Foto: Charles Guerra (Arquivo/Diário)
Daniela Noal Beckmann, 49 anos, é bancária. Mas, de dois em dois anos desde 2022, ela troca o ambiente bancário por uma sala de aula que conhece bem, embora o papel, agora, seja outro. Na Escola Estadual de Educação Básica Professora Margarida Lopes, no Bairro Camobi, onde um dia foi estudante, Daniela é quem abre as portas para o exercício da cidadania.
A decisão de ser mesária surgiu de um estalo em frente à TV. Daniela assistia à programação quando passou uma propaganda da Justiça Eleitoral convidando as pessoas a trabalharem nas eleições. O anúncio falava sobre o papel de cada um como cidadão e essa mensagem despertou nela a vontade de se voluntariar.
+ Receba as principais notícias de Santa Maria e região no seu WhatsApp
Na mesma hora, ela decidiu que, daquela vez, não queria apenas entregar o título e votar; queria estar do outro lado da mesa.
– Minha mãe até brincou: “Tu vai lá ficar o dia inteiro?”. E eu disse: “Eu nunca fui, eu quero ser”. Me inscrevi no site e achei que nem iam me chamar. Duas semanas antes da eleição, veio a mensagem. Eu estava convocada – recorda Daniela.
A campanha responsável por transformar Daniela em mesária está novamente no ar em rede de TV e rádio em busca de voluntários para o pleito de 2026.
Ser mesária, para Daniela, virou uma “viagem no tempo”. Ao assumir a presidência de mesa na Escola Margarida Lopes, além de lidar com títulos de eleitor e biometria, a mesária atende eleitores que contam sua própria história.
– É um reviver. Como é a seção onde estudei, eu revejo pessoas antigas, professores, gente do meu convívio da época. Levei para esse lado do reencontro – conta Daniela.
Mas a função exige rigor. O dia começa cedo, por volta das 7h, com o ritual de abrir a urna e garantir que a “zerésima”– o relatório que prova que não há votos na máquina –esteja impressa. Como presidente de mesa, a responsabilidade é de Daniela. É ela quem resolve impasses e garante que o sigilo do voto seja respeitado.

Uma rede de voluntários
O caso de Daniela não é isolado. Em Santa Maria, o espírito comunitário dita o ritmo do processo eleitoral. Segundo o chefe do cartório da 135ª Zona Eleitoral, Vinicius Teixeira, a cidade conta com 1.212 mesários, dos quais 1.035 são voluntários – cerca de 85,4% do total. O perfil predominante segue o exemplo de Daniela: mais de 80% dos voluntários são mulheres.
O voluntariado também se repete na região. Na 41ª ZE, o município de São Martinho da Serra conta com 52 mesários (65,38% voluntários) e Silveira Martins tem 36 (80,56% voluntários). Já em Itaara, da 135ª ZE, dos 58 que atuam nas eleições, 45 são voluntários (77,58%).
O cartório oferece treinamentos presenciais com simulações na urna eletrônica, onde são apresentados os cenários possíveis e as soluções para eventuais problemas. Se no dia alguém faltar, o protocolo é direto: a mesa receptora está apta a resolver e, se necessário, um eleitor da própria seção pode ser convocado na hora para assumir o posto. Negar o serviço sem justificativa legal pode resultar em processo e multa.
– A gente reclama demais, olha muito para o próprio umbigo. Mas o que eu estou fazendo para mudar? É uma atitude pequena, mas é a minha parte pelo país – afirma Daniela.
Campanha Nacional
Lançada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), campanha nacional de convocação de mesários voluntários para as eleições 2026 aposta na emoção ao promover um encontro de gerações: de um lado, o mesário veterano, símbolo de confiança no sistema; do outro, a jovem que estreia na função, representando a renovação.
O conteúdo será veiculado até 20 de maio no rádio e na TV, além de adaptações para TikTok e Instagram, focando no público jovem. Nas escolas e faculdades, o foco será o incentivo às horas complementares.
Além do dever, o direito
Embora o motor seja o civismo, o serviço traz contrapartidas garantidas por lei. Para cada dia à disposição da Justiça Eleitoral (incluindo o treinamento), o mesário tem direito a dois dias de folga no emprego. O benefício é inegociável: o empregador que se recusar a conceder a folga incorre em crime eleitoral. Para estudantes da UFSM, há um convênio que transforma o trabalho em horas complementares.
Daniela, por sua vez, já usou seus dias de descanso para viabilizar uma viagem. Para ela, o maior benefício é o sentimento de pertencimento.
–É fácil reclamar que está tudo bagunçado, mas doar o teu dia é uma forma real de tentar mudar as coisas – resume.AIBA COMO PARTICIPAR
- Como se voluntariar – As inscrições podem ser feitas de forma permanente, mas a recomendação é se cadastrar durante o período da campanha. O cadastro é feito preferencialmente pelo aplicativo e-Título ou nos sites dos TREs. Em Santa Maria, o contato presencial no Cartório Eleitoral é apontado como o canal mais rápido.
- Quem pode participar – Qualquer eleitor maior de 18 anos em situação regular. Não podem: candidatos e parentes até 2º grau, membros de diretórios de partidos com função executiva e autoridades policiais.
Confira os benefícios:
- Folgas – dois dias de folga para cada dia trabalhado e para cada dia de treinamento.
- Auxílio-alimentação – R$ 65 por turno de trabalho (Portaria TSE nº 86/2025).
- Concursos públicos – critério de desempate, caso previsto no edital.
- Horas acadêmicas – validação como atividade extracurricular em universidades conveniadas (em Santa Maria, a UFSM possui o convênio).
- Dispensa – o convocado tem até 5 dias após a convocação para pedir dispensa ao magistrado por motivo legal.