“Aprendi a me cuidar”: estudantes refletem sobre violência contra a mulher nas escolas municipais de Santa Maria

“Aprendi a me cuidar”: estudantes refletem sobre violência contra a mulher nas escolas municipais de Santa Maria

Fotos: Vinicius Becker (Diário)

O assunto que antes Catarina Ester Francisco Machado, de 12 anos, via apenas pela televisão, em notícias sobre feminicídio e casos de agressão, passou a ter um novo sentido. Estudante do 7º ano da Escola Municipal de Ensino Fundamental Irmão Quintino, ela participou de uma roda de conversa sobre violência contra meninas e mulheres. Saiu de lá refletindo sobre o que ouviu. Para ela, reconhecer os sinais da violência é uma forma de proteção e de cultuar o amor próprio.

– Achei interessante falar sobre isso porque aprendi a me cuidar, a não me envolver com pessoas que fazem mal. E que a gente precisa nos amar mais também – contou Catarina.


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A atividade faz parte do projeto “Construindo Escolas Seguras: Enfrentamento e Prevenção da Violência contra Meninas e Mulheres”, desenvolvido pelo Grupo de Trabalho da Secretaria Municipal de Educação (SMEd). A iniciativa percorre as escolas da rede municipal de Santa Maria, toda quarta-feira, com o objetivo de promover ações de prevenção e enfrentamento à violência de gênero. Nos encontros, são realizadas rodas de conversa com alunos do 6º ao 9º ano, do Ensino Fundamental.

O último encontro do projeto ocorreu na Escola Municipal de Ensino Fundamental Irmão Quintino

Além do diálogo com os alunos, o projeto inclui formações para professores e funcionários da educação. O objetivo é capacitar as equipes escolares para identificar sinais de violência e encaminhar casos de forma adequada. ​Ao todo, 46 escolas estiveram contempladas nos seminários de formação. 

– Queremos que os estudantes reconheçam a escola como um espaço seguro para denunciar e buscar ajuda. Outro eixo que temos, é o cuidado com os nossos profissionais. Eu também tenho escutado relatos, nas nossas idas até as escolas, de colegas nossos que já passaram por casos de violência doméstica. E elas se sentem tão à vontade nas rodas de conversa, que trazem o relato – explica Bruna Zottis, coordenadora do GT da SMEd.

Projeto também incluiu a realização de um seminário aos professoresFoto: Divulgação (SMed)

Em menos de quatro meses de atuação, o projeto já alcançou mais de mil alunos em dez escolas municipais, localizadas em diferentes regiões da cidade – especialmente nas com maior vulnerabilidade social. Segundo Bruna, além das ações educativas, as escolas estão incorporando o tema nos seus Projetos Político-Pedagógicos (PPPs). Em breve, também receberão os “bancos vermelhos”, símbolo de conscientização sobre o enfrentamento à violência contra a mulher.

No 15° episódio da série Jogo de Cintura Especial pelo Fim da Violência Contra a Mulher, a professora Bruna Zottis afirmou que já são 35 bancos adquiridos, mas ainda faltam 20 bancos para completar a ação, além de tinta e materiais para a pintura. A proposta busca envolver a comunidade, pais e famílias, para que juntos possamos implantar este símbolo de conscientização e combate à violência contra a mulher.

Interessados podem comparecer no setor do Programa Todos na Escola, da Secretária de Educação ou entrar em contato pelo número (55) 98445-8736.


O que é o Banco Vermelho

O Projeto Banco Vermelho é uma iniciativa internacional criada na Itália, em 2016, que utiliza bancos pintados de vermelho como símbolo de prevenção e enfrentamento à violência de gênero e ao feminicídio. Coordenado mundialmente por Isa Maggi e, no Brasil, pela advogada ítalo-brasileira Denise Argemi, o projeto tem caráter pedagógico e memorial, representando o lugar deixado por mulheres assassinadas em razão do gênero.

Os bancos, instalados em espaços públicos, trazem frases reflexivas e informações sobre canais de denúncia, funcionando como instrumentos de educação em direitos humanos e alerta social. O primeiro banco foi instalado em Lomello, na Itália, e hoje o movimento está presente em diversos países, incluindo o Brasil, onde foi oficialmente lançado em abril de 2024 com ações educativas e intersetoriais em escolas, universidades e espaços públicos.

Em Santa Maria, o Banco Vermelho foi implantado em agosto, durante o Agosto Lilás, no calçadão Foto: Vinicius Becker (Arquivo/Diário)


Programa Jogo de Cintura

Os primeiros resultados do projeto vieram à tona durante o 15º episódio do programa Jogo de Cintura Especial pelo fim da violência contra a mulher, no último dia 1º de outubro. Bruna Zottis participou da iniciativa que mostrou os primeiros avanços de Santa Maria nesta causa humanitária, junto com o juiz Rafael Pagnon Cunha, o vereador Sidinei Cardoso e a advogada Tâmara Camargo.​

Desde abril, a cada 10 episódios do programa Jogo de Cintura, um trata do tema. O projeto é conduzido em uma parceria do Grupo Diário e do Juizado de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher.

– Estamos muito animados com os primeiros resultados desta luta que precisa ser de toda sociedade. Precisamos transformar essa cultura, e a educação é o caminho mais assertivo – afirma Fabiana Sparremberger, jornalista e âncora do Jogo de Cintura e diretora de Jornalismo do Grupo Diário.


Na Escola Irmão Quintino, alunos aprendem a identificar sinais de violência

Na tarde da quarta-feira (8), o projeto chegou na Escola Irmão Quintino, no Bairro Juscelino Kubitschek. O clima, durante a conversa, era de atenção e curiosidade sobre o tema, entre meninas e meninos. Durante o encontro, foram apresentados os tipos de violência (física, psicológica, moral, patrimonial e sexual), além da Lei Maria da Penha e dos canais de denúncia disponíveis.

Os alunos também conheceram o “violentômetro”, uma ferramenta que ilustra as diferentes etapas do ciclo da violência, dos primeiros xingamentos até as agressões físicas e sexuais.

– O violentômetro, posto aqui, é para que vocês possam reconhecer os primeiros sinais. Muitas vezes, o agressor repete um ciclo de tensão, explosão e reconciliação. Quando a gente identifica cedo, consegue diminuir o risco e o impacto da violência – explicou a assistente social do Centro de Referência da Mulher, Juliane Silveira, durante a palestra.

Na ação, os estudantes também fizeram perguntas e conheceram uma das viaturas chamadas de “Guardiões Maria da Penha”, um dos símbolos dessa rede de proteção. Em 2023, a Superintendência da Guarda Municipal de Santa Maria elaborou um projeto para aquisição de veículos e encaminhou ao Pronasci, o Programa Nacional de Segurança com Cidadania do Ministério da Justiça. O município foi contemplado com três viaturas Toyota Yaris, totalmente equipadas para o serviço policial.

Um dos carros foi caracterizado na cor rosa (foto abaixo), destinado ao enfrentamento à violência doméstica; outro passou a atuar na ronda escolar; e o terceiro permanece no patrulhamento diário.


Parceria com Centro de Referência da Mulher e Guarda Municipal

A iniciativa conta com o apoio do Centro de Referência da Mulher (CRM) e da Guarda Municipal, que participam das atividades. Consigo, levam informações sobre os serviços de acolhimento e proteção às vítimas. De acordo com Juliane Silveira, assistente social do CRM, a presença nas escolas nasceu de um chamado do Ministério Público para fortalecer as ações de prevenção:

– Sentimos a necessidade de sair de dentro do Centro e ir até onde estão as situações. Muitos alunos e famílias vivem ou presenciam casos de violência. Então, é importante mostrar que o CRM é um lugar de acolhimento, tanto para mulheres com medida protetiva quanto para aquelas que querem olhar para essa situação e enfrentar.

Juliane apresentou aos alunos o trabalho desenvolvido pelo Centro de Referência da Mulher em Santa Maria

A ação, segundo ela, tem mostrado resultados positivos e gerado reflexões importantes entre os jovens.

– Quando a escola fala sobre isso, ajuda a quebrar o silêncio e a criar uma rede de apoio mais forte – completa.

Durante a roda de conversa na Escola Irmão Quintino, o inspetor Elias Rossteuscher, que representou a Guarda Municipal, destacou a importância da presença da corporação em ações voltadas à conscientização dos jovens:

– Nosso trabalho não é apenas de repressão. Queremos mostrar para os estudantes que a Guarda está próxima, que eles podem confiar e procurar ajuda quando perceberem uma situação de risco. É um trabalho de diálogo e orientação, que busca prevenir a violência antes que ela aconteça – explicou.

Elias falou sobre como denunciar casos de violência contra meninas e mulheres


Próximos passos

O próximo passo do projeto, conforme a Secretaria de Educação, é o diálogo com pais e responsáveis:​

– Para o próximo ano, já temos planejado a inscrição de um núcleo de práticas restaurativas no município. Essa ação é levar a discussão para as escolas e envolver não só professores e alunos, mas também as famílias – afirmou Bruna, que é responsável pelo Grupo de Trabalho, durante o Programa Jogo de Cintura.


Confira o programa completo: 

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Tipos de violência

Na Lei Maria da Penha (11.340/2006), estão previstos cinco tipos de violência doméstica e familiar contra a mulher:

  • Física – Qualquer conduta que ofenda a integridade ou saúde corporal da mulher;
  • Psicológica – Qualquer conduta que cause dano emocional e diminuição da autoestima; prejudique e perturbe o pleno desenvolvimento da mulher ou vise degradar ou controlar suas ações, comportamentos, crenças e decisões. A perseguição entra neste tipo;
  • Sexual – Qualquer conduta que force a mulher a presenciar, a manter ou a participar de relação sexual não desejada mediante intimidação, ameaça, coação ou uso da força;
  • Patrimonial – Qualquer conduta que configure retenção, subtração, destruição parcial ou total de seus objetos, instrumentos de trabalho, documentos pessoais, bens, valores e direitos ou recursos econômicos, incluindo os destinados a satisfazer suas necessidades;
  • Moral – Qualquer conduta que configure calúnia, difamação ou injúria.


Como pedir ajuda

Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (Deam) 

  • Onde – Rua Duque de Caxias, 1.159, Centro
  • Quando – Segunda a sexta, das 8h30min ao meio-dia e das 13h30min às 18h
  • Telefone – (55) 3222-9646 ou 98423-2339


Delegacia de Polícia de Pronto Atendimento (DPPA)

  • Onde – Avenida Nossa Senhora Medianeira, 91, Bairro Medianeira
  • Quando – 24 horas (inclusive finais de semana e feriados)
  • Telefone – (55) 3222-2858 ou 190


Delegacia de Polícia Online da Mulher


Centro de Referência da Mulher (CRM)

  • Onde – Rua Tuiuti, 1.835, Centro
  • Quando – Segunda a sexta, das 8h ao meio-dia e 13h às 17h
  • Informação – Telefone (55) 3174-1519 / Whatsapp (55) 99139-4971
  • E-mail – [email protected]


Defensoria Pública de Santa Maria

  • Endereço – Alameda Montevideo, 308, Sala 101, Nossa Senhora das Dores
  • Quando – Segunda a sexta, meio-dia às 18h
  • Telefone – (55) 3218-1032 e 129
  • E-mail – [email protected]
  • Em casos de emergência, acione a Brigada Militar pelo 190

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