Foto: Vinicius Becker (Diário)
Segundo meteorologistas, diferentes dinâmicas atenuaram previsões de condições mais severas
Alertas não faltaram. Desde o começo da última semana, meteorologistas e órgãos oficiais apontavam risco elevado de temporais em diversas regiões do Rio Grande do Sul. Chuva intensa, rajadas de vento de até 100 km/h, granizo e até mesmo a possibilidade de tornados estiveram entre os fenômenos previstos nos dias que antecederam a chegada da frente fria ao Estado.
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Apesar dos estragos provocados pelo vento e pelos altos volumes de chuva, a percepção de parte da população, e confirmado pelas próprias autoridades e especialistas, é de que o cenário mais severo não se confirmou.
Depois das enchentes históricas de 2024, a Defesa Civil e instituições meteorológicas passaram a ampliar a divulgação de alertas preventivos, o que também reacendeu um debate: afinal, a previsão do tempo errou? O excesso de alertas pode causar ansiedade e gerar desconfiança quando os fenômenos extremos não ocorrem da forma prevista? E por que é tão difícil prever fenômenos meteorológicos?
Para entender os desafios da previsão do tempo, o Diário ouviu os meteorologistas da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) Murilo Lopes e Vagner Anabor. Eles explicaram como funcionam os modelos meteorológicos, quais são os limites da ciência e por que a geografia também pode dificultar as previsões.
O que aconteceu dessa vez?

Segundo Murilo Lopes, a previsão do tempo atual depende de modelos matemáticos abastecidos por informações coletadas em satélites, balões meteorológicos, estações de superfície e equipamentos instalados em oceanos.
— Esses modelos conseguem, matematicamente, reunir um conjunto de observações do tempo presente. Esses dados são inseridos nesses modelos matemáticos e, então, nós conseguimos, através da evolução temporal dessas equações no tempo, ter valores de precipitação, temperatura e vento para diferentes localidades — explica.
O meteorologista destaca que os sistemas utilizados pelos principais centros meteorológicos processam bilhões de cálculos por segundo para tentar reproduzir o comportamento da atmosfera em escala global.
Mesmo assim, divergências entre os modelos são comuns. No episódio da última semana, segundo Lopes, uma combinação de fatores acabou alterando a intensidade inicialmente prevista para os temporais.
— A grande questão é que os modelos aceleravam, de certa forma, o avanço dessa frente fria. Inicialmente, nós tínhamos essa previsão de que esse sistema chegasse ao longo do sábado, especialmente aqui na região central do Estado. Mas aquele ar bastante quente que tinha aqui em Santa Maria e também no Rio Grande do Sul como um todo, com aquele vento norte de forte intensidade, serviu como uma espécie de barreira para aquele sistema que estava avançando pelo sul — pontua Lopes.
Outro fator apontado pelo meteorologista foi a presença de uma camada de inversão térmica, que dificultou a formação das tempestades mais intensas.
— Nós tínhamos uma camada de ar mais aquecido sobre um ar um pouco mais frio. Isso é uma camada de ar bastante estável, que inibe a formação de tempestades. Além disso, a frente teve dificuldade de avançar e qualquer tempestade que podia se formar aqui no centro do Rio Grande do Sul encontrava essa barreira.
Geografia pode dificultar a previsão

Professor e pesquisador da UFSM, Vagner Anabor afirma que a própria geografia da América do Sul influencia diretamente o comportamento do clima no Rio Grande do Sul.
Segundo ele, um bloqueio atmosférico sobre o Oceano Pacífico alterou a circulação normal dos sistemas meteorológicos.
— A existência da Cordilheira dos Andes provoca ondas atmosféricas. Essas ondas vão intercalando aqui no Rio Grande do Sul com condições de tempo bom, tempo ruim, chuva, tempestade, mais frio e mais calor. Mas o que acontece quando a gente tem um bloqueio lá no Pacífico? Essas ondas acabam desviadas mais para o sul, mais para a região da Patagônia. E aí não passam na nossa região e a condição de tempo que a gente tem aqui acaba ficando mais duradoura — explica.
Para o pesquisador, esse tipo de configuração ajuda a explicar por que eventos previstos com antecedência podem sofrer alterações ao longo dos dias.
A previsão perde precisão conforme o tempo passa
Anabor ressalta que a previsão do tempo possui elevado grau de confiabilidade, especialmente nos dias mais próximos. Segundo ele, a precisão diminui gradualmente conforme o horizonte temporal aumenta.
— A previsão do tempo tem uma qualidade excelente. A informação meteorológica do que eu estou falando hoje para até sete dias, está em um intervalo de 95% de precisão nos três primeiros dias, para depois cair para uns 90, 85% a partir daí, chegando perto de uns 80% no fim do sétimo dia.
O professor explica que, após esse período, a margem de erro aumenta.
— A partir do sétimo dia essa precisão vai caindo. Quando você chega lá pelo décimo dia, está abaixo de 60% — exemplifica.
Por isso, ele reforça a diferença entre a previsão de curto prazo e projeções mais distantes.
— A previsão de tempo, que a gente chama de tempo, é o que está acontecendo hoje. Então: "qual vai ser a temperatura máxima, mínima, vai chover de tarde, vai chover de manhã?". Isso, a precisão é altíssima.

A crítica à previsão de "entretenimento"
Um dos principais pontos levantados por Anabor é a falta de regulamentação da atividade meteorológica no país e a diferença entre a previsão oficial e o conteúdo produzido por empresas privadas.
— O que acontece é que a gente não tem uma regulamentação no Brasil sobre a atividade de previsão do tempo. E se mistura de maneira irresponsável. O que eu chamo de previsão de tempo de "entretenimento" com a previsão de tempo profissional e a previsão de tempo feita nos institutos.
Segundo o professor, a estrutura disponível para órgãos oficiais é muito diferente daquela utilizada por empresas privadas.
— O Instituto Nacional de Meteorologia ganha os seus recursos a partir do que é pago pelos impostos. E a pessoa que dá a previsão do tempo numa rádio, na televisão, ganha o recurso dos cliques na internet, da propaganda.
Ele compara:
— A estrutura federal que faz a previsão do tempo tem um computador que custa 200 milhões de dólares e tem, no Rio Grande do Sul, 150 estações meteorológicas. O meteorologista que dá a previsão na rádio tem um laptop. Essa que é a diferença que as pessoas não entendem.
Na avaliação de Anabor, a busca por audiência e pela divulgação rápida das informações contribui para ruídos na comunicação com a população.
— Hoje em dia existe uma corrida para dar a notícia primeiro. E aí o que se fez, e o que foi o grande problema todo, é que essa mistura da informação da previsão do tempo profissional com a previsão do tempo de entretenimento começa a gerar ruído — argumenta.
O professor afirma que a antecipação excessiva de cenários extremos acabou aumentando a tensão em torno do evento meteorológico.
— Queimaram a largada com a previsão do tempo com esse fenômeno. Por isso que a intensidade foi menor. A gente tem um efeito secundário de mais chuva, mas aquela grande tensão não se realizou.
Para ele, a falta de coordenação entre previsões oficiais e privadas também prejudica o trabalho dos institutos meteorológicos.
— Esses alarmismos que ocorrem no entorno de uma informação que é séria, essencial, fundamental para nossas vidas, dispersam energia. É como se fosse um trote aos bombeiros — compara Anabor.
Órgãos oficiais
Alertas diferentes entre os órgãos competentes e autoridades também são registrados. Nesta terça-feira (21), o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) colocava Santa Maria em alerta de grande perigo, pelo acumulado de chuva, com "grande risco de grandes alagamentos e transbordamentos de rios, grandes deslizamentos de encostas, em cidades com tais áreas de risco".
Já a Defesa Civil do Estado do Rio Grande do Sul atualizou o seu boletim meteorológico para alerta amarelo de "atenção", considerado de risco "moderado".
O papel da Defesa Civil
Apesar das críticas ao excesso de informações desencontradas, os meteorologistas reforçam a importância de a população seguir as orientações dos órgãos oficiais em situações de risco.
— Eu queria dizer para a população que siga as orientações da Defesa Civil. Isso é muito importante. A informação meteorológica oficial é fundamental. Se a Defesa Civil determina que você deve sair da região, saia da região — afirmou Anabor.
Murilo Lopes também lembra que a previsão é constantemente atualizada a partir das observações feitas em tempo real.
— Nós conseguimos validar se os modelos estão se aproximando daquela informação, seja no vento, na direção do vento, na temperatura e até mesmo na chuva. E a gente consegue ajustar essa previsão. O meteorologista tem a capacitação exatamente para isso. A previsão do tempo do celular, que nós temos acesso de forma muito fácil, nada mais é do que a previsão do modelo meteorológico de modo bruto, sem passar pela análise ou pelo aval de um meteorologista — relata.
Estragos em Santa Maria

Em Santa Maria, o maior volume de chuva registrado pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), entre o domingo (19) e a manhã de terça-feira (21), ocorreu no Bairro João Goulart, com mais de 80 mm. Nos distritos, os acumulados ultrapassaram os 90 mm em Passo do Verde e em Pains.
Desde sexta-feira (17), a Defesa Civil atendeu mais de 140 famílias, cerca de 500 pessoas. Ao todo, 126 moradores foram diretamente afetados pelas chuvas, e uma família precisou deixar a residência temporariamente.
Dos 147 imóveis vistoriados, 35 apresentaram danos estruturais e 101 sofreram algum tipo de impacto causado pelo temporal. Os bairros mais atingidos foram Divina Providência, com 36 ocorrências, e Noal, com 17 registros.
Previsão para os próximos dias
A terça-feira (21) segue com tempo instável em Santa Maria e região. Conforme o meteorologista Daniel Caetano, a umidade ainda favorece pancadas de chuva ao longo do dia, com temperaturas entre 16°C e 21°C. Entre terça e quarta-feira (22), os acumulados podem superar 40 milímetros.
Na quarta-feira, a chuva persiste principalmente durante a manhã, enquanto os termômetros variam entre 11°C e 17°C. A partir do fim do dia, uma massa de ar seco começa a avançar sobre o Estado.
A quinta-feira (23) deve ter tempo mais estável, com sol entre nuvens e temperaturas entre 9°C e 17°C. Já na sexta-feira (24), a umidade volta a aumentar, favorecendo novas pancadas de chuva, que podem se estender até o início da próxima semana.
Telefones de emergência
Em caso de necessidade, a população pode acionar os seguintes órgãos:
- Defesa Civil: 153 e WhatsApp (55) 99110-7940;
- Corpo de Bombeiros: 193 e WhatsApp (55) 98454-5968;
- Brigada Militar: 190 e WhatsApp (55) 99939-0190;
- Samu: 192, (51) 3320-0100, (51) 3322-0192 e (55) 3307-9737;
- Superintendência de Trânsito: 153 e WhatsApp (55) 99931-1244;
- Guarda Municipal: 153 e WhatsApp (55) 99167-8452;
- Comando Rodoviário da Brigada Militar: 198, (55) 3225-1009 e WhatsApp (51) 98687-2667;
- Polícia Rodoviária Federal: 191 e WhatsApp (55) 99123-3488.