Santa Maria registra aumento de crimes contra idosos e acende alerta para golpes na internet e violência familiar

Santa Maria registra aumento de crimes contra idosos e acende alerta para golpes na internet e violência familiar

Foto: Vincius Becker (Diário)

À medida que a população envelhece, cresce também um desafio que costuma permanecer entre as paredes de casa ou atrás das telas dos celulares: a violência contra a pessoa idosa. O tema ganha atenção durante o Junho Violeta, campanha internacional de conscientização criada pela Organização das Nações Unidas (ONU) e pela Rede Internacional de Prevenção à Violência contra a Pessoa Idosa (Inpea), que tem como marco principal o Dia Mundial de Conscientização da Violência contra a Pessoa Idosa, celebrado em 15 de junho.

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Em Santa Maria, os boletins de ocorrência da Delegacia de Proteção ao Idoso e Combate à Intolerância (Dpicoi) aumentaram progressivamente nos últimos cinco anos. Dados da delegacia mostram que foram registradas 2.034 ocorrências em 2022. O número passou para 2.088 em 2023, chegou a 2.287 em 2024 e alcançou 2.586 registros em 2025. Entre 2022 e 2025, o aumento foi de 27%. Somente até o dia 16 de junho deste ano, já foram contabilizadas 1.265 ocorrências.

A esse cenário se somam as ações mais recentes de fiscalização realizadas pela Dpicoi. Durante a Operação Virtude 2026, mobilização nacional de enfrentamento à violência contra a pessoa idosa realizada entre os dias 19 e 29 de junho, cerca de 70 denúncias foram averiguadas em Santa Maria, número que amplia o recorte de ocorrências relacionadas a esse tipo de crime no município.

Somente no Dia D da operação, em 23 de junho, equipes da Delegacia do Idoso, da Secretaria Municipal da Saúde e da Vigilância Sanitária fiscalizaram 27 denúncias em diferentes pontos da cidade. Entre os casos, uma clínica geriátrica passou a ser investigada por suspeita de maus-tratos contra um idoso. Também foram exigidas adequações de irregularidades identificadas no local.

Conforme a delegada Débora Dias, titular da Dpicoi, a violência contra idosos normalmente é praticada em um momento de vulnerabilidade da vítima e envolve desde golpes financeiros, em sua maioria aplicados por desconhecidos, até situações de violência psicológica e física, abandono e maus-tratos praticados por familiares.

A idade, por si só, não torna o idoso vulnerável, mas ele pode estar vulnerável por alguma doença, deficiência, entre outros fatores – afirma.


Estelionato virtual lidera os registros

Entre os crimes registrados pela delegacia, o estelionato é o mais frequente, principalmente no ambiente virtual, maior responsável pelo crescimento de ocorrências. Em 2025, foram contabilizadas 1.009 ocorrências desse tipo, o equivalente a 39% dos registros.

Segundo a delegada Débora, o avanço das fraudes eletrônicas começou a se intensificar durante a pandemia de Covid-19.

– As fraudes eletrônicas vêm crescendo dia a dia desde 2020. Os criminosos descobriram uma maneira de ganhar muito dinheiro com menos risco de serem presos ou descobertos – afirma.

Ela explica que uma das principais dificuldades para a investigação é que os responsáveis raramente estão na mesma cidade das vítimas.

– Na quase totalidade dos casos, os autores estão em outros Estados ou municípios. A Dpicoi já realizou operações policiais em diferentes regiões do país, com prisões em Estados como São Paulo, Santa Catarina, Minas Gerais e Ceará, além de cidades gaúchas como Passo Fundo e Caxias do Sul – diz.

O problema recorrente está ligado, muitas vezes, à pouca familiaridade dos idosos com ferramentas digitais.


Golpes mais comuns contra idosos

Entre as fraudes mais comuns estão o “golpe do falso parente pelo WhatsApp”, em que criminosos se passam por familiares para pedir transferências via Pix; o “golpe do falso advogado”, no qual utilizam informações de processos judiciais para exigir o pagamento de falsas taxas; e os falsos boletos bancários, enviados por e-mail ou aplicativos de mensagens com códigos de pagamento adulterados.

De acordo com a delegada, alguns golpistas se aproveitam da vulnerabilidade emocional das vítimas. É o caso do chamado “golpe do amor”, aplicado por meio de redes sociais ou aplicativos de relacionamento. O criminoso estabelece um vínculo afetivo com a vítima e, após conquistar a confiança, passa a pedir dinheiro.


"A mensagem era igual às conversas do meu filho"

A reportagem entrou em contato com um aposentado de 71 anos, morador de Santa Maria, que foi vítima do "golpe do falso parente pelo WhatsApp". Dias antes, o filho havia comentado que pretendia comprar um celular. Pouco tempo depois, ele recebeu uma mensagem de um número desconhecido, com a mesma foto de contato do filho. Na conversa, o criminoso dizia que seu aparelho havia quebrado e pedia uma transferência para concluir a compra de um novo telefone.

– A mensagem era igual às conversas do meu filho. Fui ao banco e fiz a transferência – relembra.

O aposentado conta que só percebeu que havia sido enganado quando voltou para casa e decidiu ligar para o filho.

– Me deu um “branco” e pensei: é golpe. Liguei para o meu filho e constatei a burrada que fiz – conta.

Além do prejuízo financeiro de quase R$ 2 mil, ele afirma que o maior impacto foi emocional.

– Além do emocional, que é o pior por se sentir enganado, tive um prejuízo de R$ 1.980 – relata.

Hoje, afirma que redobrou os cuidados e orienta outras pessoas idosas a desconfiar de contatos inesperados.

– Não atendam telefonemas estranhos. Não cliquem em ícones suspeitos. Certifiquem-se antes de tomar qualquer atitude – alerta


Como evitar cair em golpes

Na mesma linha do aposentado, a polícia recomenda alguns cuidados para reduzir o risco de cair em fraudes:

  • Não fornecer nem confirmar dados pessoais ou bancários por telefone;
  • Desconfiar de mensagens com tom de urgência ou de ofertas de produtos e serviços com preços muito abaixo do mercado;
  • Não realizar empréstimos ou contratos por telefone;
  • Não tirar selfies, atender videochamadas de desconhecidos, clicar em links ou copiar códigos enviados por terceiros;
  • Evitar manter dados pessoais públicos nas redes sociais.​

A Dpicoi também acompanha registros relacionados a empréstimos consignados e contratos financeiros firmados sem que a pessoa compreenda totalmente as condições contratadas.

Outras ocorrências comuns são de ameaça, lesão corporal, perseguição, injúria discriminatória e maus-tratos.


Violência dentro de casa é difícil de identificar

De acordo com a delegada Débora Dias, depois do estelionato, a violência intrafamiliar segue entre as situações mais recorrentes e atravessa diferentes tipos de crime. Em muitos casos, os próprios filhos, netos ou pessoas próximas são apontados como autores dessas violências, que podem se manifestar tanto em agressões físicas quanto psicológicas ou patrimoniais.

– Crimes como ameaça, violência psicológica, crimes contra a honra e apropriação indébita de bens de idosos têm como autores, na maioria das vezes, familiares ou pessoas próximas – diz.

Ela ainda explica que os casos mais difíceis de comprovar são justamente aqueles que acontecem dentro do ambiente familiar, especialmente quando não envolvem agressões físicas.

– Muitas vezes a própria vítima não admite ou nega a violência porque existe uma dependência emocional. É uma situação muito complexa de ser verificada e comprovada – afirma.

Entre os sinais que podem indicar maus-tratos estão falta de higiene, privação de alimentação e lesões físicas.


Como denunciar

Casos de violência contra pessoas idosas podem ser denunciados pelo Disque 100, pelo telefone 197 da Polícia Civil ou diretamente à Dpicoi pelo número (55) 3174-2259.

Em situações de golpes ou outros crimes, a orientação é registrar ocorrência o mais rápido possível na Dpicoi, no Centro Integrado de Operações de Segurança Pública (Ciosp), que funciona 24 horas, ou pela Delegacia Online.

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