Tecnologia

Por mais mulheres na tecnologia


Um dos assuntos culturais mais comentados nos últimos dias foi o lançamento do filme Mulher-Maravilha, que recebeu avaliações muito positivas do público e da crítica especializada. Além da ótima avaliação, outro ponto que chamou a atenção no filme foi o fato de ter sido protagonizado por uma mulher, quebrando o clichê dos filmes de super-heróis com personagens homens que vencem o mal supremo e salvam o mundo.

Em tempos de busca pela igualdade de gênero a partir do empoderamento feminino, este tipo de iniciativa se torna extremamente importante, principalmente para meninas e mulheres jovens, pois é uma forma de criar referências inspiradoras que, até então, eram restritas aos jovens do sexo masculino. Um filme de uma super-heroína pode parecer banal, mas é uma forma interessante de dizer às meninas do mundo inteiro que, se elas quiserem, também podem ser fortes e destemidas, combater o mal e salvar o mundo. É uma maneira de dizer que elas podem sonhar em ser o que quiserem, sem se restringirem aos limites impostos pela nossa cultura moralista.

Não é só nas histórias de super-heróis que a moralidade retrógrada impõe barreiras simbólicas ao público feminino. Há ainda muitos territórios a serem explorados e conquistados pelas mulheres. Um destes territórios é o da tecnologia digital. Já é trivial o rótulo do jovem programador nerd (ou geek), homem, branco e de classe média ou alta. Está mais do que na hora de se quebrar de vez este estereótipo, não só porque ele prejudica o desenvolvimento das mulheres, mas também porque ele prejudica o crescimento da própria tecnologia, já que evita a entrada de milhões de cientistas competentes nesta área do conhecimento.

Mulheres fazem parte da história da tecnologia

A tarefa de envolver as mulheres no campo da tecnologia seria muito mais fácil se tivéssemos referências inspiradoras nesta área, certo? Pois saibam que na história da computação, as mulheres estão muito bem representadas. Uma destas "super-heroínas da tecnologia" é nada menos do que a primeira pessoa a escrever um código de computador na história da humanidade, antes mesmo de existirem os próprios computadores.

Na primeira metade do século 19, a matemática e escritora inglesa Ada Lovelace, filha do famoso poeta Lord Byron, foi a primeira a prever que, no futuro, as máquinas poderiam computar não apenas números matemáticos, mas também outros sistemas simbólicos, como textos e imagens. Na época, Ada Lovelace constituiu uma grande amizade com o cientista Charles Babbage, famoso matemático que criou o conceito de um computador programável. Para que o hardware programável se tornasse útil, seria necessário desenvolver a outra parte do sistema, ou seja, o software. Foi aí que a genialidade de Ada Lovelace entrou em cena: além de ter sido a primeira pessoa a perceber a importância fundamental da programação, também foi a primeira pessoa a esboçar e escrever a primeira proposta de um programa de computador.

Infelizmente, devido às limitações técnicas da época, Babbage não conseguiu finalizar o seu complexo computador, conhecido como "máquina analítica". Sem um computador funcional, não foi possível concretizar a proposta de software de Ada Lovelace. Os computadores programáveis só viriam a ser construídos cem anos mais tarde, no período da 2ª Guerra Mundial. E é aí que entra nossa segunda heroína: a cientista da computação norte-americana Grace Hopper, considerada uma das primeiras programadoras da história. Em 1944, Hopper fez parte do trio de programadores do Harvard Mark I, considerado por muitos o primeiro computador programável do mundo. Uma década mais tarde, Hopper também inventou um recurso que, até hoje, é essencial para o desenvolvimento de software: o compilador, que é um tipo de programa que faz a intermediação de códigos entre máquinas e os humanos.

Dois anos após o Mark I, o exército dos EUA construiu o que viria a ser o primeiro computador programável e eletrônico do mundo, o ENIAC. Mais uma vez, as mulheres foram determinantes: o ENIAC só passou a ser realmente útil a partir do trabalho de seis mulheres programadoras, que na época eram chamadas de "computadores", antes mesmo deste termo virar o nome do equipamento em si.

Nos trinta anos subsequentes, entre as décadas de 1950 e 1980, as mulheres continuaram sendo fundamentais no desenvolvimento da tecnologia digital. Era muito comum existirem departamentos de cálculos computacionais cheios de mulheres "computadores", entre matemáticas, engenheiras e cientistas da computação. O recente filme "Estrelas além do tempo" retrata bem este momento, ao contar a história de três cientistas mulheres que trabalhavam na NASA na década de 1960 e que foram fundamentais para a entrada dos norte-americanos na corrida espacial da Guerra Fria. O caso delas foi ainda mais dramático, porque além de sofrerem preconceito por serem mulheres, elas também eram negras, em um período de grande segregação racial nos EUA.

O declínio da participação feminina na indústria da tecnologia

Alguns autores notaram que a partir da metade da década de 1980, a participação das mulheres na indústria da tecnologia começou a decair drasticamente. O que teria acontecido? Há várias hipóteses para o fato. Uma das explicações mais prováveis é que no período de popularização dos computadores pessoais, no início da década de 1980, as famílias passaram a direcionar este novo e fantástico equipamento para os seus filhos brincarem, enquanto que as filhas gastavam suas horas com suas bonecas, casinhas e miniaturas de eletrodomésticos. O resultado não poderia ser diferente: no final da década, os jovens rapazes, já acostumados a conviver com a nova tecnologia digital, direcionavam seus estudos e carreiras para esta promissora área, enquanto que as jovens mulheres internalizavam a ideia de que computação era coisa para homem.

Para piorar a situação, as empresas de tecnologia ainda reforçavam este conceito machista do computador (e do videogame) como algo masculino. A Apple, por exemplo, lançou em 1985 um anúncio de seu computador pessoal focando exclusivamente em um menino chamado Brian Scott. No vídeo, o narrador começa dizendo: "Nesta manhã, Brian Scott fez uma decisão sobre sua carreira: ele decidiu ser um astronauta. Seu primeiro grande passo? Aprender a usar um Apple". No fim do vídeo, sentencia: "Então, qualquer coisa que Brian quiser ser, um computador pessoal Apple II pode ajudá-lo a sê-lo. Como nesta tarde, em que ele é um biólogo marinho".

Para a Apple, os meninos norte-americanos poderiam ser o que bem sonhassem, pois seus computadores estariam lá para auxiliá-los nesta tarefa. E as meninas norte-americanas, o que poderiam ser? Em quem elas se inspirariam para decidirem sobre suas carreiras? Nas suas bonecas Barbies? E se ousassem sonhar em ser astronautas ou engenheiras, qual computador as ajudaria?

Então, fica aqui o apelo aos pais e às mães de meninas e moças: já pensaram na possibilidade de presentear suas filhas com brinquedos mais inspiradores, como miniaturas da astronautas e super-heroínas? Ou então brinquedos mais criativos, como carrinhos de controle remoto ou kits com peças de encaixar e construir? Ou ainda, quem sabe, substituírem a boneca por um videogame no Natal deste ano? Para darem esse passo à frente, a primeira etapa que os pais precisam completar é admitir que brinquedos inspiradores e criativos não são coisa de menino. Só assim, quem sabe, teremos mulheres no futuro que saibam que computador não é coisa de homem, que tecnologia pode ser manuseada e até inventada por ambos os sexos e que a mulher tem total capacidade de ser o que bem entender.


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