Foto: Vinicius Becker (Diário)
Quem viaja pela Região Central do Rio Grande do Sul e cruza os limites de Itaara logo percebe uma atmosfera diferente. Placas turísticas com silhuetas de naves espaciais e comércios locais decorados com pequenos extraterrestres não deixam dúvidas: a cidade respira o mistério do cosmo. No centro dessa identidade lúdica e científica está o Museu Internacional de Ufologia, História e Ciência, que completou 25 anos de atividades na última quarta-feira (24) e consolida o município como a Capital Gaúcha da Ufologia.
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Celebrado junto ao Dia Internacional da Ufologia, o aniversário marca a trajetória do pioneiro e único espaço do gênero no Brasil, oficialmente reconhecido como o primeiro museu de ufologia da América Latina. Em funcionamento desde 2001, o local recebe anualmente milhares de pesquisadores, estudantes e turistas.
O projeto
Muito antes de sua estrutura física, o museu começou a ganhar vida na imaginação de seu fundador e diretor, Hernán Mostajo. Ainda na juventude, durante as décadas de 1970 e 1980, ele lia páginas da revista Realismo Fantástico e se fascinava pelos segredos do cosmo. Essa paixão ganhou forma prática em 1991 com a criação da Associação Santa-Mariense de Pesquisa Ufológica, que realizava exposições itinerantes com recortes de jornais, fotografias e réplicas de fibra em saguões públicos. A iniciativa conta com o trabalho da professora Roberta Ávila, esposa de Hernán e diretora de acervo da instituição.

O plano de construir uma sede própria ganhou força após o sucesso de congressos organizados por Mostajo no final dos anos 1990. Em 1997, ele anunciou o projeto de construir o museu voltado à temática ufológica. O local escolhido foi uma propriedade da família em Itaara. A opção foi estratégica: o distanciamento do centro urbano garantia o silêncio e o céu limpo necessários para os planos futuros, que incluíam um observatório astronômico.
A grande virada de visibilidade do projeto ocorreu logo na inauguração. A estrutura chamou a atenção de canais nacionais de televisão, atraindo equipes de produção que trouxeram o cantor e compositor Zé Ramalho para gravar um quadro especial na cidade. Encantado com a proposta do espaço, o músico aceitou o convite de Mostajo para se tornar o padrinho oficial do complexo, vínculo que mantém até hoje.
Muito além dos discos voadores
Com o passar dos anos, a direção percebeu que precisava conectar a ufologia a outras áreas do conhecimento para atrair o público escolar. Foi assim que nasceu o turismo pedagógico, que transformou o local em um complexo de divulgação científica. O diretor faz questão de destacar que o objetivo ali nunca foi a doutrinação ou a busca por respostas absolutas:

– Nós criamos sessões temáticas e todas as vezes as visitas são guiadas. O visitante não chega aqui e encara direto os ETs. Não é a nossa proposta, inclusive não é a proposta provar alienígenas de jeito nenhum. A nossa proposta é uma construção do conhecimento até chegar nos mistérios do universo, deixando um grande ponto de interrogação para o nosso visitante.
Hoje, as visitas conduzem o público por uma verdadeira linha do tempo. O trajeto começa nas salas dedicadas à história do universo e à evolução da vida, avança pelos fósseis da paleontologia e pelas descobertas da arqueologia e, antes de chegar à ufologia – o destino final –, passa pela astronomia. Essa fusão entre ciência e mistério atraiu dezenas de personalidades ao longo das décadas, como o escritor Fabrício Carpinejar e o músico Vitor Ramil.
Acervo histórico
Em 2019, o museu expandiu e modernizou suas instalações voltadas ao astroturismo com a inauguração do Observatório Bioastronômico Cosmos. O evento de abertura contou com a presença ilustre do astronauta brasileiro Marcos Pontes. Equipado com uma cúpula gigante e um supertelescópio para a observação de planetas e estrelas, o complexo também se tornou pioneiro por estar oficialmente registrado nos órgãos de museologia do Brasil, o que permitiu salvaguardar peças históricas e raras do imaginário ufológico mundial.

No acervo fixo, estão guardados os diários de 422 páginas manuscritos a lápis e a icônica máquina fotográfica de Artur Berlet, gaúcho que relatou uma experiência de abdução em 1958, em Sarandi. O local também abriga as roupas originais do catarinense Antônio Nélson Tasca, protagonista de outro caso célebre ocorrido em 1983.
Nova era e reflexo escolar
Para Hernán Mostajo, o entendimento global sobre o fenômeno mudou nos últimos anos. Ele aponta que a recente postura de governos estrangeiros em abrir arquivos e validar relatórios militares trouxe uma seriedade inédita ao assunto:

– O que o governo americano [Estados Unidos] fez é muito importante para a ufologia mundial, ela saiu do descrédito que se tinha antigamente e foi para o crédito. Porque foi a maior potência do mundo que disse que esse fenômeno existe, que aparece em radares operacionais e que eles não sabem do que se trata. Esse mérito deu uma seriedade que eleva a ufologia para um outro patamar.
Esse avanço científico reflete inclusive nas salas de aula. Mostajo lembra que as diretrizes atuais da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) já incluem o estudo da astrobiologia e a busca por vida fora da Terra no eixo temático de ciências para o Ensino Fundamental e Médio.
Em Itaara, esse impacto virou política pública. No aniversário de 30 anos do município, celebrado em 22 de outubro de 2025, a prefeitura distribuiu um livro didático no qual a história da cidade é contada por uma personagem extraterrestre chamada Etaara. O próximo passo para consolidar essa identidade visual inclui a construção de um pórtico em formato de nave espacial. Avaliado em cerca de R$ 600 mil, o monumento deve ter suas obras iniciadas ainda em 2026.
Neste momento, a Rua Vanderlei de Almeida, que da acesso ao museu, está passando por reformas realizadas pela prefeitura para facilitar o deslocamento e o turismo no local.
Linha do tempo do Museu
- 1991: Fundada a Associação Santa-Mariense de Pesquisa Ufológica, início do acervo.
- 1997: Hernán Mostajo anuncia publicamente o plano de construir o museu em Itaara.
- 1999 - 2000: Período de obras e levantamento do pavilhão principal.
- 24/06/2001: Inauguração oficial do museu com apadrinhamento do cantor Zé Ramalho.
- 2002: Implementação do modelo de turismo pedagógico para escolas.
- 2019: Inauguração do Observatório de Astronomia Cosmos, anexo ao museu.
- 24/07/2025: Lei estadual concede a Itaara o título oficial de Capital Gaúcha da Ufologia.
- 24/06/2026: Complexo celebra 25 anos de fundação e projeta novas obras turísticas na cidade.
Serviço:
Museu Internacional de Ufologia, História e Ciência Victor Mostajo
- Endereço: Rua Vanderlei de Almeida, 1010, Parque Serrano II, Itaara
- Telefone: (55) 99179-0096
- Visitação: somente com agendamento prévio para turistas e escolas
- Ingresso: R$ 50,00 (inteira) e R$ 25,00 (meia)