Foto: Sultepa (Divulgação)
Após quase duas décadas entre início, paralisações e retomadas, a estrutura principal da Barragem do Jaguari, em São Gabriel, foi oficialmente entregue nesta quarta-feira (1º). A obra, considerada estratégica para a segurança hídrica da região, entra agora em uma nova fase, marcada por etapas técnicas e pela necessidade de viabilizar o sistema de irrigação — ainda inexistente. O ato contou com a presença do governador Eduardo Leite (PSD).
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Embora a conclusão represente um avanço importante, a barragem, sozinha, não garante a irrigação em larga escala. Para que a água chegue às propriedades rurais, especialmente as mais distantes, será necessário avançar em projetos, licenciamento ambiental e execução dos canais de irrigação, etapa considerada essencial para o funcionamento pleno do sistema.
Próximos passos
Com a estrutura concluída, o empreendimento entra agora na fase de testes e complementações. Está previsto o início do enchimento gradual do reservatório, de forma controlada, para avaliar o comportamento da barragem. Esse processo pode se estender por até 18 meses.
Paralelamente, será necessário concluir a parte hidráulico-mecânica da estrutura e avançar nos trâmites para obtenção da Licença de Operação (LO), que autoriza oficialmente o uso da água.
No entanto, o principal desafio está na etapa seguinte: a implantação dos canais de irrigação. Para isso, ainda será preciso elaborar os projetos, realizar estudos ambientais, como o Estudo de Impacto Ambiental e Relatório de Impacto Ambiental (EIA/Rima), obter aprovação dos órgãos competentes, como a Fepam, além de garantir recursos financeiros e realizar o processo de licitação das obras.
Até o momento, não há prazo definido para a conclusão desses canais.

A barragem foi projetada para beneficiar municípios da região, com potencial de impacto no abastecimento e na produção agropecuária. Ainda assim, sem os canais, a utilização da água tende a ser limitada.
Na prática, isso significa que, embora o reservatório esteja pronto, a distribuição da água ainda depende de uma nova frente de obras. A expectativa de ampliar a irrigação e reduzir os efeitos das estiagens está diretamente condicionada à execução dessa infraestrutura complementar.
A implantação dos canais de irrigação é a etapa que deve materializar o principal objetivo econômico da barragem. São essas estruturas que vão permitir a condução da água do reservatório até as áreas produtivas, especialmente propriedades mais distantes, onde hoje o acesso hídrico é limitado.
Sem esse sistema de distribuição, o impacto da barragem tende a ficar restrito, já que a água armazenada não chega de forma ampla às lavouras. É a conexão entre o reservatório e o campo que viabiliza o aumento da área irrigada e, consequentemente, o ganho de produtividade agrícola na região.

Anunciada em 2008 e iniciada em 2009, a barragem teve o andamento interrompido em 2012, após a identificação de problemas contratuais e a necessidade de adequações às legislações ambientais. A obra ficou paralisada por seis anos, sendo retomada apenas em 2018, com nova contratação de empresas e revisão técnica da estrutura.
Ao longo do tempo, o ritmo de execução variou. Nos primeiros 10 anos, foram concluídos 44% da obra. Entre 2019 e 2022, o percentual chegou a 65%. Já entre 2023 e março de 2026, foram executados os 35% restantes, com aceleração no andamento.
A Barragem do Jaguari integra um sistema mais amplo, que inclui ainda a barragem do Taquarembó e os futuros canais de irrigação. Juntas, as estruturas devem beneficiar municípios da região da Campanha e Fronteira Oeste.
Neste momento, porém, a entrega marca o fim de uma etapa importante, mas não a conclusão do projeto como um todo. O funcionamento pleno, especialmente para irrigação, ainda depende de novas obras, que seguem sem cronograma definido.
Segurança hídrica
Em entrevista ao portal GZH, a secretária estadual de Obras, Izabel Matte, destacou a importância da barragem diante dos períodos recentes de estiagem.
– Com as estiagens recentes, ficou muito claro que aqui no Rio Grande do Sul temos um problema sério de reservação da água. Esse problema nos levou a perceber a importância em relação às barragens, porque assim vamos ter condição de fazer a reservação da água e ainda uma distribuição mais controlada, deixando a gestão desse recurso muito mais eficiente – afirmou.
A estrutura também é apontada como uma ferramenta para enfrentar eventos climáticos extremos, tanto em períodos de seca quanto de cheias, ao permitir maior controle sobre o volume de água na região. A expectativa é que, com o sistema completo, incluindo os canais de irrigação, haja impacto direto na produção agropecuária, especialmente em culturas como arroz e soja, além de contribuir para a regularidade no abastecimento.