Educação parental: mãe e influenciadora digital ajuda pais a melhorar a conexão com os filhos

Vitória Parise

Educação parental: mãe e influenciadora digital ajuda pais a melhorar a conexão com os filhos
Educação respeitosa, disciplina positiva, parentalidade consciente… Esses conceitos, que podem ser novos para muitas pessoas, possuem algumas coisas em comum: conexão, comunicação e cooperação. Quando o assunto é melhorar a relação com o filho e tornar o maternar mais leve, essas questões são levadas a sério. Muitas mães estão buscando mudar a forma de criação dos seus filhos, com o objetivo de proporcionar uma infância saudável e quebrar ciclos que podem causar traumas. 

Foto: Isabelli Prates

Nascida e criada em Santa Maria, Isabelli Prates, de 25 anos, é mãe da Helena, de 5 anos, e Lívia, de 3 anos. As duas gestações ocorreram quando ela estava cursando odontologia, na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Junto do pai das meninas, Henrique Araújo, de 27 anos, uma série de fatores fez com que ela reavaliasse a forma de criar suas filhas. Apesar de conhecer a disciplina positiva, ela sempre pensou que seria impossível colocá-la em prática. A ‘virada de chave’ aconteceu durante a gestação da Lívia, no momento em que ela percebeu que estava distante da Helena, que na época tinha 1 ano e poucos meses.

– Eu percebia que ela ia até outras pessoas para buscar acolhimento. Eu percebi que se eu não fizesse essa mudança no nosso relacionamento, isso ia se alastrar por toda a vida dela. Eu sempre sonhei em ser amiga das minhas filhas, que elas pudessem contar comigo, para que eu pudesse ajudar. Foi nesse momento que eu percebi que se isso não mudasse, eu não ia ter esse ponto de conexão com elas. 

A partir disso, Isabelli deu início aos estudos sobre a importância de estabelecer uma relação positiva com as crianças. Pouco a pouco, a rotina das pequenas foi ajustada. O uso de telas (TV, celular, tablet) foi reduzido, o tempo de qualidade aumentou e a comunicação virou um dos pontos principais para que tudo funcionasse. 

Sem grandes planos, a partir de 2017, ela decidiu compartilhar pensamentos, dicas e a rotina com as filhas. E, aos poucos, foi conquistando a atenção de mães que também queriam aprender mais sobre o conceito. A partir do momento em que ela percebeu que isso não era apenas um hobby, ela iniciou os estudos profissionalizantes na área. Hoje, Isabelli possui mais de 370 mil seguidores no Instagram, rede em que o conteúdo é compartilhado diariamente no @depoisquepariduas. Além disso, ela criou um canal no YouTube e tem vídeos no TikTok que ultrapassam 1 milhão de visualizações.

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A IMPORTÂNCIA DE CONFIAR NO PROCESSO

As mudanças nunca são fáceis, principalmente para as crianças. Isabelli conta que os desafios são diários. É preciso trabalhar a paciência e entender que para os pequenos, as informações não são assimiladas da mesma forma que para um adulto. Algumas reações são esperadas e, muitas vezes, previsíveis. A ‘birra’ pode assustar os pais durante este processo. Isabelli conta que, o choro, na verdade, é uma forma que a criança encontra de externar seus sentimentos e frustrações. O choro, muitas vezes, é visto como uma forma de ‘provocar’ o adulto, mas é importante ter a consciência de que isso não passa de um pensamento equivocado e enraizado na sociedade.

– Eles são impulsivos, não têm a capacidade de controlar as emoções. Essa é a verdade sobre o desenvolvimento infantil, eles não fazem nada para nos atingir, e sim, porque são imaturos, neurologicamente falando. Então, tu começa a mudar a maneira que tu enxerga teu filho, e vê aquilo como um comportamento natural, aceitável e esperado do desenvolvimento infantil. 

Muitas mães acreditam que o método funciona apenas quando os filhos são pequenos. Algumas delas chegam até Isabelli, relatando que a criança está com 10 anos, ou até entrando na pré-adolescência. Em muitos casos, a educação punitiva é uma realidade para a família, onde a rotina é baseada em ameaças, violência verbal e física. Repreender não é a melhor escolha, já que faz com que o medo se torne parte da relação, e a falsa obediência pode trazer problemas futuros, onde o apoio necessário pode ser encontrado fora de casa.  

– Dá tempo, sempre dá tempo. Quanto tempo ainda temos pela frente? Obediência cega não gera responsabilidade, e isso é visto na adolescência, onde a mentira e os segredos começam a surgir, e os pais percebem que não tem mais controle. Por isso é importante trabalhar a relação bilateral, onde o adulto não é superior. 

Por que tem que ser sofrido? Por que sempre temos que ver pelo lado da escassez? A criança precisa entender aquilo que precisa ser feito, mas o processo não precisa ser doloroso. Isabelli fala muito sobre como é interessante abordar as situações do cotidiano com abundância. Ao invés de abordar a situação seguida de uma consequência negativa, por que não explorar algo prazeroso? Trocar o “vai tomar banho, caso contrário, tu vai ficar de castigo” pelo “nossa, eu amo tomar banho! Vamos lá, escolhe um brinquedo, vamos dormir bem cheirosos” faz toda a diferença. 

Em entrevista ao Diário, Isabelli reforçou diversas vezes: educação respeitosa não é para funcionar. Não existem táticas e ferramentas para que o filho obedeça. Ela conta que não é sempre que as filhas colaboram, e isso faz parte do processo.

– Temos essa visão que é preciso punir, castigar. O desconhecimento acaba causando o afastamento, por que falamos muito sobre gentileza, pedir desculpas, se colocar no mesmo lugar dos filhos. Ter o pensamento: ‘quando eu era criança, gostava de ser tratada assim?’. 

Um dos pontos positivos que podem ser observados a longo prazo é a capacidade de saber reconhecer relações e ambientes que não são saudáveis. Quem vive em um ambiente violento, pode entrar em uma relação abusiva e não perceber os problemas, já que durante a sua criação, a violência era parte do cotidiano. 

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REDE DE APOIO

A reclamação de muitas mães é a falta de compreensão das demais pessoas que convivem com as crianças. Nesses casos, é importante ter o pulso firme e impor a decisão. 

Aplicar os novos ensinamentos no cotidiano pode ser desafiador. Para os pais da Maria Luiza, de 2 anos e 8 meses, a educação respeitosa estava nos planos desde que eles descobriram a gravidez. Para a mãe, Eduarda de Araújo Batista, de 22 anos, os danos de uma educação tradicional, baseada na violência física e moral, foram sentidos desde sempre. O pai, Cleomar Iensen Abreu Junior, 22 anos, sempre optou pelas alternativas não violentas na sua vida, e acredita que não poderia ser diferente na criação de um filho. 

– Era frequente o uso de ameaças e chantagens emocionais para conseguir manipular meu comportamento. Eu queria fazer diferente, acredito que o conhecimento nos liberta. Procuramos todos livros, ebooks e cursos que pudemos comprar para aprendermos a criar uma criança compassivamente,  para alinharmos nossos objetivos com a criação que gostaríamos de propor pra Maria.

O estresse causado pelo trabalho e comentários negativos vindos de outros familiares são aspectos vividos com frequência pela família, que muitas vezes tentam desrespeitar, gritar e até mesmo bater na pequena,  o que não é permitido pelo casal. 

– Temos que lutar dia após dia contra nossas próprias feridas da infância para poder proporcionar um crescimento adequado para nossa filha. Sentar, ouvir, acolher, amar e cuidar é muitas vezes desafiador, mas compensa ver que quando ela tem um problema, dúvida ou medo ela corre pra gente e não da gente.. Queremos que ela saiba que sabe que seremos sempre o porto seguro dela. – acrescenta Cleomar. 

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Já Isabelli se considera uma pessoa de sorte, já que sempre teve o apoio da família. A infância da educadora parental foi recheada de bons momentos, herança que ela quer passar para as filhas. O papai, Henrique, fica distante das câmeras, mas sempre foi parceiro na hora de dividir tarefas e obrigações, para que nenhum ficasse sobrecarregado. Infelizmente, não é o caso de muitas famílias. Para quem foi criado com a educação punitiva, a aprovação dos outros é sempre necessária.

– É preciso dizer para essas pessoas que apesar do amor e respeito que sentimos por elas, nós temos nossos limites pessoais. Eu vou educar os meus filhos dessa forma. Não fomos ensinados a impor isso, mas cada família vai decidir o que é negociável ou não. 

MÃE, EDUCADORA PARENTAL E INFLUENCER

O que começou como um passatempo, virou brincadeira de gente grande. Inicialmente, em 2017, Isabelli começou a compartilhar a rotina de criação das filhas, mas apenas para família e amigos. Hoje, ela é uma mentora para todos aqueles que seguem o perfil. Isabelli chega a receber 26 mil mensagens por semana, com dúvidas, opiniões e desabafos sobre o maternar. 

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A pandemia fez com que ela saísse do emprego para ficar em casa com as filhas, o que foi frustrante. Mesmo sem sofrer nenhum tipo de pressão, não auxiliar na renda familiar era motivo de preocupação. A quarentena fez com que ela aumentasse o fluxo das postagens, aumentando também o número de seguidores.

É importante dizer que o conteúdo disponibilizado por Isabelli fala sobre a vida real da maternidade, incluindo a falta de tempo, o cansaço, a pressão e tantos outros sentimentos que fazem parte do papel de ser mãe. A maior parte dos seguidores do perfil é composta por mulheres que ainda não são mães, e acompanham o conteúdo para aprender e quebrar o ciclo de traumas. Muitos seguidores relatam que as situações compartilhadas pela influencer são vistas como um abraço na criança que eles foram um dia. 

– Muitas vezes isso pode dar a entender que a gente odeia nossos pais. Não! Não é isso. Mas é inevitável que todos nós carregamos mágoas, nossos pais também, e os pais deles também. A educação respeitosa não é sobre mudar os filhos, mas sim, curar a nossa criança interior ferida, oferecer algo que eu não tive. 

Isabelli segue sendo o ponto de contato de milhares de pessoas que acompanham o cotidiano dela com as filhas, e os ensinamentos que são repassados de uma forma leve e didática. Semear e levar esse conteúdo adiante ainda é o principal objetivo da mãe, que ama ensinar sobre respeito, compreensão e amor.

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Vitória Parise, [email protected]

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