção mudasse completamente.
– Quando eu saí do banheiro e fui até a janela do apartamento, vi que o fogo já estava alto, os vidros do prédio de cima tinham estourado e as chamas estavam saindo para fora – relembra.
"A única coisa que eu pensei foi em levar ela comigo"
Do lado de fora, cinzas, estilhaços de vidro e pedaços de madeira caíam próximos ao condomínio. O cenário, descrito por ele como algo que nunca havia presenciado antes, trouxe a urgência da evacuação. Vestiu a primeira roupa que encontrou, pegou o celular e as chaves, mas antes precisou localizar Luna, assustada com o barulho e escondida embaixo da cama. O resgate foi rápido, mas tenso. Com a gata nos braços, desceu as escadas às pressas e, no nervosismo, acabou escorregando e caindo levemente, sem ferimentos.
– Na hora, por mais que tenha uma uma distância do prédio [Colégio Marista], a primeira ideia que temos é sair e a única coisa que eu pensei foi em levar ela comigo. O resto recuperamos depois – contou.
Do lado de fora, uma multidão já se formava, enquanto o Corpo de Bombeiros trabalhava para conter as chamas. João acredita que foi um dos últimos moradores a deixar o prédio, justamente por não ter ouvido os primeiros sinais do incêndio enquanto estava no banheiro, cujo isolamento abafava os ruídos externos. A dimensão do ocorrido só ficou clara quando ele alcançou a rua.
"Fica um sentimento de alívio"

Os moradores permaneceram fora de casa até perto da meia-noite. O medo inicial era perder tudo, já que o apartamento de João fica em um andar alto e muito próximo da área atingida. Apesar do susto, o fogo não avançou para dentro das residências, causando apenas danos na lateral externa do prédio. Ainda assim, o fim de semana foi marcado pela apreensão. No sábado (27), focos de fumaça e cheiro forte persistiram, exigindo trabalho contínuo dos bombeiros para o resfriamento da estrutura. No domingo (28), novos princípios de incêndio reacenderam o alerta, embora sem necessidade de evacuação.
Mesmo após o controle da situação, a sensação de insegurança permaneceu por dias. Janelas abertas, vigilância constante e noites de sono interrompidas passaram a fazer parte da rotina. A proximidade com prédios antigos e a memória coletiva de tragédias já vividas na cidade também contribuíram para o clima de tensão entre os moradores.
Hoje, com a situação estabilizada, o sentimento predominante é de alívio. Para João, o episódio reforçou laços e prioridades. Luna, com apenas dois meses, segue ao seu lado, ainda mais próxima desde aquela manhã. Entre perdas materiais evitadas e o susto que poderia ter sido maior, fica a lembrança de um incêndio que mudou a rotina de um condomínio inteiro — e a certeza de que, em meio ao caos, o cuidado com quem importa falou mais alto.
– Nós pensamos muito em parceria, amor, cuidado, tanto com nós, quanto com nossos pets. Eu não não consigo pensar de outra forma e quem tem bichinhos assim, sabe. Para mim, o único pensamento que eu tenho é esse. De cuidado, amor, dar carinho também. No final, fica um sentimento de alívio. Porque, graças a Deus, não aconteceu nada de mais grave.
Relembre o caso

O incêndio de grandes proporções atingiu o Colégio Marista Santa Maria na noite de sexta-feira (26), provocando danos significativos à estrutura do prédio e exigindo a atuação de diversas equipes de emergência. Ainda na noite do sinistro, a Polícia Civil iniciou as primeiras providências, com o registro da ocorrência durante a madrugada e a solicitação de informações técnicas aos gestores da instituição.
Desde então, a investigação reúne imagens, documentos e depoimentos com o objetivo de reconstruir a dinâmica do início do fogo. Conforme a Polícia Civil, a apuração busca esclarecer se o incêndio foi resultado de falha humana, ação dolosa ou algum evento de força maior, sempre com base nos elementos técnicos e periciais que estão sendo produzidos.
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