Fotos: Vinicius Becker (Diário) e Divulgação
Todo mundo conhece o Ginásio Oreco. Mas, afinal, quem foi Oreco? A pergunta parece simples para quem passa diariamente pelo complexo esportivo do Bairro Tancredo Neves, em Santa Maria. O nome está na fachada, identifica um dos principais espaços públicos da região e faz parte da rotina de moradores e frequentadores. É comum ouvir que alguém vai caminhar "no Oreco", fazer academia "no Oreco" ou acompanhar uma partida de futsal do Jogos Escolares de Santa Maria (Jesma) "no Ginásio Oreco". Mas a história por trás da homenagem permanece desconhecida para boa parte de quem convive com o local.
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A reportagem ouviu mais de dez pessoas nas proximidades do complexo esportivo. Entre moradores antigos, comerciantes, frequentadores e até trabalhadores do ginásio, ninguém soube explicar quem foi Oreco. Alguns arriscaram que poderia ser um político ou um antigo morador do bairro.
A resposta está na história do esporte santa-mariense. Oreco era o apelido de Valdemar Rodrigues Martins, nascido em Santa Maria em 1932. Lateral-esquerdo de destaque no futebol brasileiro dos anos 1950, integrou a Seleção Brasileira campeã da Copa do Mundo de 1958 e tornou-se o único santa-mariense e o primeiro gaúcho a conquistar o principal título do futebol mundial.

Professor de História, Moisés Pozzobon, de 40 anos, mora há três décadas no Bairro Tancredo Neves e frequenta o Complexo Esportivo Oreco desde a adolescência, quando participava das aulas de Educação Física no local. Hoje, utiliza o espaço semanalmente para correr, caminhar, pedalar e levar a filha para brincar.
Apesar da convivência de tantos anos com o ginásio, ele nunca havia parado para pensar na origem do nome. Ao ser questionado pela reportagem sobre quem teria sido Oreco, respondeu que não fazia ideia. Depois de conhecer a história do jogador, resumiu a surpresa:
– Fiquei sabendo agora. Trinta anos depois e eu não tinha ideia – confessou.
A revelação ganhou um significado ainda maior por causa da profissão. Horas antes, Moisés havia levado para a sala de aula curiosidades sobre guerras. Ao descobrir que o homem que dá nome ao ginásio foi o único santa-mariense campeão do mundo, percebeu que também precisava falar aos alunos sobre personagens da própria comunidade.
– Hoje eu saí da aula e levei algumas curiosidades sobre guerras. Mas tem que levar também as curiosidades da comunidade. É bem mais importante – afirmou.

A reação de Moisés se repetiu ao longo das entrevistas. A proprietária de um salão de beleza em frente ao complexo esportivo, Adriana Brocardo, 50 anos, também desconhecia a homenagem. Depois de descobrir quem foi Oreco, avaliou que a falta de informação deve alcançar boa parte dos moradores da região.
– Eu acredito que metade da população da Tancredo Neves não sabe – revelou.
Moradoras do bairro há cerca de 40 anos, Darmira Oliveira, de 68 anos, e Fátima Maria Ronzoni da Rosa, de 61, também frequentam o complexo esportivo regularmente por conta da academia. Nenhuma das duas sabia quem era o homenageado.
– Viemos aqui no Ginásio duas vezes por semana, é muito bom. Moramos aqui há 40 anos e não tínhamos ideia – contaram surperesas.

De Santa Maria para a primeira Copa do Mundo do Brasil
Valdemar Rodrigues Martins nasceu em Santa Maria em 13 de junho de 1932. Conhecido pelo apelido Oreco, começou a carreira no Internacional de Santa Maria e, ainda aos 17 anos, chamou a atenção do Internacional de Porto Alegre, onde rapidamente se consolidou como um dos destaques da equipe.
No clube da capital, Oreco integrou uma das gerações mais vitoriosas da história colorada. Fez parte do time conhecido como "Rolo Compressor" e conquistou cinco Campeonatos Gaúchos, em 1950, 1951, 1952, 1953 e 1955. O desempenho o levou à Seleção Brasileira e, antes mesmo da Copa do Mundo, já havia conquistado o Campeonato Pan-Americano de 1956, torneio considerado um dos principais títulos internacionais do país até então.
Pouco tempo depois, Oreco seria contratado pelo Corinthians, onde viveu outro importante capítulo da carreira. Foi como jogador do clube paulista que recebeu a convocação para a Copa do Mundo de 1958, na Suécia. Reserva de Nilton Santos, um dos maiores laterais da história do futebol brasileiro, não entrou em campo durante a campanha, mas integrou oficialmente o elenco que conquistou o primeiro título mundial da Seleção Brasileira. Ao lado de nomes como Pelé, Garrincha, Didi, Zagallo, Bellini e Vavá, tornou-se o único santa-mariense campeão do mundo e o primeiro jogador nascido no Rio Grande do Sul a integrar uma seleção brasileira campeã da Copa.
Uma homenagem que desperta curiosidade, mas explica pouco
A falta de informação também surpreendeu Delianir Rosa, 60 anos, conhecido como “Dela Rosa” por quem frequenta o ginásio, é o coordenador setorial que trabalha no Complexo Esportivo Oreco. Mesmo convivendo diariamente com o espaço, ele nunca havia descoberto quem era o homenageado.
– Sinceramente, vou ficar devendo essa. É uma curiosidade que eu também gostaria de saber – admitiu.
Depois de conhecer a trajetória do jogador, Dela Rosa disse ter entendido o significado da homenagem e acredita que a história deveria estar mais presente no cotidiano de quem frequenta o complexo.
– Para mim foi uma grande novidade. Agora, quando perguntarem, vamos saber responder qual é o significado do Ginásio Oreco. Colocaram o nome dele em um ginásio, um lugar que muitas pessoas frequentam para praticar esporte. Tem tudo a ver – afirmou, contente de enfim descobrir quem foi Oreco.
O Complexo Esportivo Oreco reúne ginásio com quadra poliesportiva, academia de musculação, campo de grama sintética, pista de caminhada, quadras de areia, academia ao ar livre e pista de skate. Todos os dias, pessoas de todas as idades utilizam o espaço para atividades esportivas e lazer.
Apesar da intensa movimentação, não há, em local de destaque, uma placa, painel ou outro elemento que conte aos frequentadores quem foi Oreco e por que seu nome passou a identificar um dos principais equipamentos esportivos da cidade.
A situação observada pela reportagem também convida a uma reflexão que vai além do ginásio. Em Santa Maria, assim como em praticamente todas as cidades brasileiras, ruas, praças, escolas, bairros e espaços públicos carregam nomes de pessoas que marcaram diferentes momentos da história. Com o passar do tempo, porém, essas homenagens deixam de despertar curiosidade e passam a funcionar apenas como referências de localização. O nome permanece, enquanto a história, muitas vezes, deixa de circular.
Uma história preservada por quem a registrou
Se hoje muitos santa-marienses desconhecem quem foi Oreco, sua trajetória nunca deixou de ser registrada. Muito antes de dar nome ao complexo esportivo do Bairro Tancredo Neves, o lateral ocupava espaço frequente nas páginas dos jornais e despertava o interesse da imprensa esportiva brasileira.
Os primeiros registros na imprensa de grande circulação aparecem ainda no início da carreira. Em maio de 1950, o Jornal do Dia, de Porto Alegre, classificava como de "gente grande" a atuação do jovem de 17 anos revelado pelo Internacional de Santa Maria em um treinamento na capital, destacando sua capacidade de apoiar o ataque e compensar as falhas da defesa. Exatamente dois meses depois, o periódico o apresentava como "um dos mais novos e promissores" jogadores do clube.
Seis anos depois, já consolidado como um dos principais atletas do futebol gaúcho, Oreco voltava às manchetes. Em dezembro de 1956, o jornal Última Hora informava que o Internacional havia fixado em 1,5 milhão de cruzeiros o valor de seu passe, despertando o interesse de clubes cariocas e paulistas que cobiçavam a transferência do atleta.

A conquista da Copa do Mundo ampliou ainda mais esse reconhecimento. Em uma edição especial publicada após o título de 1958, o jornal A Tribuna dedicou uma página à trajetória dos jogadores que ganharam o mundo, com uma seção para Oreco, relembrando desde os primeiros passos no Internacional de Santa Maria até a convocação.
Entre os registros preservados pela Hemeroteca Digital Brasileira, um chama atenção pelo tom emocional: na chegada da delegação brasileira a São Paulo, a Gazeta Esportiva registrou a presença do pai de Oreco entre a multidão. Vindo especialmente de Santa Maria, ele atravessou o país para abraçar o filho depois da conquista do título mundial.

Décadas mais tarde, a trajetória do jogador voltaria a ser reconstruída em outra importante iniciativa de preservação da memória. Em 1996, o jornalista e pesquisador Cândido Otto da Luz publicou Registros do Futebol Santamariense – Volume 1: Oreco, obra dedicada exclusivamente à vida e à carreira do lateral.
Inicialmente, Cândido pretendia escrever um livro sobre a história do Internacional de Santa Maria, reservando apenas um capítulo ao jogador. A quantidade de documentos encontrados, porém, fez com que a pesquisa ganhasse vida própria. Em entrevista resgatada pela reportagem, concedida ao veículo Infocampus em 2008, o pesquisador contou que entrou em contato com familiares durante o trabalho. Uma irmã de Oreco, que morava em Alegrete, levou pessoalmente uma pasta com documentos até sua residência. A viúva, que vivia em Minas Gerais, enviou cerca de 50 fotografias e uma fita cassete com a última entrevista concedida pelo jogador antes de morrer, em 03 de abril de 1985.

O acervo permitiu reconstruir uma trajetória que passou pelos campos de Santa Maria, pelo futebol gaúcho, pela Seleção Brasileira e por clubes da Colômbia, do México e dos Estados Unidos. Cândido foi contatado pela reportagem e constatou que já não há familiares de Oreco vivendo em Santa Maria ou na região. A responsabilidade de manter essa memória viva passa, cada vez mais, por instituições, pesquisadores e pela própria comunidade.
Sem parentes por perto para recontar o passado, a história de Valdemar Rodrigues Martins depende do eco que encontra nas ruas. Há uma ironia bonita nesse desconhecimento: o silêncio sobre o passado é preenchido diariamente pelo movimento.
Oreco, que passou a vida correndo atrás da bola e rompendo barreiras de Santa Maria para o mundo, segue, de alguma forma, estimulando o esporte e a ocupação viva do espaço público no Bairro Tancredo Neves.
Se ainda faltam placas explicativas nos muros do complexo esportivo, o espaço para a memória começa a ser cavado de forma espontânea. Na próxima vez em que o professor Moisés entrar em sala de aula para falar sobre o passado, os grandes conflitos mundiais ganharão a companhia de uma narrativa nascida a poucos metros dali. A história do lateral-esquerdo campeão do mundo pode não estar escrita nas paredes do ginásio, mas se renova a cada gol, a cada corrida e a cada passo de quem faz do Oreco o seu próprio lugar de pertencimento.