Fotos: Vinicius Becker (Diário)
Canil do 2º BPChoque atua em diferentes ocorrências e atende 76 municípios da área de atuação do batalhão.
O trabalho policial em Santa Maria também tem faro apurado, disciplina e eficiência indiscutível. É na sede do 2º Batalhão de Polícia de Choque (2º BPChoque), na Rua Venâncio Aires, que atua o Canil Boina Preta, formado por cães da raça pastor-belga-malinois, reconhecidos pela resistência, energia e capacidade de aprendizado.
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Atualmente, o batalhão conta com nove cães em serviço, todos treinados para o chamado duplo emprego, com atuação na detecção de drogas e em ações de guarda e proteção. Os animais são distribuídos conforme a necessidade operacional e atuam sempre em conjunto com policiais militares condutores, também chamados de cinófilos, o que garante maior efetividade nas ocorrências.
Apoio estratégico nas operações

Os cães desempenham papel fundamental nas ações do 2º BPChoque, tanto em Santa Maria quanto em operações integradas em outras cidades. Eles são utilizados principalmente na busca e localização de entorpecentes, armas, munições e outros materiais ilícitos, inclusive em locais de difícil acesso, como compartimentos ocultos em veículos, edificações e áreas abertas.
Além disso, também atuam em patrulhamento, controle de distúrbios, intervenções em casas prisionais e operações de maior complexidade. Outro ponto de destaque é a presença em atividades comunitárias, como visitas a escolas, onde demonstram obediência e interagem com o público, especialmente crianças.
O comandante do Batalhão de Choque, tenente-coronel Robinson Marcos Garcia, destaca que a versatilidade dos cães é um diferencial do canil em relação a outras unidades.
- Um diferencial dos nossos cães no canil central é que, enquanto em Porto Alegre eles são fracionados por função, como guarda para intervenção em casas prisionais, os nossos fazem todas essas atividades. Eles atuam na guarda, na intimidação, no faro e também em apresentações em escolas. Temos muita demanda nas escolas, inclusive não conseguimos atender todas. As crianças adoram, brincam e tiram foto - diz.

Treinamento e rotina

Para atuar na corporação, os cães passam por um processo rigoroso de seleção, que leva em conta características como equilíbrio emocional, coragem, capacidade de concentração, obediência e forte instinto de trabalho. A estrutura física e a saúde também são fatores determinantes.
O treinamento é contínuo e envolve exercícios de obediência, socialização, faro e simulações de ocorrências reais. As atividades, muitas delas realizadas na sede do batalhão, incluem buscas em veículos, edificações e áreas abertas, além de preparação para situações de risco. Paralelamente, os policiais também passam por capacitações constantes para aperfeiçoar as técnicas de condução e emprego tático.

Resultados e demandas crescentes

O uso dos cães tem impacto direto nos resultados das operações. O faro apurado e o treinamento especializado permitem localizar materiais ilícitos com mais rapidez e precisão, além de contribuir para evitar reações e reduzir a resistência de suspeitos durante as abordagens. Nos últimos anos, segundo o comandante, o canil tem sido cada vez mais acionado por diferentes forças de segurança.
- Temos resultados muito significativos e uma demanda cada vez maior de acionamentos. Hoje, somos chamados rotineiramente para ocorrências do Primeiro Regimento, responsável pelo policiamento em Santa Maria, além de atendermos demandas da Polícia Civil, Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal e Polícia Penal. Também prestamos apoio frequente a outras unidades militares - conta o tenente-coronel.
Em 2025, as ações com apoio dos cães resultaram na apreensão de mais de 18 quilos de entorpecentes, 162 armas e grande quantidade de munições, além de mais de 200 operações integradas.
- Comandar uma unidade de polícia especializada e, nesse contexto, uma equipe que atua com cães policiais é motivo de orgulho e grande responsabilidade. Trata-se de um encargo que exige plena atenção e gestão para que os conjuntos possam manter e evoluir quanto a integração total entre policial e animal - diz o comandante.

Cães não são “viciados”: treinamento é baseado em associação

Uma das dúvidas mais comuns que surgem quando o trabalho do canil é apresentado ao público envolve a ideia de que os cães seriam “viciados” em drogas — algo que, na prática, não acontece. O soldado Godoy, um dos membros do Canil Boina Preta, explica que o treinamento é baseado na associação de odores, e não no contato com substâncias que causem dependência.
Segundo o policial militar, os animais são condicionados a identificar apenas a molécula do odor das substâncias, diferente daquela que provoca efeito em humanos. A detecção ocorre a partir de estímulos positivos, como brinquedos e recompensas, criando uma ligação entre o cheiro e a recompensa:
- O cão detecta apenas a molécula do odor, não tem relação com vício. Ele associa esse cheiro à recompensa, como a bolinha ou o brinquedo.
Para demonstrar esse processo, o canil conta com uma estrutura específica de treinamento, com diferentes metodologias e materiais. Entre eles, estão caixas e painéis de detecção, além de substâncias controladas utilizadas de forma protocolada, como maconha, cocaína, crack e MDMA (uma droga sintética). Também fazem parte dos exercícios materiais como munições e pólvora, ampliando as possibilidades de atuação dos cães.


Conheça o efetivo
Carlton

O 2º sargento Mateus Oliveira Izaguir, 38 anos, trabalha há cerca de dois anos e meio com o cão Carlton, que nasceu no próprio canil. Desde então, a dupla já participou de diversas operações, com apoio a diferentes forças de segurança. Entre as ocorrências, a primeira atuação do animal segue como a mais marcante, quando localizou um armamento em uma área de mata e contribuiu para uma prisão em flagrante. Ainda em fase de desenvolvimento, o policial destaca a evolução do parceiro ao longo das missões.
- Ele é um cão novo, ainda está em treinamento, conquistando experiência conforme vai participando das missões. Cada conquista dele é uma conquista nossa, e ficamos felizes por ver que ele está lutando para melhorar cada vez mais - diz o sargento.

Diesel

Com 14 anos de atuação no canil, a soldado Juliane Teixeira, 35 anos, está há cinco anos ao lado do cão Diesel, seu segundo parceiro na função. Diferente do primeiro, Diesel foi treinado para atuar na detecção, o que representou uma conquista pessoal para a policial. Além do faro, o animal também atua em guarda, proteção e apresentações. Equilibrado e versátil, ele participa de operações e ações integradas com facilidade, resultado de um processo de socialização bem conduzido. Uma das ocorrências mais lembradas foi quando localizou entorpecentes escondidos no assoalho de uma casa durante uma ação conjunta. Ao falar da parceria, ela se emociona:
- É uma satisfação pessoal trabalhar com ele. Eu costumo dizer que ele é o melhor de mim.

Garota

Há cinco anos no canil, o soldado Douglas Devicares Borin, 33 anos, atua com a cadela Garota há cerca de dois anos e meio. No dia a dia, a rotina inclui treinamentos constantes, com foco na precisão do trabalho em ocorrências reais. Para o policial, cada operação representa aprendizado e evolução para ambos. A relação próxima também se reflete na forma como ele enxerga a companheira.
- Eu considero a Garota como se fosse um membro da família. Costumamos dizer que é um filho que a gente tem. Ela é a minha canga - conta Borin.

Hiro

O soldado Clauberth Andre de Oliveira Jorge, 37 anos, trabalha com o cão Hiro há três anos e quatro meses, desde que o animal tinha apenas 4 meses de idade. Desde filhote, Hiro foi preparado para atuar tanto na detecção quanto em guarda e proteção. A dupla cresceu junta dentro do canil, compartilhando treinamentos e experiências operacionais. Para o policial, a relação vai além da função. Entre os momentos mais marcantes, destaca a primeira ocorrência em que Hiro conseguiu localizar material ilícito, resultado direto do trabalho desenvolvido nos treinamentos:
- Costumo dizer que ele é o meu parceiro de serviço. Ele não é o meu cachorro, ele é o meu companheiro. Nós trabalhamos juntos, conquistamos juntos, as conquistas dele são as minhas e vice-versa.

Jady

Já a soldado Francieli Mallmann Pozzobon, 35 anos, atua com a cadela Jady há cerca de três anos. Aos 8 anos de idade, Jady é uma das mais experientes do canil e se aproxima do período de aposentadoria. Nascida no próprio Canil Boina Preta, Jady se destaca pelo temperamento mais calmo, característica considerada incomum para a raça, mas que não compromete sua eficiência.
Em uma das ocorrências mais desafiadoras, em um terreno amplo e com vento, condições que dificultam o faro, a cadela insistiu na busca até localizar o material. Para a policial, a convivência diária torna o trabalho ainda mais especial.
- Ela é muito querida, muito amorosa, o que torna tudo mais prazeroso - afirma a PM.

Zuk

O soldado Athos Menezes, 38 anos, atua ao lado do cão Zuk, de 5 anos e meio, em atividades que envolvem principalmente a detecção de entorpecentes e outras substâncias ilícitas. Além das operações, o animal também participa de ações cívico-sociais, com presença em escolas e iniciativas de aproximação com a comunidade. No dia a dia, o policial destaca que o trabalho com o pastor-belga influencia diretamente até no estado emocional da equipe, tornando a rotina mais leve. Segundo ele, mesmo em dias mais difíceis, a interação com o animal ajuda a aliviar a carga do trabalho.
- Trabalhar com o cão muda o estado de espírito do policial, porque ele está sempre feliz e transforma tudo em algo motivador - revela o PM.
A rotina inclui treinamentos constantes, que, para o animal, não se diferenciam do trabalho. As atividades são sempre associadas a estímulos positivos, como brincadeiras e recompensas, o que mantém o alto nível de energia característico da raça e contribui para o desempenho nas missões.
