Foto: Maria Eduarda Silva
Jogo de Cintura especial ao "Julho das Pretas", realizado na última terça-feira (28), que reuniu quatro mulheres negras de diferentes profissões para falarem sobre as suas vivências.
Na última terça-feira (28), o programa "Jogo de Cintura" foi ao ar com uma edição especial em homenagem ao "Julho das Pretas", reunindo quatro mulheres negras para debater trajetórias, racismo estrutural, violência e políticas públicas voltadas à população negra de Santa Maria.
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Com apresentação de Maria Eduarda Silva, participaram a enfermeira Márcia Lima, representante da Secretaria Municipal de Saúde pela política de promoção da equidade; a trancista e estudante de Ciências Sociais Yasmin Couto; a professora da rede municipal e coordenadora da política pública de promoção da igualdade racial Cláudia Bassoaldo; e a advogada e professora Deborá Evangelista.
Racismo estrutural no dia a dia
Durante o programa, as convidadas relataram como o racismo se manifesta desde a infância, muitas vezes por meio da rejeição ao próprio corpo. A trancista Yasmin Couto contou que, desde os 5 anos de idade, já ouvia comentários voltados para o seu cabelo.
— Já ouvia coisas como: "Ai, seu cabelo é difícil de lidar, tem que colocar um alisamento, tem que relaxar o cabelo para diminuir o volume". São coisas que eu vou ter essa memória desde a minha infância, de como fui atravessada por essa questão estética, de não me sentir aceita, de não me sentir bonita muitas vezes — relembra a trancista.
Para as participantes, experiências como a relatada por Yasmin não são casos isolados, mas reflexo de um processo histórico de exclusão. A professora e advogada Débora Evangelista classificou esse fenômeno como uma forma de desumanização da população negra.
— Aquele cabelo não é bom, aquela pele é horrível, o comportamento é pior ainda, as tradições são, devem ser rechaçadas. Tudo o que nos constitui é demonizado de alguma forma. O meu nariz incomoda demais, o tom da minha pele incomoda demais, o meu cabelo é horrível. Isso é necessário que a sociedade faça para que eu me sinta realmente excluída desse seio social e indigna de ser considerada um ser humano. — alertou a advogada.
A professora também citou o racismo institucionalizado em espaços comerciais:
— Tu entra numa loja para escolher qualquer produto, vem alguém te vigiando, já com medo de que tu vá pegar, vá furtar, ou então vá tirar o tempo da atendente, já querendo dispensar aquela pessoa negra. Nós temos esses outros atravessamentos, que são violências que estão no nosso cotidiano — reforçou a professora.
Se no comércio ela aparece em forma de vigilância e suspeita, na escola costuma marcar o primeiro contato de muitas crianças com o racismo. O grupo também apontou o ambiente escolar e universitário como espaços de exclusão. Cláudia Bessaoldo citou dados da Base Nacional Comum Curricular (BNCC):
— Os estudos comprovam que o racismo inicia na educação infantil. E a gente sabe que, na BNCC, na educação infantil, não existe uma habilidade que se reporte de forma explícita a essa pauta antirracista. No ensino fundamental 1 e 2, de 1.303 habilidades, praticamente apenas 47 se remetem a essa pauta de forma explícita — relembra Cláudia.
Segundo as convidadas, é comum que a percepção da própria identidade racial se dê justamente a partir de episódios de discriminação vividos na escola. Yasmin Couto descreveu como foi o seu processo.
— A gente não nasce se percebendo enquanto pessoa preta, a gente só vai perceber a nossa cor quando acontecer algum marco. E normalmente esse marco se dá dentro das escolas — relatou a trancista.

Violência contra a mulher negra
Além dos relatos sobre discriminação no cotidiano, o debate também abordou como o racismo se reflete nos indicadores de violência contra mulheres negras no país.
De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2026, 1.571 mulheres foram vítimas de feminicídio no período analisado, das quais 65,1% eram mulheres negras. Débora Evangelista destacou ainda que as mulheres negras representam 70% do total de mulheres que sofrem algum tipo de violência no país:
— Quando a gente fala em violência contra a mulher, essencialmente eu estou falando de mulheres negras. E os percentuais se mantêm nas devidas proporções, independentemente do estado — alerta a professora.
A advogada explicou que a violência doméstica costuma seguir um ciclo:
— Nós temos ali as fases de tensionamento, temos a agressão propriamente dita, depois temos a fase da lua de mel, em que o agressor se penaliza, diz que nunca mais vai acontecer, pede desculpas, para tentar continuar naquele ciclo. Para nós, mulheres negras, temos a violência doméstica, mas temos um outro tipo de violência, que é o racismo institucionalizado em todos os lugares — reforça a advogada.
Márcia Lima complementou a discussão do ponto de vista da saúde, afirmando que muitas mulheres negras enfrentam barreiras de acesso aos serviços por conta de papéis sociais historicamente atribuídos a elas:
— Essas mulheres, a grande maioria delas, como não ocupam esses espaços de decisão, elas estão nessas outras atividades, seja como dona de casa, e muitas vezes acabam não acessando os serviços de saúde em função desses papéis que ocupam. E, no momento em que elas acessam esse serviço, elas têm a questão do racismo estrutural que barra elas desses acessos — pontua Máricia.
A enfermeira também descreveu o momento em que essas mulheres chegam aos serviços já em situação extrema:
— Ela já vem com aquela demanda toda; a gente precisa ter aquela conversa, precisa saber acolhê-la, não somente em relação à violência, mas também em relação a esse recorte de raça que ela tem. Porque isso faz total diferença — a enfermeira complementou.

Políticas públicas em Santa Maria
Diante desse cenário, as participantes defenderam que o enfrentamento ao racismo passa necessariamente pelo fortalecimento de políticas públicas voltadas à população negra. Em Santa Maria, algumas iniciativas vêm sendo implementadas nos últimos anos.
Cláudia Bassaoldo, coordenadora da política pública de promoção da igualdade racial do município, apresentou um panorama das ações desenvolvidas em Santa Maria:
- 2018: criação do Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial (COMPIR), por lei municipal;
- 2022: instituição do Dia Municipal de Tereza de Benguela no calendário oficial do município;
- 2025: criação do selo de inclusão e equidade para mulheres negras no mercado de trabalho;
- Julho de 2025: adesão do município ao Sistema Nacional de Promoção da Igualdade Racial (Sinapir);
- Final de 2025: Santa Maria recebe o selo de "cidade antirracista".
Questionada se, então, Santa Maria não seria mais uma cidade racista, Cláudia foi direta:
— As pessoas me perguntam e eu respondo: Santa Maria é extremamente racista, assim como o Rio Grande do Sul e assim como o Brasil como um todo. Mas a cidade está apresentando políticas voltadas e já vem desenvolvendo ações que possam contribuir com a pauta — relatou a professora.
Segundo Cláudia, a Coordenadoria da Promoção da Igualdade Racial integra o gabinete da vice-prefeita, ao lado da Coordenadoria da Mulher e do Comitê Gestor Intersetorial responsável pelo programa Cidades Educadoras.
— A coordenadoria não é uma secretaria; nós não temos recursos financeiros, por isso a gente trabalha de forma muito articulada, de forma intersetorial, para poder buscar e desenvolver políticas públicas voltadas para esse público — reforça a coordenadora.

Saúde da mulher negra
Entre as ações desenvolvidas pelo município, a área da saúde tem recebido atenção especial. Márcia Lima detalhou iniciativas voltadas à qualificação do atendimento à população negra.
Segundo ela, uma capacitação para recepcionistas das unidades de saúde do município, dando continuidade ao trabalho iniciado no ano anterior com os profissionais da assistência.
— Se a gente já chega no serviço de saúde onde a recepção já te olha torto e já faz essa diferenciação, principalmente se ela é uma pessoa negra, isso é definitivo. Então a gente precisa trabalhar isso desde a porta de entrada — relata Márcia.
A enfermeira também citou o incentivo à autodeclaração de raça e cor nos serviços de saúde como ferramenta para a formulação de políticas públicas.
— As pessoas precisam se reconhecer para que elas lutem até mesmo pelos seus direitos, para que busquem essa assistência. Porque, para gerar políticas públicas, precisamos saber quem são essas pessoas que acessam o serviço de saúde.
Ela citou ainda o desenvolvimento de uma política de saúde voltada especificamente à população negra, considerando especificidades como a anemia falciforme, uma doença sanguínea hereditária e genética.
— Muitas pessoas pretas têm anemia falciforme e, quando chegam a um pronto atendimento municipal e dizem que estão sentindo dor, muitas vezes essa dor é negligenciada. Nós, enquanto pessoas pretas, temos sim especificidades na nossa saúde e precisamos estar reconhecendo isso — ressalta a servidora.

Ancestralidade e cabelo como resistência
Se ao longo da vida o cabelo costuma ser alvo de preconceito, para muitas mulheres negras ele também representa identidade, ancestralidade e resistência. Foi a partir dessa perspectiva que Yasmin Couto falou sobre o trabalho que desenvolve há oito anos com tranças e dreads.
— A gente sabe que isso não é só meramente estético. O cabelo de nós, mulheres pretas, é político.Quando eu faço uma trança e vejo uma mulher se observando no espelho, ela tomando outra postura e indo para a rua, assumindo esse papel de empoderamento perante a sociedade, eu vejo que isso é político — reafirma a trancista.
E Débora Evangelista reforçou o mesmo raciocínio ao falar sobre sua relação com clientes:
— Quando eu atendo lá no meu escritório uma mulher negra que veio me procurar, ela poderia ter escolhido qualquer outro advogado de Santa Maria, mas ela se identificou comigo porque nós temos a mesma cor, as mesmas vivências, passamos muitas vezes pelas mesmas dificuldades.
E a profissional ainda defendeu a importância da união entre profissionais do setor, citando o conceito de "aquilombamento" como forma de fortalecimento coletivo.
— A gente tem que se aquilombar, porque a gente se fortalece no coletivo. Independentemente das diferenças de A, B ou C, uma mulher preta dá apoio para outra. Aquele chavão, brincadeira, de que uma sobe e puxa outra, é real.
O que é o "Julho das Pretas"
A data de 25 de julho é o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha. A comemoração tem origem em 1992, quando mulheres negras de mais de 30 países se reuniram em Santo Domingo, na República Dominicana, para discutir racismo, machismo e desigualdade na vida das mulheres negras nas Américas. A partir desse encontro, a Organização das Nações Unidas (ONU) oficializou a data no mesmo ano.
O dia também é conhecido como Dia de Tereza de Benguela, em referência à líder quilombola que comandou o quilombo do Quariterê, no Mato Grosso, durante décadas no século 18. Tereza chegou a organizar um sistema de defesa e uma espécie de parlamento próprio dentro da comunidade, mas foi capturada e morta por forças coloniais. Seu nome se tornou lei em 2014, quando foi instituído o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra.
Confira o programa completo aqui: