Foto: Acervo DAG (UFSM/Divulgação)
Com licença! A regra jornalística que preconiza que textos na imprensa venham calibrados pela terceira pessoa ficará de lado neste. Como jornalista, deveria empregar a impessoalidade na escrita. No entanto, tomarei emprestada a liberdade literária da minha pós-graduação e vou por outro caminho. Não fazia muito que eu tinha retornado para Santa Maria, já com a ideia de voltar às salas da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Trouxe junto a decisão de que meu mestrado seria nas Letras, área de afinidade e admiração desde a infância. Alguém sugeriu que eu conversasse com o Pedro Brum Santos.
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Dia e horário agendados, conheci o professor que acolheu minha intenção, mesmo que eu estivesse desprovida de credenciais teóricas imprescindíveis aos Estudos Literários (eu não tinha essa clareza, e ele gentilmente a omitiu). Diante do descrédito de quem desdenhava do parco conhecimento dos cânones (conjunto de referências fundamentais), dava aporte. Com paciência e sempre que buscasse socorro, ele me indicava a sequência de degraus (dos autores mais elementares aos essenciais) que me cabiam percorrer.
Quando me aceitou como orientanda, mesmo que escudada por um pré-projeto avesso à linha de pesquisa a qual se dedicava, não anunciou a incongruência. Acreditou no óbvio. O redirecionamento para história e identidade sul-riograndense foi questão de tempo, tão logo me engajava nos projetos que liderava.
A informação da morte do prof. Pedro impactou o sábado passado. Quase que simultaneamente, várias postagens nas redes demonstravam o quanto era admirado, respeitado, estimado. A factualidade, publicada pelo Diário ainda no fim de semana e na segunda, deu conta do capítulo de encerramento. Mas o enredo é bem mais amplo. Abaixo, outros olhares trazem vivências e memórias, convergindo para que se perceba a dimensão do protagonista.
Pedro Brum Santos, professor
Por: Lucas Zambelan, professor da UFSM

O nome de Pedro Brum Santos pertence à linhagem de educadores cuja trajetória ultrapassa a esfera institucional e se inscreve, de maneira duradoura, na memória afetiva daqueles que com ele conviveram. Professor do Departamento de Letras Vernáculas e do Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal de Santa Maria, sua trajetória se confunde com a formação de gerações de estudantes, pesquisadores e colegas que encontraram nele um docente de excepcional competência, cuja influência soube aliar a densidade do pensamento crítico a uma notável vocação para formar com inteligência e humanidade.
Luís Augusto Fischer acredita que a docência, em certa medida, ainda seja uma profissão associada ao artesanato. Assim, atuar como professor é se entregar a um ofício constituído de forma singular, atravessado pela experiência, pelas leituras, pela memória intelectual, pela sensibilidade e pela forma particular como cada um organiza sua relação com o conhecimento e com o mundo. Em Pedro, essa dimensão artesanal se revelava de maneira cristalina: havia, em sua prática, uma atenção rigorosa à palavra e um compromisso profundo com as diferentes formas do saber. Sua sala de aula, da qual tive a alegria de participar em diferentes etapas de minha formação, da graduação ao doutorado, era um espaço de interlocução genuína, em que a leitura atenta, a precisão analítica e a escuta encontravam uma forma muito especial de equilíbrio. Não havia maneira de não sair transformado a cada encontro.
Essa amplitude acadêmica encontrou expressão particularmente fecunda em sua atuação à frente do grupo Literatura e História (www.literaturaehistoria.com.br), financiado pelo CNPq, CAPES e FAPERGS. Nesse espaço, Pedro ajudou a consolidar um núcleo relevante de reflexão e pesquisa. Nele, Pedro reunia duas vocações complementares: em uma mão, o amor à literatura; na outra, uma visão extensa (ele gostava do termo dilatada) sobre o mundo, sobre os processos históricos e transformações da cultura. Essa capacidade de conjugar atenção cuidadosa ao texto literário e compreensão abrangente da experiência humana fazia dele um pesquisador completo.
Sua contribuição à Universidade Federal de Santa Maria foi igualmente marcante. Como diretor do Centro de Artes e Letras em duas gestões (2010 a 2018), exerceu a administração universitária com discernimento e profundo senso público. Ainda na década de 1990, ele começou também a projetar sua atuação para o cenário acadêmico nacional, participando de comissões da CAPES, presidindo a ABRAPLIP (2000 a 2001) e atuando como secretário executivo da ANPOLL (1999 a 2001), funções que atestam o reconhecimento de sua autoridade e capacidade de liderança.
Muito apegado às coisas da região, Pedro se dedicou profundamente à preservação da memória literária e cultural de Santa Maria e esse fato constitui outro traço essencial de seu legado. A organização das memórias de João Daudt Filho e a iniciativa de compor a edição da obra completa de Felippe D’Oliveira, ao lado de Ligia Militz da Costa e Maria Eunice Moreira, ainda em 1990, revelam uma compreensão profunda de que inscrever, no presente, o nosso patrimônio é também um gesto de responsabilidade cultural e um compromisso com a permanência daquilo que o tempo poderia dispersar.
No plano pessoal, registro minha profunda gratidão pela generosidade com que me acolheu em suas pesquisas e projetos. Pedro possuía uma grandeza silenciosa, solene, e comemorava cada conquista dos que o cercavam. Fizemos grandes progressos ao atualizar a herança literária e biográfica de Felippe em edições lindíssimas do selo Patrimônio e Memória da Editora da UFSM. À época, percebia-se que o gesto ficaria para a história, mas não esperava que isso acontecesse tão cedo. Sua ausência produz – e produzirá durante muito tempo – a tristeza inevitável das perdas irreparáveis, mas seu legado ainda reverbera potente nas obras que deixou, nas instituições que ajudou a fortalecer e, sobretudo, nas pessoas que formou.
De Pedro, seguramente, conservam-se a lembrança de sua inteligência serena, de sua benevolência silenciosa, de sua voz de Poseidon e da maneira profundamente ética com que compreendia a vida intelectual. Nesse final, não me ocorre nada além de uma velha canção, gasta pelo tempo e incerta como um manuscrito rasurado: “Qualquer dia, amigo, eu volto a te encontrar. Qualquer dia, amigo, a gente vai se encontrar.” Professor Pedro Brum Santos: presente.
Pedro e a Turma do Café
Por: Antônio Cândido Ribeiro, advogado e escritor
Pedro, pelo porte elegante, pelo sorriso exato (sem demasias, sem faltas e sem excessos), pela erudição sem afetação, pela voz dotada de encantadora sonoridade e pelo discurso sensato e equilibrado se ajustaria perfeitamente à idealizada figura de um lorde inglês. No entanto, Pedro, um homem ajustado à nossa realidade, era nosso, de corpo e alma, Pedro um brasileiro. Pedro professor, Pedro ensaísta, Pedro contista, Pedro cronista, Pedro radialista, Pedro editor, Pedro que, pelo seu talento multifacetado, sendo uno, era muitos. Ou era apenas Pedro, nosso amigo e nosso parceiro em várias empreitadas literárias.
E se Pedro não era parceiro regular dos nossos encontros às quartas-feiras na Lurdinha, no Bar da Casa, era parceiro dos nossos encontros quando, eventualmente, nos reuníamos em minha casa, por exemplo, para uma prosa regada por um chope tirado no capricho ou por um bom vinho, com carne picada na tábua, nos encontros que dizemos serem “lítero-etílico-gastronômicos” (acho que a expressão foi originalmente usada por Orlando Fonseca, querido parceiro de quase quatro décadas de variadas aventuras literárias), nos quais, quase sempre, rola uma cantoria. No último encontro, com tais características, que fizemos, Pedro, em tratamento médico, não pôde ir.
O que importa é que, mesmo sem nunca ter integrado, como participante ativo, “de carteirinha”, a Turma do Café, Pedro sempre foi uma espécie de membro honorário do grupo e, a ele agregado, sempre nos ajudou com seu talento e sua visão crítica nas produções literárias coletivas que temos empreendido, em nossa cidade, há algumas décadas.
É, amigos, nesta dimensão plena de palpabilidade, na qual nos encontramos, quase sempre, a vida tende a se encurtar muito mais do que gostaríamos. E este encurtamento, quando se dá com nossos afetos, afastando-os de nós, suprime a possibilidade de os nossos olhares se encontrarem, de nossos sorrisos se fazerem recíprocos, leves e desanuviados, pois ele cria distâncias intransponíveis para nossos pés e nossas mãos.
Menos mal que nossos corações não respeitam distâncias e desconhecem as eventuais intransponibilidades das dimensões que se interconectam no tempo e no espaço. Eles podem tudo, inclusive parar o tempo para um gesto de despedida, para uma palavra de consolo ou para sentir a vibração do amor nas pregas interdimensionais que unem o ontem e o amanhã.
É, Pedrão, isso é apenas uma pausa para recomposição das energias que todos precisamos para ir adiante. Dia desses, nos reencontraremos em alguma rádio do espaço, em algum jornal com notícias do que fomos, em algum livro com tua assinatura que, traga lições sobre amor, decência e fraternidade. Beijo, meu amigo.
Pedro, o grande
Por: Orlando Fonseca, professor e escritor
É muito provável que, para todas as pessoas com quem o Pedro conviveu, ele é o exemplo definidor do substantivo “gentil-homem”. Um gentleman, sereno e altivo, no trato com alunos, colegas, tanto no ambiente acadêmico, como entre profissionais do rádio, um genuíno cavalheiro o professor Pedro Brum Santos. Restará a saudade deste meu amigo que nos deixou tão cedo órfãos de sua generosidade.
Tive a oportunidade de compartilhar com ele vários projetos na Universidade e na vida literária santa-mariense, desde meados da década de 1980. Fomos colegas de Mestrado na UFSM, (depois ele concluiu a pós-graduação na PUC-RS), e partilhamos o magistério superior no Departamento de Letras Vernáculas. Dividimos lideranças nas coordenações e chefias, e trabalhamos em projetos de pesquisa.
Sob a liderança do professor Pedro (pesquisador do CNPQ), nos reunimos no Grupo de Estudos de Literatura e História, no qual resgatamos obras de autores locais, como a do primeiro escritor santa-mariense, João Cezimbra Jacques, autor de um conto que deu origem à narrativa de Imembuy; além do livro de memórias de João Daudt Filho e publicações do poeta Felipe D’Oliveira. Obras que nosso grupo preparou para publicações pela Editora da UFSM.
Junto ao coletivo de autores Turma do Café, também fizemos parcerias na publicação de livros de crônicas, contos e dois romances. Estão neste conjunto Tudo a Haver (crônicas), Dez Mandamentos e Arquimedes (romance), Nona assassina (contos), todas em uma experiência de produção coletiva dos textos. Por muitos anos, dividimos a sala dos professores, na qual, entre o trabalho de orientação, avaliação em diversas bancas de mestrado e doutorado, também pudemos fazer crescer nossa fraternidade, em muitos bate-papos informais.
Pedro Brum Santos deixa sua marca de humanismo em muita gente de nossa cidade e, certamente, remanesce um legado muito importante na formação de docentes e pesquisadores na área de Letras em nossa UFSM.
Rádio e futebol
Por: Gilson Piber, jornalista da Rádio UniFM

Pedro Brum Santos marcou época, também, como comunicador e narrador de futebol no rádio santa-mariense. Ouso dizer que a atividade radiofônica ajudou a moldar o homem das Letras, o leitor, o docente e o escritor. Pedro era observador nato e fazia descrições perfeitas dos lances nas partidas em que transmitia.
Entre vários jogos narrados, destaco um em especial: a vitória do Inter-SM sobre o Vasco da Gama (RJ), por 3 a 0, pela Taça de Ouro, no dia 25 de março de 1982, no Estádio Presidente Vargas. Pela Rádio Guarathan, Cláudio Zappe narrou o primeiro tempo do jogo e o gol de Robson. Coube a Pedro narrar a etapa final e os outros dois gols do Alvirrubro, feitos por Toninho e Valdo. “Estão redimidos os 7 a 0 no Rio de Janeiro, está redimida a goleada de São Januário, o Inter bate o Vasco, deixa a Copa de Ouro de cabeça erguida”, afirmou Pedro na transmissão.
Pelo rádio, ele informou, entreteve e formou a opinião de várias gerações. Em emissoras de Tupanciretã, Santo Ângelo, Faxinal do Soturno, Cachoeira do Sul, Osório e Restinga Sêca. Em Santa Maria, além da Guarathan, trabalhou na Imembuí. Na Pioneira, fazia comentários no programa Tá Na Hora, às quintas-feiras. Na Universidade 800 AM e, depois, na Rádio UniFM 107.9, Pedro era nosso colaborador, às terças-feiras, no programa Editoria 107.9. Com pleno conhecimento e a precisão da fala radiofônica, abordava os mais variados assuntos com uma naturalidade incrível. Sempre foi um defensor da educação pública e da democracia. Eis o seu legado, além do rádio, das escritas e das Letras. Descanse em paz, caro Pedro Brum Santos.
Narrativas
Por: Vitor Biasoli, professor e escritor
No dia em que o Pedro faleceu, lembrei dele durante o café da manhã e falei para a minha companheira a respeito do amigo culto e gentil, cuidadoso com as palavras e com o modo de conduzir a vida.
Recordei uma manhã dos anos 90 em que saímos do campus da UFSM, ele no volante, o Orlando Fonseca e eu de carona, e fomos na direção da cidade para algum evento cultural. No caminho, falamos assuntos de professores, como a situação da Universidade e a eleição para reitor que se avizinhava, e depois pulamos para os amores, como eles se atam e desatam, como mantemos a chama acesa, como alimentamos o interesse do outro e o nosso na relação. Cada um contou algum caso vivido e, de repente, o Pedro arrematou com sua voz pausada e envolvente:
– Mas há químicas que não conseguimos compreender. Elas acontecem e pronto.
Químicas que instalam a loucura do amor e não convém mexer, muito menos indagar, destrinchar, analisar. Apenas viver. Não lembro o restante da conversa, mas sei que ela foi retomada outras vezes. Foi isso que fiquei recordando durante o café e ao longo desse último dia 23 de maio. Quando soube do seu falecimento, à noite, me surpreendi com a súbita irrupção da lembrança das nossas conversas... Creio que o Pedro e eu ainda tínhamos muito o que falar...
Ele foi um leitor sofisticado, crítico literário perspicaz, pesquisador meticuloso e muito aprendi com ele. Era um professor cuidadoso com as palavras, gentil e generoso no trato, e assim na vida em geral. Sempre respeitou as normas da linguagem, dos gêneros discursivos e parecia me recomendar o mesmo. “Não te mete a reinventar a roda, Vitor”, parecia me dizer, quanto falávamos de nossas pretensões em fazer literatura de ficção.
Quanto à narrativa dos amores, que eu aceitasse as minhas limitações. Há químicas que não deciframos, nossa linguagem não tem essa força, mas nem por isso vamos deixar de falar e escrever a respeito. “É a nossa sina, não dá pra fugir”, ele parecia me dizer. Deve ter dito. E rido da nossa ousadia (um riso irônico que ele também sabia ter) de avançar por um território – o da compreensão das coisas do amor – que talvez não seja adequado indagar, destrinchar, analisar, como fazem “esses críticos literários que andam por aí”.