Nesta terça-feira (09), centenas de pessoas lotaram o Centro de Convenções da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) para prestigiar a primeira edição do evento “Brasil é Terra Indígena”. O tema foram os 522 anos de resistência dos povos indígenas no Brasil e o objetivo era contar a história e a luta desses povos através das suas lideranças.
A iniciativa foi organizado pelo curso de Ciências Sociais em parceria com a Liga Acadêmica Yandê, com o Coletivo Indígena da UFSM e com o Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas. A ideia do evento surgiu a partir do assassinato do indigenista brasileiro Bruno Pereira no Vale do Javari no Amazonas.
– A gente assistiu nos últimos anos o genocídio declarado aos povos indígenas e a uma colonização que nunca acabou. Desde 1500 a colonização segue, então a gente segue resistindo nos nossos territórios e agora dentro da universidade. Esse evento mostra que nós estamos nas aldeias e nas florestas, mas também dentro do ambiente acadêmico. Para todos os estudantes indígenas da universidade esse evento é um momento histórico – comenta o estudante de Direito, Xainã Pitaguary.
A cerimônia reuniu importantes lideranças indígenas de diferentes regiões do Brasil. Estiveram presentes representantes do povo Kaingang, Guarani, Pitaguary e Xakriabá. No entanto, o destaque da noite foi a presença do líder do povo Yanomami, Davi Kopenawa Yanomami.
Davi nasceu em 1956 no extremo norte do Amazonas e foi reconhecido, nas últimas décadas, como importante líder político dos indígenas Yanomami. Ele também é xamã, ativista na defesa dos povos indígenas e da floresta amazônica e presidente da Hutukara Associação Yanomami. Já recebeu diversos prêmios internacionais, um deles foi o Global 500 da ONU em 1988.
Confira a entrevista
Diário de Santa Maria – O que o senhor achou do evento e qual a importância dele para você?
Davi Yanomami – Achei muito bonito e muito importante para nós indígenas. Um evento bem preparado para nós mostrarmos o nosso trabalho, era o que a gente estava precisando. Ver esses jovens indígenas junto com a comunidade não-indígena que está aqui é muito importante para eles conhecerem a nossa cultura, nossa língua, nossos costumes e tudo isso que existe dentro da floresta. É muito bonito poder mostrar essas coisas para o povo da cidade e eles terem acesso ao nosso conhecimento e sabedoria tradicional e originária. Para mim é muito valioso estar aqui.
Diário – Para o senhor porque é preciso trazer a temática da luta indígena para dentro das universidades?
Davi – O povo indígena brasileiro nunca pensou que poderia estar nas universidades e agora estamos dentro delas. Os jovens universitários agora estão nos reconhecendo, antigamente os homens brancos não queriam nem ver e nem conhecer o povo indígena. Agora estão conversando com a gente, se aproximando aos poucos e é isso que nós queríamos. Nós queremos mostrar para o mundo o que temos para dizer e a universidade abriu essa porta para a gente. Isso é muito importante.
Diário – Como o senhor avalia a luta indígena atualmente e o que representam esses 522 anos de resistência?
Davi – Foi preciso lutar porque o povo não-indígena não estava nos deixando ficar em paz, então nós aprendemos a nos defender. Demorou muito para o homem branco ver a nossa luta e ela é muito importante para a gente poder sobreviver. Sem lutar não estaríamos vivendo e precisamos lutar junto com o povo da cidade. O meu povo indígena brasileiro é gente, eles são seres humanos e são daqui do Brasil, por isso queremos ensinar o povo da cidade a nos respeitar. Para isso estamos indo nas universidades falar com os homens brancos, para vocês saberem quem são os índios e da onde eles vieram. Na verdade, os índios não vieram de lugar nenhum, eles são daqui, nasceram aqui. Vamos contar o que realmente aconteceu, nós fomos maltratados, roubaram as nossas terras, invadiram as nossas casas, proibiram o meu povo de trabalhar, então agora nós estamos mostrando que nós temos coragem para defender o nosso direito.
Diário – O que podemos esperar da luta e da resistência indígena para os próximos anos?
Davi – Eu vou continuar lutando, porque daqui pra frente, tendo em vista tudo que aconteceu nos últimos anos, eu não acho que a situação vai melhorar. Acredito que só vai piorar. As autoridades estão nos destruindo, nos matando e acabando com a nossa casa. Estão poluindo os rios, garimpando as nossas terras e querendo colocar usinas de mineração nas terras indígenas, por isso eu acho que o futuro não vai ser bom. Se as coisas continuarem do jeito que estão no futuro não vai ter mais florestas e as nossas terras não vão mais existir.