Foto: Pedro Piegas (Diário/Arquivo)
O novo boletim agrometeorológico divulgado pela Emater/RS-Ascar confirma os primeiros prejuízos na safra de soja e aponta impactos crescentes da estiagem sobre lavouras, criações e pastagens na região central do Rio Grande do Sul. A combinação de temperaturas extremas, chuvas irregulares e baixos volumes de precipitação já provoca perdas produtivas, paralisação do crescimento das pastagens e mobilização de prefeituras para decretos de emergência.
Em Tupanciretã, por exemplo, lavouras já apresentam estimativa de perdas entre 20% e 30%. A cotação média regional da soja recuou de R$ 120,83 para R$ 116,24 por saca de 60 quilos.
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Entre os últimos dias avaliados, as temperaturas permaneceram elevadas, com registro de chuvas rápidas e mal distribuídas na quinta-feira (12). Em alguns municípios, os volumes foram inferiores a 5 milímetros, como em Santiago (1,7 mm), São Pedro do Sul e Capão do Cipó (3 mm). Já em outras localidades, as precipitações foram mais expressivas, caso de Agudo (57 mm), São João do Polêsine (acima de 50 mm) e Cachoeira do Sul (24,6 mm). Mesmo com a leve redução das temperaturas após as chuvas, os efeitos da estiagem continuam predominando.
A situação já levou municípios como Tupanciretã e Júlio de Castilhos a decretarem situação de emergência. Outros seguem contabilizando prejuízos para formalizar o pedido. Até o momento, pelo menos 1.316 produtores rurais foram identificados como atingidos por perdas agrícolas e pecuárias na região.
Culturas de verão
Soja
A soja vinha apresentando bom desenvolvimento até o início de janeiro, mas a estiagem registrada em janeiro e fevereiro reduziu significativamente o potencial produtivo, situação observada em municípios como Vila Nova do Sul e em toda a região. Técnicos da Emater identificam morte de plantas em reboleiras, perda de área foliar no terço inferior, além do aumento da incidência de pragas como tripes, ácaros e lagartas, com presença pontual de percevejos. As doenças observadas são, principalmente, necrotróficas, associadas a manejo deficitário.
Mesmo com previsão de novas chuvas, as projeções para a safra 2025/2026 indicam produção abaixo da média esperada. A produtividade inicialmente estimada em 3.059 kg por hectare é considerada difícil de ser alcançada diante da irregularidade climática. Atualmente, mais de 78% das lavouras estão em fase reprodutiva, entre floração e enchimento de grãos — período crítico que exige alta disponibilidade de umidade no solo.
Milho
O plantio do milho safrinha está na reta final e mais de 30% do milho precoce já foi colhido, com produtividade dentro do esperado. A área total cultivada deve alcançar cerca de 47.895 hectares. No entanto, a produtividade média inicialmente projetada em 5.959 kg por hectare poderá sofrer ajustes negativos em função das perdas já registradas e da continuidade das chuvas abaixo da média. Em Tupanciretã, a perda no milho de sequeiro é estimada em 40%.
Atualmente, cerca de 50% das lavouras de milho na região estão em fase reprodutiva, entre embonecamento e enchimento de grãos. Os preços do milho permanecem estáveis, com cotação média de R$ 57,59 por saca de 50 quilos.
Milho silagem
Mais da metade das lavouras destinadas à silagem já foram cortadas, e aproximadamente 15% encontram-se no ponto ideal de ensilagem.
Feijão – 1ª safra
Mais de 90% da área cultivada com feijão da primeira safra já foi colhida. A área plantada foi de cerca de 1.033 hectares, com produtividade média estimada em 1.414 kg por hectare. O preço médio pago ao produtor está em R$ 120,63 por saca de 50 quilos.
Arroz
A área projetada para o arroz nesta safra é de aproximadamente 124.415 hectares. As primeiras lavouras começam a ser colhidas, com produtividades dentro do esperado. Mais de 70% das áreas estão em fase reprodutiva e cerca de 10% em maturação. Em Dona Francisca, as primeiras colheitas indicam produtividade próxima de 9.000 kg por hectare. Os preços apresentaram leve alta, chegando a R$ 50,19 por saca de 50 quilos, embora ainda sejam considerados baixos.
Sorgo
A área cultivada com sorgo na região é estimada em 1.786 hectares, sendo 628 hectares de sorgo forrageiro e 1.158 hectares de sorgo granífero. Os preços permanecem estáveis, com cotação média de R$ 47 por saca de 50 quilos.
Hortigranjeiros
Olerícolas
Em São Vicente do Sul, a batata-doce apresenta diferentes estádios de desenvolvimento, do crescimento vegetativo ao enchimento das raízes. Com o retorno parcial das chuvas, há expectativa de retomada do crescimento, após período de estagnação causado pelo calor e pela falta de precipitação. Há registros de murcha bacteriana, e as variedades cultivadas incluem amélia, roxa, americana, rubissol, munhata e crioula.
A mandioca encontra-se majoritariamente em fase de crescimento dos tubérculos, com produtores já comercializando parte da produção. O déficit hídrico também afetou o desenvolvimento, mas as chuvas recentes devem contribuir para a recuperação das plantas.
As hortaliças folhosas apresentam, em geral, bom desenvolvimento, embora enfrentem desafios com temperaturas extremas. Em Santa Maria, há registro de escaldadura solar em lavouras de alface. O baixo nível dos reservatórios preocupa olericultores, especialmente quanto à irrigação.
Fruticultura
Em Cachoeira do Sul, a nogueira apresenta expectativa de produção de 1,5 tonelada por hectare. A cultura da oliveira também traz boas projeções, que deverão ser confirmadas com o início da colheita no próximo mês.
Melancia
Em São Francisco de Assis, a safra de melancia apresentou boa produtividade, apesar de surtos de tripes e pulgões ao longo do ciclo, que causaram prejuízos pontuais devido à transmissão de viroses.
Criações
Pastagens
Mesmo com chuvas pontuais em alguns municípios, a escassez de precipitações regulares e as altas temperaturas seguem limitando o crescimento das pastagens de verão e do campo nativo. Em São Vicente do Sul, produtores realizam roçadas para controle de alecrim e enfrentam alta infestação de capim-annoni, exigindo manejo químico. Também foi registrada a presença de cigarrinhas-das-pastagens.
Bovinocultura de corte
Apesar da redução na oferta de forragem, a condição geral dos rebanhos ainda é considerada satisfatória. Municípios do Vale do Jaguari, como Formigueiro e São Sepé, sentem mais os efeitos da irregularidade das chuvas. As cotações do gado apresentaram leve queda, com preço médio de R$ 11,41 por quilo de peso vivo para o boi e R$ 10,31 para a vaca.
Bovinocultura de leite
As chuvas ajudaram a amenizar a estiagem em alguns municípios, mas o setor enfrenta cenário econômico desfavorável, com preços historicamente baixos. O valor pago ao produtor ficou em R$ 2,03 por litro, com variação entre R$ 1,70 e R$ 2,45.
Ovinocultura
A falta de chuvas regulares compromete a qualidade e a quantidade das pastagens, afetando as condições nutricionais dos rebanhos. O preço do cordeiro apresentou nova leve queda, cotado em R$ 12,05 por quilo de peso vivo.
Apicultura
Os manejos atuais concentram-se no fortalecimento dos enxames e na alimentação das colmeias. As principais floradas são da flora nativa e da soja, como observado em Vila Nova do Sul. A próxima safra de mel está prevista para o outono e início do inverno. O mel fracionado é comercializado entre R$ 15 e R$ 35 por quilo, enquanto o mel a granel varia de R$ 10 a R$ 10,50.