Fazendo Arte: programa da emissora pública da UFSM completa 30 anos no ar e comemora com evento

Fazendo Arte: programa da emissora pública da UFSM completa 30 anos no ar e comemora com evento

Foto: Rian Lacerda

Programa da UniFM 107.9, apresentado por Rejane Miranda, completa três décadas valorizando artistas, criando conexões e formando comunicadores

Há trinta anos, uma hora do dia em Santa Maria pertence à arte. Sem roteiro e com a confiança de que a cultura da cidade será prestigiada, o programa Fazendo Arte, da UniFM 107.9 – emissora pública da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) – completa três décadas no ar em 2026. À frente do programa desde o início, a jornalista Rejane Miranda apresenta ao vivo, de segunda a sexta-feira, das 11h ao meio-dia, o que se tornou um dos programas mais tradicionais do rádio público santamariense. Para celebrar os 30 anos, o programa prepara uma comemoração na quarta-feira (3 de junho), a partir das 19h, no Old School Pub, em Santa Maria. A noite terá apresentações dos músicos Renato Mirailh, Maju, Fifo, Sandro Cartier e o Coletivo Croma. A programação pode ser conferida no instagram do programa: @fazendoarteufsm.


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O começo de tudo

Rejane chegou à Rádio Universidade da UFSM em 1995 como programadora. Já era formada em Relações Públicas, ainda cursava Jornalismo, e cantava profissionalmente. No décimo andar da reitoria, a produção era feita com discos de vinil e a programação datilografada em folhas amarelas com papel carbono, o operador colocava os discos no ar um a um. No ano seguinte, a convite da então diretora Áurea Fonseca, ela assumiu um novo programa diário de cultura. O horário escolhido foi das 11h ao meio-dia.

– Eu me interessava em trabalhar com música, participava de um outro programa falando sobre lançamentos. Aí fizeram a proposta de fazer um programa diário de uma hora. Escolhemos o horário das 11h, que dava para produzir pela manhã, e assim começou – lembra Rejane.

Trinta anos depois, o horário é o mesmo. O programa foi se adaptando a cada suporte – dos vinis aos CDs, dos CDs aos computadores, dos computadores às redes. Mas, uma coisa nunca mudou: não existe roteiro. O jornalista Jair Alan dividiu a bancada do programa por muitos anos com um quadro sobre cinema.

Todo dia, antes de o microfone abrir, José Carlos Quartiero – o Zezinho, técnico de áudio do programa há seis anos – prepara o chimarrão de Rejane. É o ritual que antecede a transmissão, e também um retrato da parceria que sustenta o programa a cada manhã.

– É uma aventura, porque eles nunca sabem o que vai acontecer. E é exatamente isso que torna esse programa especial. Como eu sempre digo, o operador tá sempre correndo atrás da Rejane para ver o que ela vai fazer a seguir – conta.

Para ele, não há dúvida sobre o lugar do Fazendo Arte na grade da emissora.

– É o meu programa favorito. Nenhum é igual ao outro. O fato de não ter roteiro torna cada edição única – destaca.

Diferentes vozes

Pelo programa passaram artistas de toda natureza, tanto da cidade, quanto do país. O ator santa-mariense Carmo Dalla Vecchia esteve na bancada ainda jovem, numa das entrevistas que Rejane guarda com carinho especial. José de Abreu, Lucinha Lins, Renato Borghetti,Luiz Carlos Borges e Nelson Mota são exemplos de artistas nacionais que passaram pelos microfones do Fazendo Arte.

Rejane Miranda conversou com o ator global, Carmo Dalla Vecchia, em 2005Foto: Arquivo Pessoal

Em maio deste ano, Rejane recebeu Itamar Vieira Junior, autor de Torto Arado, um dos romances mais celebrados da literatura brasileira recente. A lista é longa, e a rede de contatos construída ao longo de três décadas é o que torna possível esse acesso.

– Comecei a fazer uma rede de contatos que hoje facilita muito. As pessoas já conhecem o programa, já têm intimidade com ele – conta Rejane.

O Fazendo Arte também é, desde sempre, uma rádio-escola. Muitas bolsistas que passaram pela produção hoje trabalham em veículos de todo o Brasil. Trabalhar sem roteiro é parte do aprendizado.

– Elas diziam que não tinha roteiro e que tinha que fazer assim mesmo. Eu nunca tive roteiro, nunca. Mas acho que é a assinatura do programa: livre, mas informativo. Ver o retorno que a gente teve agora dos 30 anos, chamando praticamente todas as bolsistas... é incrível. É uma das coisas mais bonitas que tem – relata.

Diferentes formatos

O programa atravessou greves longas, licença-maternidade e pandemia. Durante o isolamento, Rejane montou um mini estúdio em casa, gravava os programas, o operador editava e o conteúdo ia ao ar. Durante o mestrado em Patrimônio Cultural na UFSM, pesquisou o acervo de mais de seis mil discos da Rádio Universidade para mapear artistas censurados durante a ditadura civil-militar. O trabalho virou um radiodocumentário em cinco episódios.

Em 2017, o Fazendo Arte migrou da rádio AM para a recém-fundada UniFM 107.9. Rejane foi uma das responsáveis por toda a implantação da nova emissora. Em menos de um ano, a FM estava no ar.

– A implantação exigiu muito trabalho, a gente ficou muito cansada. Mas foi muito importante – lembra Rejane.

O papel da mulher no rádio é algo que ela faz questão de destacar. Quando ingressou na emissora, o ambiente era essencialmente masculino.

– O rádio tem mais de 100 anos, e na minha época a presença feminina era muito pequena. É importante a gente afirmar esse papel, da mulher ocupando esse espaço, sendo comunicadora, dando o seu recado num meio essencialmente masculino.

O retorno do público chega de formas variadas. Uma ouvinte, que trocava mensagens pelo WhatsApp e havia ganhado ingressos para a orquestra divulgados no programa, apareceu pessoalmente na frente da rádio para conhecer Rejane e Zezinho.

– A gente tava lá na frente, eu e o Zézinho, tomando um solzinho. Aí chegou bem devagarinho: "Rejane? Zézinho?" Ela falava com a gente no WhatsApp, veio pegar os ingressos e conhecer a rádio pessoalmente – menciona.

As diferentes histórias que passam pelo programa o tornam único. Um rapaz do bairro Itararé que mantém uma rádio imaginária de dentro de casa para a comunidade foi conhecer uma radio pela primeira vez recentemente e levou o calendário e o chaveirinho da rádio dele de presente

– Esse é o rádio. A intimidade com a audiência. Isso é o que o rádio tem de mais precioso – diz Rejane.

O programa também funciona como ponto de encontro. Não é raro dois convidados se cruzarem no corredor da rádio e saírem de lá com um projeto em comum. Uma diretora de documentário e um produtor cultural se conheceram assim, recentemente, e já articulam parceria entre pontos de cultura de Bagé e de Santa Maria.

– A gente faz pontes. Às vezes sem nem perceber – resume Rejane que conta com o apoio da jornalista Débora Dalla Pozza na produção e da acadêmica de jornalismo Rinália Figueiredo.

Fazendo Arte apresenta entrevistas, música e produção cultural local e nacional em transmissões ao vivo diárias.Foto: Rian Lacerda

Quem faz arte, faz bem

Perguntada sobre o que sente depois de trinta anos entrando ao vivo toda manhã, Rejane não hesita.

– Se tem uma coisa que eu sou é estimulada. Empolgada. Porque eu adoro procurar, divulgar… desde a pessoa que eu já conheço há anos até quem ninguém conhece ainda. Eu procuro sair do óbvio para tocar a parte emocional. O quê, como, quando e porquê a gente descobre rápido. Essa outra parte, a emoção, demora mais.

Sobre o futuro, ela é direta: pretende chegar à aposentadoria fazendo o que faz, e quando chegar a hora, deixar o espaço aberto.
– A UniFM é uma rádio-escola. A gente tem que dar espaço para a novidade, para os novos profissionais. Quem quiser continuar com o programa, será um prazer. Mas eu pretendo cumprir meu tempo fazendo o que amo.

Todo dia, Zezinho vai estar lá antes do microfone abrir, com o chimarrão pronto. E Rejane vai entrar ao vivo com a mesma empolgação de sempre. Trinta anos de programa, e a frase que virou carimbo ainda diz tudo: quem faz arte, faz bem.


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