Santa Maria 168 anos

Santa Maria acelera no ritmo da corrida de rua

Nas primeiras horas da manhã e no fim das tardes, parques, avenidas e pistas de Santa Maria passaram a ganhar um novo ritmo. Em grupos organizados, duplas ou sozinhos, milhares de corredores transformaram a corrida de rua em parte da rotina da cidade, um movimento que cresceu nos últimos anos e hoje envolve assessorias esportivas, atletas de alto rendimento e provas que mobilizam cada vez mais participantes.

Mais do que atividade física, a corrida se consolidou como estilo de vida. Essa transformação é acompanhada de perto por diversos profissionais na cidade. Um deles é o treinador Neto Barros, sócio da GoFit Assessoria Esportiva e um dos nomes ligados ao desenvolvimento da modalidade no município.

Natural da Paraíba, Neto começou a correr em 2010 e, já em Santa Maria, encontrou na corrida não apenas uma prática esportiva, mas também conexões pessoais e profissionais que ajudaram a construir sua trajetória na cidade.

“Há cerca de dez anos, a quantidade de praticantes era muito menor e os espaços públicos ainda não eram tão ocupados por corredores como vemos atualmente”, relata.

Segundo ele, a modalidade ganhou força de maneira significativa nos últimos anos, impulsionada pela expansão das assessorias esportivas, pela realização de eventos e pela mudança na forma como a população passou a enxergar a atividade física.

“Hoje a corrida faz parte da rotina de milhares de pessoas na cidade, seja por saúde, lazer, desempenho ou socialização”, afirma. A estimativa é de que aproximadamente 5% da população santa-mariense mantenha a corrida como prática regular.

Muito além do desempenho

Para os treinadores, a evolução do esporte não está ligada apenas aos resultados nas provas. O crescimento da corrida também passa pelo fortalecimento do senso de comunidade e pertencimento criado entre os corredores.

“A corrida deixou de ser vista apenas como uma atividade individual e passou a representar qualidade de vida, convivência social e pertencimento a uma comunidade”, destaca Neto.

Nesse cenário, as assessorias esportivas ganharam papel importante, especialmente entre os iniciantes. Além da orientação técnica, os grupos ajudam na motivação, socialização e prevenção de lesões.

“O treinador ajuda a estruturar e direcionar os treinos de maneira individualizada, respeitando os objetivos e limitações de cada pessoa”, explica.

Corrida para todos

Se a corrida de rua cresceu em Santa Maria, parte dessa expansão também passa pela ideia de que o esporte se tornou mais acessível e democrático. Para o profissional de educação física e sócio da ProElite Assessoria Esportiva, Giuliano Lucas, a modalidade deixou de ser vista apenas como competição e passou a atrair pessoas em busca de saúde, qualidade de vida e superação pessoal.

Segundo ele, o avanço da corrida pode ser percebido não apenas nas ruas da cidade, mas também na presença cada vez maior de atletas locais em grandes provas do país. Giuliano cita como exemplo a forte participação de corredores santa-marienses em eventos tradicionais do calendário nacional, como a Maratona Internacional de Porto Alegre.

“A corrida de rua vem crescendo muito, não só aqui em Santa Maria, mas também em todo o Brasil e no mundo. Hoje é um esporte para todo mundo. Basta vontade de começar, uma roupa confortável e um direcionamento adequado”, afirma.

Na visão do treinador, um dos diferenciais da corrida está justamente na ausência da lógica tradicional de vitória e derrota presente em outros esportes.

“Na corrida, não existe perdedor. Cada pessoa que sai de casa para treinar já venceu. Cada quilômetro conquistado é uma evolução pessoal”, destaca.

Dentro desse cenário, as assessorias esportivas passaram a ter papel importante principalmente entre os iniciantes. Mais do que melhorar desempenho, o acompanhamento profissional ajuda a evitar lesões e criar uma rotina de treino mais segura e duradoura.

“A assessoria não é só para quem quer performance. Ela ajuda quem deseja começar da forma certa, correr com saúde e ter longevidade no esporte”, explica.

Para Giuliano, esse cuidado tem contribuído diretamente para a consolidação da corrida como um hábito cada vez mais presente na rotina dos santa-marienses.

Corrida mais profissional e conectada

O crescimento da corrida de rua em Santa Maria também é acompanhado por um processo de profissionalização do esporte. O avanço das assessorias, a criação de calendários organizados de provas e o uso cada vez maior de tecnologia transformaram a forma como atletas amadores e profissionais treinam na cidade.

Quem acompanha essa evolução de perto é o professor Me. Italo Ribeiro, sócio proprietário da Italo Ribeiro Assessoria Esportiva. Ligado à corrida desde 2008, ele acumula experiência na organização de eventos esportivos e também na preparação de atletas durante o período em que atuou como tenente educador físico da Força Aérea Brasileira.

Hoje à frente da assessoria, o treinador afirma que a modalidade vive um momento de forte expansão em Santa Maria, mesmo diante da carência de espaços públicos adequados para treinamento.

“A corrida é o esporte que mais cresce no mundo e Santa Maria acompanha esse movimento. Mesmo com dificuldades relacionadas à falta de parques, ciclovias e espaços seguros, a cidade construiu uma cultura muito forte da corrida”, destaca.

Segundo Italo, o fortalecimento das assessorias esportivas teve papel importante nesse processo. Somadas, as três maiores assessorias da cidade atendem aproximadamente entre 1,6 mil e 1,8 mil corredores, além de milhares de praticantes que treinam de forma autônoma.

Outro fator apontado por ele é o avanço da tecnologia aplicada ao esporte. Relógios inteligentes, aplicativos e plataformas de monitoramento passaram a integrar a rotina de treino, permitindo um acompanhamento mais preciso do desempenho dos atletas.

“Hoje conseguimos analisar frequência cardíaca, zonas de treinamento, altimetria, consumo de oxigênio e diversos outros dados em tempo real. Isso tornou o treinamento muito mais seguro e eficiente”, explica.

Além do aspecto técnico, Italo acredita que as assessorias passaram a funcionar também como espaços de apoio coletivo e motivação.

“Muitas pessoas encontram na corrida uma rede de apoio. Ali existem pessoas com os mesmos desafios, medos e objetivos. Isso fortalece o vínculo com o esporte e ajuda na permanência dos atletas na modalidade”, afirma.

Para ele, a tendência é de que a corrida continue crescendo nos próximos anos, impulsionada pela busca por saúde, bem-estar e qualidade de vida.

Aprendizados do Quênia para Santa Maria

O crescimento da corrida em Santa Maria também se conecta a experiências internacionais. Recentemente, o treinador e atleta Giuliano Lucas participou de uma imersão em Iten, no Quênia, cidade reconhecida mundialmente por formar alguns dos maiores corredores de longa distância da história.

Durante duas semanas, Giuliano viveu a rotina dos atletas quenianos. Treinou, se alimentou e conviveu com corredores locais em uma experiência voltada ao aprendizado esportivo e à troca cultural. A missão também incluiu ações sociais, com doações de tênis e itens básicos de higiene para comunidades carentes.

“Foi sensacional viver como eles, estar como eles”, resume.

O treinador conta que um dos momentos mais marcantes da viagem foi perceber o quanto a corrida faz parte da identidade cultural do país africano. Para ele, a experiência ajudou a reforçar uma lição simples, mas fundamental.

“A simplicidade e a maneira como eles treinam é o que leva eles além. Não existe pílula mágica. O que existe é constância, sabedoria e humildade.”

Agora, a ideia é trazer os aprendizados para a realidade local, adaptando os métodos aos diferentes perfis de corredores da cidade.

Quênia: a potência mundial da corrida

Referência histórica nas provas de longa distância, o Quênia se consolidou como uma das maiores potências do atletismo mundial. Nas últimas décadas, atletas quenianos dominaram competições olímpicas, mundiais e as principais maratonas do planeta, acumulando recordes e títulos em provas de 5 mil metros, 10 mil metros, meia maratona e maratona.

Grande parte desse sucesso está ligada à região do Vale do Rift, onde cidades como Iten se tornaram centros internacionais de treinamento. Localizada a mais de 2,4 mil metros de altitude, a cidade recebe atletas de diferentes países que buscam melhorar desempenho e resistência física em um ambiente considerado ideal para a preparação esportiva.

A combinação entre altitude elevada, rotina intensa de treinos desde cedo e uma forte cultura esportiva ajuda a explicar o desempenho acima da média dos corredores do país. Em muitas comunidades quenianas, correr faz parte da vida cotidiana desde a infância, seja no deslocamento até a escola, nas atividades do dia a dia ou como oportunidade de transformação social e financeira.

Além dos fatores físicos, especialistas apontam a disciplina coletiva e a simplicidade da preparação como marcas do modelo queniano. Em muitos grupos de treino, atletas profissionais dividem espaço com iniciantes, mantendo uma cultura baseada em constância, resistência mental e grande volume de treinamento.

Os números ajudam a dimensionar essa hegemonia. O Quênia soma dezenas de medalhas olímpicas e mundiais no atletismo e já produziu alguns dos maiores nomes da história da corrida, como Eliud Kipchoge, bicampeão olímpico e primeiro homem a completar uma maratona abaixo de duas horas em uma prova controlada. O país também aparece frequentemente entre os vencedores das principais maratonas do mundo, como Boston, Londres, Berlim, Chicago e Nova York.

Mais do que formar campeões, o modelo queniano se tornou referência global de treinamento e inspiração para atletas e treinadores que buscam evolução dentro e fora das pistas.

A vida dedicada à corrida

Entre os nomes que representam o alto rendimento em Santa Maria está o atleta Gabriel Pozzo, vencedor da primeira edição da Maratona de Santa Maria. A relação dele com o esporte começou ainda em 2014, quando conciliava corridas de rua com o futsal, modalidade que considerava sua grande paixão.

A mudança definitiva veio em 2017, quando decidiu abandonar o futebol e se dedicar integralmente à corrida.

“Naquela época tinham poucos corredores. A gente sabia o nome de todo mundo que corria”, relembra.

Hoje, segundo Gabriel, a realidade é completamente diferente. O número de corredores aumentou, novas provas surgiram e os espaços públicos passaram a reunir atletas de diferentes níveis quase diariamente.

“Tu vai numa pista, na Faixa Velha num sábado de manhã, e encontra um monte de corredor. É um cenário muito bonito.”

A rotina do atleta profissional, porém, vai muito além dos quilômetros percorridos. Gabriel realiza até duas sessões de treino por dia, além de trabalhos de fortalecimento muscular, fisioterapia, alimentação controlada e descanso rigoroso.

“Hoje eu vivo para a corrida. Tudo que eu faço é pensando nela.”

Ele também destaca que cada pessoa encontra um propósito diferente dentro do esporte, seja saúde, qualidade de vida, superação pessoal ou alto rendimento.

“A partir do momento que tu começa a correr, tu não é só mais uma pessoa que corre. Tu é um corredor, e tu se identifica com outros corredores.”

Mesmo com o crescimento da modalidade, Gabriel lembra que a realidade financeira dos atletas ainda é desafiadora, principalmente fora dos grandes centros do país. Ainda assim, momentos marcantes ajudam a manter a motivação.

A principal lembrança da carreira segue sendo a vitória na primeira Maratona de Santa Maria.

“Ser recebido na tua cidade como campeão da primeira edição da maratona foi um momento muito especial. É algo que me estimula a continuar acreditando.”

Uma cidade que aprendeu a correr

Se antes as corridas de rua aconteciam de forma pontual e reuniam grupos menores de participantes, hoje Santa Maria vive uma nova realidade. O aumento no número de provas, corredores e assessorias esportivas colocou a cidade em evidência no cenário estadual da modalidade e transformou a corrida em uma das práticas esportivas que mais crescem no município.

Segundo o secretário municipal de Esporte e Lazer, Gilvan Ribeiro, o poder público passou a assumir papel importante na organização e fortalecimento desse movimento.

“Hoje temos uma maratona internacional consolidada, que chega à quarta edição neste ano, além de um calendário com cerca de 20 eventos oficiais ao longo de 2026”, destaca.

Somadas, as provas devem movimentar aproximadamente 18 mil inscrições ao longo do ano, entre eventos promovidos pela prefeitura e iniciativas privadas apoiadas pelo Executivo. Entre os destaques estão a tradicional Rústica de Aniversário de Santa Maria e a Maratona Internacional, que reúnem milhares de corredores de diferentes regiões.

Para o secretário, o avanço das provas também impulsionou o crescimento das assessorias esportivas e ampliou a procura por acompanhamento técnico.

“As assessorias já tinham tradição na cidade, mas conseguiram expandir muito nos últimos anos diante do aumento dos eventos e da busca das pessoas pela corrida”, afirma.

Gilvan acredita que Santa Maria já ocupa posição de destaque no cenário gaúcho da modalidade e que a tendência é de crescimento contínuo nos próximos anos.

“A cidade se tornou uma referência. E isso só é possível quando existe envolvimento de diferentes setores, com a prefeitura atuando como organizadora, incentivadora e parceira para que os eventos aconteçam”, avalia.

Por Mateus Rossato

Fotografias: Arquivo pessoal dos entrevistados

Carregando matéria

Conteúdo exclusivo!

Somente assinantes podem visualizar este conteúdo

clique aqui para verificar os planos disponíveis

Já sou assinante

clique aqui para efetuar o login

Caderno especial celebra os 168 anos de Santa Maria com histórias, memórias e personagens da cidade Anterior

Caderno especial celebra os 168 anos de Santa Maria com histórias, memórias e personagens da cidade

Grupo Diário promove na próxima terça-feira a 2ª edição do Jantar das Entidades e Sindicatos de Santa Maria Próximo

Grupo Diário promove na próxima terça-feira a 2ª edição do Jantar das Entidades e Sindicatos de Santa Maria

Geral