Foto: Arquivo Pessoal
A professora aposentada Maria de Jesus Souza Cardoso, a Maroca, faleceu nesta quarta-feira (10), aos 97 anos e deixa um legado construído ao longo de quase um século de vida. Ela tratava problemas causados por uma pneumonia. Natural de Formigueiro, educadora, mãe de nove filhos, avó, bisavó e leitora apaixonada do Diário de Santa Maria, Maroca é lembrada pela família como um exemplo de fé, resiliência e amor.
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Em agosto de 2025, Dona Maria recebeu uma homenagem do Grupo Diário em reconhecimento à relação de anos com o jornal. Na ocasião, contou que o impresso era seu "companheiro inseparável" e revelou que, durante uma internação hospitalar, fazia questão de receber diariamente os exemplares para manter a rotina de leitura.

– Todos os dias me avisavam: 'Dona Maria, o jornal está na portaria'. E pronto, era o meu companheiro. Tinha ocupação. Eu gosto – relatou na época.
A neta Allana Cardoso, 30 anos, lembra que a leitura era parte indispensável da rotina da avó.
– Ela acordava, tomava o chá, os remédios e lia o jornal. Quando o Diário passou a ser entregue no hospital, ela se sentiu realizada. O jornal era uma companhia para ela – recorda.
Professora dentro e fora da sala de aula
A história de Maroca com a educação começou em 1953. Antes mesmo de existir mimeógrafo nas escolas da região, ela dava aulas em casas e salões comunitários improvisados. Estudava para concursos à noite, muitas vezes à luz da lua ou de velas, depois de concluir as tarefas do dia. Ao longo da carreira, ajudou a formar gerações de estudantes, alguns dos quais seguiram o mesmo caminho do magistério. Mas seu papel de educadora ultrapassou os limites da sala de aula. A família conta que Dona Maroca era uma referência para todos que precisavam de acolhimento ou uma palavra de incentivo.
– Minha vó era o exemplo de força e resiliência. Sofreu muito ao longo da vida, perdeu três filhas e também o marido, mas nunca perdeu a fé. Sempre manteve a família reunida. Dizia que o amor se constrói e que a base de tudo é o respeito – afirma Allana.
A casa da professora era um ponto de encontro para filhos, netos, bisnetos, amigos e vizinhos. Quem chegava era recebido com café passado na hora, geleias, doces e a certeza de que não sairia de mãos vazias. Apaixonada pela chácara, gostava de falar sobre os pássaros, as árvores e a tranquilidade do interior. Mesmo nos últimos anos, quando os passos ficaram mais lentos, mantinha o desejo de participar da vida da família e ajudar no que estivesse ao seu alcance.

O legado de quem viveu sem deixar de amar
A força de sua trajetória inspirou até uma canção escrita por um sobrinho. Em um dos trechos, ele descreve Dona Maria como uma mulher que "já conheceu despedidas que a vida não explicou, mas não deixou que a dor mudasse aquilo que é amor". Em outro momento, resume aquilo que a família considera o maior ensinamento deixado por ela: "viver tudo que for possível sem nunca deixar de amar". Internada por 25 dias para tratar uma pneumonia, Maroca permaneceu lúcida até os últimos momentos. Segundo a família, continuava conversando sobre os mais variados assuntos, acompanhando a rotina dos filhos, netos e bisnetos e fazendo planos para o futuro.
– Ela estava consciente e lutou o máximo que pôde. A mente seguia maravilhosa. Recebeu inúmeras visitas no hospital. Os guardas estavam doidos com a gente. Mesmo cansada, queria saber de todo mundo e ainda tinha esperança de melhorar – conta a neta.
Ao longo dos anos, Maroca também participou ativamente da comunidade. Atuou por 12 anos na Legião de Maria, integrou a pastoral do idoso, cultivou amizades e acompanhou as transformações de Santa Maria, cidade que adotou como lar. Gostava de conversar, de ouvir histórias e de reunir pessoas.
Para a família, o principal legado deixado por ela não está apenas nos 97 anos de vida, mas na forma como viveu cada um deles: acolhendo e mantendo todos unidos. Mais do que uma professora, Dona Maria foi um porto seguro para diferentes gerações. E, até os últimos dias, manteve duas características que marcaram sua trajetória: a esperança diante das dificuldades e o amor pelo seu inseparável "jornalzinho", companheiro de tantas manhãs e de tantos capítulos de sua história.