“O lixo está tomando conta”: terreno no Km 2 vira depósito irregular de resíduos

“O lixo está tomando conta”: terreno no Km 2 vira depósito irregular de resíduos

Foto: Vitória Sarturi

Terreno do antigo pavilhão do Km 2 se tornou ponto de descarte irregular de resíduos

O terreno do antigo pavilhão do Km 2, localizado na Avenida Borges de Medeiros, no Bairro Divina Providência, tornou-se um ponto de descarte irregular de lixo. Seis meses após a demolição da estrutura condenada, o espaço agora acumula sacolas plásticas, garrafas pet, papelão e gera forte odor na vizinhança. A área foi cedida, em maio, ao Inter-SM, que tem planos de limpar o terreno. 

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​Entre os resíduos acumulados, chama a atenção o descarte de roupas e calçados em bom estado de conservação durante o período de Campanha do Agasalho – que, inclusive está com os números de doações abaixo da meta esperada. Junto ao vestuário, a presença de lixo orgânico tem gerado acúmulo de chorume, um líquido escuro proveniente da decomposição dos resíduos que se espalha pelo local e agrava a contaminação do terreno.

A área está aberta desde janeiro deste ano, quando a prefeitura realizou a demolição do pavilhão local. O imóvel, até então ocupado por moradores e entidades, foi desocupado devido a laudos que apontavam risco estrutural severo à segurança da população.

Entre os resíduos descartados, destacam-se peças de vestuárioFoto: Vitória Sarturi (Diário)

“O lixo está tomando conta”

Moradores do entorno relatam que a maior parte do descarte irregular ocorre durante a madrugada. Uma pessoa que vive em frente ao local há mais de 30 anos e prefere não se identificar, aponta que veículos costumam parar no terreno para descarregar os resíduos.

Quando vemos eles largando o lixo, pedimos para não fazerem isso. Mas é muito raro flagrar no ato, a área já amanhece assim. Além do mau cheiro, às vezes colocam fogo nos resíduos – lamenta.

Orion da Rosa, 65 anos, aposentadoFoto: Vitória Sarturi (Diário)

O acúmulo de sujeira também afeta uma pracinha infantil localizada nos fundos do terreno. O espaço de lazer é mantido voluntariamente pelo aposentado Orion da Rosa, 65 anos, que há quatro anos contratou por conta própria uma retroescavadeira para remover uma antiga "montanha" de resíduos de quatro metros de altura e plantou 28 árvores nativas no local. Agora, ele vê o problema retornar:

O lixo está tomando conta novamente. É uma situação lamentável. Toda sexta-feira ou sábado, antes de as minhas netas virem me visitar, eu preciso ir até a pracinha limpar o entorno para que elas e as outras crianças possam brincar em segurança.

Além do lixo convencional, Rosa aponta que o local tem sido frequentado por pessoas que usam o espaço para descascar fios de cobre furtados, deixando restos de materiais cortantes e bitucas de cigarro espalhados pelo chão. A situação, de acordo com ele, aumenta a insegurança no bairro.

Terreno do antigo pavilhão do Km 2 virou ponto de descarte irregular de resíduosFoto: Vitória Sarturi (Diário)

Riscos à saúde e contaminação hídrica 

Ao Diário, o engenheiro ambiental e sanitarista Jalan Pagani afirma que, embora o termo técnico correto para essas ocorrências urbanas seja "descarte inadequado" (uma vez que os lixões a céu aberto foram extintos e substituídos por aterros sanitários regulamentados no Estado), a gravidade da situação permanece alta. Segundo o especialista, o descarte de resíduos sem proteção em solo exposto gera uma série de riscos em cadeia:

  • Proliferação de vetores: O acúmulo de materiais serve de abrigo e foco de alimentação para roedores, moscas e insetos, facilitando a transmissão de doenças para a comunidade próxima.
  • Poluição atmosférica e odor: A degradação de restos orgânicos ou resíduos aderidos a embalagens gera gases tóxicos e forte mau cheiro.
  • Impacto nos recursos hídricos: Análises visuais da macrodrenagem do bairro indicam que os córregos da região já sofrem com alto índice de contaminação e baixa oxigenação (coloração verde), quadro que tende a se agravar com o lixo carreado pelas chuvas.

Como alternativa para resolver o cenário de degradação e frear o acúmulo de resíduos em áreas públicas, o engenheiro ambiental aponta que é preciso aliar a fiscalização com a conscientização coletiva a longo prazo.

– A principal forma de conter esse ciclo é por meio da educação ambiental, mas ela precisa vir acompanhada do exemplo. Não basta aprender a separar o lixo na escola se a comunidade e a família realizam o descarte incorreto nas ruas. É uma semente que precisa de fiscalização e tempo para mudar a cultura local – diz Pagani.

O que diz a prefeitura

A  Secretaria de Infraestrutura e Mobilidade informou que a referida área no Km 2 agora pertence ao Inter-SM. Conforme o Executivo, nos próximos dias haverá a liberação para o começo das obras por parte do Ministério dos Esportes, quando será feita a limpeza do terreno.


O que diz o Inter-SM

Em maio deste ano, uma área de 20 mil metros quadrados no Km 2 foi cedida, via Termo de Permissão de Uso, para a Associação Parceiros do Clube do Coração do Rio Grande (APCC), instituição vinculada ao clube de futebol. No espaço, será implantado o novo Centro de Treinamento do Inter-SM. Também está prevista uma praça aberta para a comunidade.
O presidente do Inter-SM, Pedro Della Pasqua, garante que o clube fará a limpeza do terreno nos próximos dias. Ele afirma que a entidade vai recolher o material e que a expectativa é realizar o trabalho na próxima terça-feira (30), destacando que já está mobilizando as equipes para a ação.

Além da limpeza, Della Pasqua diz que o clube planeja ações preventivas em parceria com os veículos de comunicação: 

– Vamos fazer uma campanha para conscientizar a população a não depositar lixo no local. Também já solicitamos à prefeitura que intensifique a fiscalização na área e vamos produzir conteúdo para as redes sociais reforçando esse apelo. Nossa meta é agir tanto na remoção quanto na prevenção para evitar que o problema se repita.


Histórico 

O pavilhão do Km 2, demolido pela prefeitura, foi desocupado após a deflagração da Operação Km 2. A iniciativa foi motivada por laudos técnicos que apontavam risco severo de desabamento do imóvel, além de problemas de segurança pública.

Foto: Rian Lacerda (Diário)

Durante o processo de demolição dos escombros, cerca de 15 cães que viviam em situação de abandono no pavilhão motivaram uma denúncia ao Ministério Público por suposta omissão no acolhimento. Contudo, a situação já foi resolvida e todos os animais foram adotados por meio de campanhas comunitáriase de ONGs protetoras.

O planejamento de longo prazo do Executivo Municipal prevê a destinação do terreno para finalidades sociais e educacionais. O município projeta construir no endereço uma nova escola municipal de Ensino Fundamental e um complexo esportivo, visando revitalizar a área e devolvê-la para o convívio dos moradores do Bairro Divina Providência.




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