Foto: Vinicius Becker (Diário)
No Bairro Cerrito, em Santa Maria, a mobília contemporânea da casa de Laura Guarany se mistura às relíquias que respiram a história missioneira do Rio Grande do Sul. Entre quadros, fotografias e instrumentos, o espaço transborda um valor que ultrapassa o material: ali, aos 44 anos, a artista protege a memória viva de seu pai, Noel Guarany, um dos pilares da cultura gaúcha.
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No ano em que se celebram os 400 anos das Missões Jesuíticas, esses objetos ganham uma simbologia singular. Eles deixam de ser itens decorativos para se tornarem a extensão física de uma história construída há séculos – fios de um passado que insiste em se manter presente por meio do zelo de quem entende o peso do próprio sobrenome.
Laura carrega a Cruz Missioneira no peito e nas mãos o cuidado com o acervo. Entre álbuns de recortes que traduzem, em manchetes amarelecidas, as décadas de glória do pai, um objeto em particular interrompe o tempo: uma fotografia de Laura, ainda pequena, ao lado de Noel. Na imagem, ele segura um chimarrão, hábito que era sua marca registrada.

Hoje, a bomba da cuia vista na foto repousa sob o olhar da artista. Ela não serve mais para o mate, mas cumpre uma função mais nobre: é o elo tátil entre o agora e os dias em que a mão de um "Tronco Missioneiro" a utilizava. São objetos que um dia tiveram vida pulsante junto ao mestre e que, neste momento, passam a descansar como protetores de um legado.
Quem foi Noel Guarany?
Para compreender Laura, é preciso mergulhar na história de Noel Borges do Canto Fabrício da Silva, conhecido como Noel Guarany. Ele foi um dos Quatro Troncos Missioneiros, ao lado de Jayme Caetano Braun, Cenair Maicá e Pedro Ortaça – este último, o único remanescente do grupo, homenageado recentemente em Santa Maria. Juntos, eles forjaram a identidade cultural da região, alicerçada na temática indígena e fronteiriça.

Noel não era apenas músico, mas um pesquisador autodidata. Aprendeu a língua guarani na adolescência e peregrinou por Argentina, Uruguai, Paraguai e Bolívia na fase adulta, colhendo o subsídio para suas canções. Nasceu em Bossoroca (então distrito de São Luiz Gonzaga) e, longe dos palcos, era um humanista ativo: presidiu a associação de moradores da Vila Santos, Bairro Urlândia, em Santa Maria, onde provou que a arte era indissociável do compromisso social. O músico partiu em 6 de outubro de 1998, aos 56 anos, após complicações médicas.
A vinda da família para Santa Maria ocorreu em 1984, motivada pelo trabalho da mãe de Laura, Editi Fabrício da Silva, hoje com 76 anos, servidora da extinta Companhia Riograndense de Telefone (CRT). O local escolhido para chamar de lar foi uma casa na Vila Santos que logo passou a ser o refúgio criativo de Noel Guarany. Naquela época, a região era pouco povoada, cercada pela natureza que prezava para compor. Foi ali, entre o sossego das árvores e o silêncio, que ele lapidou a estética missioneira que hoje é patrimônio do Estado.
“Minha música é a música dele”
Embora tenha nascido em Porto Alegre, Laura chegou a Santa Maria com apenas três anos, o que a define como santa-mariense de coração. Hoje, a memória do pai se manifesta nela de forma visceral: na respiração firme antes de cada nota e na voz que ecoa as melodias que Noel imortalizou.

– Minha música é a música dele. Não existe Laura Guarany sem Noel Guarany. O vínculo é inevitável. Sua maior lição é ter uma identidade; não cantar por cantar, mas defender uma cultura e ter um compromisso com a verdade – afirma.
Como musicista, cantora, maestrina e professora de canto, ela leva essa verdade para os palcos das Missões e da Região Metropolitana. A marca desse compromisso está gravada até na pele: uma tatuagem onde as iniciais L e G se cruzam com a Cruz Missioneira.
400 anos de história e o canto eterno
Em 2026, as Missões Jesuíticas Guaranis completam 400 anos, e celebram a fundação da redução de São Nicolau e o encontro cultural entre europeus e indígenas. Os sítios arqueológicos, como São Miguel Arcanjo (Patrimônio Mundial pela Unesco), são o testemunho de pedra dessa herança.

Em maio deste ano, Laura participou de um projeto monumental que celebra os 400 anos das Missões. A música, intitulada "Tenho 400 anos", escrita por Rodrigo Bauer e Erlon Péricles, é uma imersão na trajetória desse território.
O videoclipe percorre cenários simbólicos, como as Reduções dos Sete Povos, e presta homenagens esculturais: as estátuas de Jaime Caetano Braun, em São Luiz Gonzaga, e de Noel Guarany, em Bossoroca – ambas obras do artista Vinícius Ribeiro. A gravação reuniu uma constelação regional, incluindo nomes como Mano Lima, Patrício Maicá e Angelo Franco, unindo gerações em torno de uma identidade. Ao dar voz a esse projeto, Laura reafirma que seu sobrenome artístico é, na verdade, uma missão de vida:
“Sou missioneiro
Sou um tipo soberano
Tenho quatrocentos anos
A povoar as solidões”
Trecho da música "Tenho quatrocentos anos"