Jogo de Cintura especial chega aos 30 episódios e busca tirar a violência doméstica da invisibilidade em Santa Maria

Maria Eduarda Silva

Jogo de Cintura especial chega aos 30 episódios e busca tirar a violência doméstica da invisibilidade em Santa Maria

Foto: Vinicius Becker/Diário

Criado após uma sequência de feminicídios que chocou o Rio Grande do Sul durante o feriado de Páscoa de 2025, o projeto Jogo de Cintura Especial pelo Fim da Violência Contra a Mulher chegou ao seu 30º episódio na penúltima quinta-feira (25) do mês de junho. A iniciativa, desenvolvida pelo Grupo Diário em parceria com o Juizado da Violência Doméstica de Santa Maria, ampliou ao longo do último ano o espaço dedicado ao tema na imprensa local e passou a integrar uma rede formada por instituições públicas, entidades e profissionais que atuam na prevenção e no enfrentamento à violência de gênero.

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Durante o programa especial, representantes do Judiciário, da segurança pública, da Coordenadoria da Mulher, da imprensa e integrantes da rede de proteção fizeram uma avaliação da trajetória construída até agora. Além de destacar a importância de manter o assunto em evidência, os participantes apontaram avanços na conscientização da população, no fortalecimento das políticas públicas e na busca por ajuda por parte das vítimas.

“Todo dia morre mulher”

Uma das participantes do projeto desde a sua criação, a advogada, professora e escritora, Deborá Evangelista, lembrou que a violência contra a mulher já era um tema recorrente nos debates do programa, mas ganhou uma estrutura permanente a partir da criação da iniciativa.

— A violência contra a mulher sempre esteve presente nas discussões, mas não de forma sistemática, organizada e estruturada. Essa é a grande diferença do projeto. Todo dia morre mulher. Todo dia uma mulher está sendo agredida. Todo dia temos uma casa onde há violência psicológica acontecendo. Então, da mesma forma que a gente se alimenta todos os dias, nós vamos tratar da violência contra a mulher todos os dias — alerta a advogada.

Para a escritora, um dos principais méritos da iniciativa é transformar a informação em uma ferramenta de conscientização e mudança social.

Dar uma notícia sensacionalista todo mundo dá. Agora, mostrar caminhos, fazer alguma coisa efetiva, levar conhecimento e transformar realidades exige compromisso, e o programa está toda semana ali, falando, construindo, trazendo informação e mudando realidades — finaliza a professora.

A Deborá Evangelista é autora do livro: "Você não está sozinha: um manual de acolhimento, informação e empoderamento para mulheres em situação de violência”.

Foto: Vinicius Becker/Diário

Espaço de acolhimento para vítimas

Além da função informativa, os participantes ressaltaram que o projeto também passou a representar um espaço de acolhimento para mulheres que enfrentam situações de violência.

A advogada Gabriela Cezimbra, que foi vítima de violência doméstica, afirmou que encontrou no projeto um ambiente seguro para compartilhar sua experiência e contribuir para o debate.

— Eu me sinto muito acolhida aqui para falar sobre o assunto e ser compreendida enquanto vítima de violência doméstica. São poucos os espaços em que nós podemos bater na porta e nos sentir protegidas, compreendidas e saber que não estamos erradas — revela a advogada.

Segundo ela, a sensação de acolhimento ainda é rara para muitas vítimas e que esse aspecto tem um impacto que muitas vezes não aparece nos números.

A importância desse projeto não é só a informação. Ele é muito maior do que vocês possam imaginar, não só para quem atua protegendo essa mulher, mas para que ela possa se sentir segura, porque mostra que existem não só uma, mas várias instituições que podem acolher essa mulher — ressalta Gabriela.

Foto: Vinicius Becker/Diário

Imprensa e segurança pública reforçam importância do debate

A editora de Política do Grupo Diário, Jaqueline Silveira, afirmou que a população demorou para compreender a dimensão do problema e defendeu que a violência contra a mulher permaneça como tema recorrente nos espaços jornalísticos.

— Enquanto sociedade, demoramos para despertar sobre o quão grave é esse problema. Que bom que estamos discutindo isso toda semana. Tenho certeza absoluta de que esse espaço contribuiu para que muitas mulheres denunciassem — lembra a jornalista.

Jaqueline observou que muitas vítimas enfrentam dificuldades para romper relacionamentos abusivos, especialmente quando dependem financeiramente do agressor ou possuem filhos.

— Não é fácil. Muitas mulheres ainda estão pensando se denunciam ou não. A imprensa trabalha para fazer diferença na vida das pessoas. Esse é o nosso papel. Pode não aparecer em tantos casos, mas se ajudamos uma ou duas mulheres, isso já muda tudo — finaliza Jaqueline.

Foto: Vinicius Becker/Diário

Rede fortalecida reflete em mais denúncias

A delegada da Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (Deam), Elizabete Shimomura, avaliou que a ampliação do debate sobre violência doméstica tem refletido diretamente na procura por ajuda e no número de registros feitos pelas vítimas.

Segundo ela, houve aumento nos registros de ocorrências e nos pedidos de medidas protetivas em comparação com o ano anterior, um indicativo de que mais mulheres estão rompendo o silêncio.

Tenho certeza de que muitas mulheres tomaram coragem para registrar ocorrências policiais. Tivemos um aumento considerável nos registros e nas solicitações de medidas protetivas em relação ao ano passado — afirma a delegada.

Ao mesmo tempo, a delegada destacou que os casos mais graves apresentaram redução no município.

 Eu fiz um comparativo com o ano passado, e eu acho que, pelo menos 10% em relação ao ano passado nós temos um aumento de números de ocorrências. Essas ocorrências chegam até nós, mas os crimes graves reduziram bastante.Neste ano tivemos três tentativas de feminicídio. No ano passado foram 11 durante todo o ano. Espero que não ocorram mais casosrelembra Elizabete.

Para a delegada, os resultados são fruto da atuação conjunta dos órgãos que integram a rede de proteção às mulheres.

Santa Maria é afortunada por ter uma rede muito bem montada e com uma sintonia muito boa. Esse projeto só veio a somar a toda essa rede de proteção — ela finaliza.

Fotos: Vinicius Becker/Diário

“Estamos tirando a violência doméstica da invisibilidade”

Ao avaliar os resultados alcançados desde o início da iniciativa, o juiz do Juizado da Violência Doméstica da Comarca de Santa Maria, Rafael Pagnon Cunha, afirmou que a principal transformação promovida pelo projeto foi trazer para o debate público uma realidade que, durante muito tempo, permaneceu restrita ao ambiente doméstico.

— Uma palavra resume tudo isso: invisibilidade. Nós estamos tirando a violência doméstica da invisibilidade dos lares — comenta o juiz.

O magistrado destacou que o aumento dos registros e das solicitações de medidas protetivas pode ser interpretado como um sinal de que mais mulheres estão encontrando caminhos para denunciar.

Precisamos de repressão, precisamos de educação, precisamos da saúde e precisamos da imprensa. Tenho certeza de que estamos chegando às mulheres, às famílias e mudando cultura. Essa transformação é um processo lento, mas necessário, e não vamos desistir — afirma.

Ao falar sobre sua participação no projeto, o juiz destacou que o trabalho ultrapassa as atribuições individuais dos profissionais envolvidos.

Nunca sou eu. Quem está aqui é o Poder Judiciário. Estamos falando de uma causa que é maior do que qualquer pessoa — finaliza Pagnon.

Foto: Vinicius Becker/Diário

Prevenção e mudança de comportamento

A responsável pela Coordenadoria da Mulher de Santa Maria, Gesabel Pretto, defendeu que o combate à violência precisa avançar para além do atendimento às vítimas e alcançar as causas do problema.

Segundo ela, é necessário discutir comportamentos, relações interpessoais e a forma como homens e mulheres são educados ao longo da vida.

— Não podemos falar apenas dos números. Precisamos levantar o tapete e discutir o que causa a violência. O que está posto são as consequências, mas o nosso papel é trabalhar a prevenção — relembra Gesabel.

Para ela, a sociedade precisa compreender que a responsabilidade pelo enfrentamento à violência não é apenas do poder público, e destacou a importância de desenvolver ações voltadas aos homens para evitar que situações de violência se agravem.

— Precisamos chegar nesses homens. Ninguém sai matando. Existe uma relação que vai se desgastando, existem conflitos mal resolvidos e comportamentos que precisam ser discutidos. A sociedade precisa entender suas relações interpessoais e rever comportamentos — finaliza a coordenadora.

Foto: Vinicius Becker/Diário

Uma causa de toda a comunidade

Ao encerrar o programa, a jornalista e apresentadora do Jogo de Cintura, Fabiana Sparremberger, destacou que a mobilização em torno do projeto já ultrapassou as instituições que participaram de sua criação e passou a envolver diferentes setores da comunidade.

Segundo ela, a causa deixou de ser apenas uma pauta jornalística para se tornar um compromisso coletivo de enfrentamento à violência contra a mulher.

— Não é mais um projeto apenas do Grupo Diário ou do Judiciário. É uma comunidade inteira trabalhando por essa causa — alerta Fabiana.

A jornalista também rebateu críticas sobre a frequência com que o tema é abordado e reforçou que o objetivo é manter o debate ativo enquanto mulheres continuarem sendo vítimas de violência.

Às vezes ouvimos que estamos falando demais sobre violência contra a mulher. Mas o tema não são os homens. O tema são as mulheres que estão morrendo. Nós vamos continuar até que não haja mais mortes — relembra a jornalista.

Para ela, o objetivo permanece o mesmo desde o primeiro episódio.

— A gente só deu o pontapé inicial. Quanto mais pessoas se inserirem nesse objetivo, mais sucesso teremos nessa caminhada. Trabalhamos por algo que parece utópico, mas é pelo fim da violência contra a mulher que seguimos trabalhando todos os dias — finaliza a apresentadora.

Foto: Vinicius Becker/Diário

Confira o programa completo abaixo:


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