A herança da camisa amarela: futebol atravessa gerações em família de Santa Maria

A herança da camisa amarela: futebol atravessa gerações em família de Santa Maria

Foto: Vinicius Becker (Diário)

Cândido Otto da Luz, 72 anos, e o neto Otto da Luz, 5 anos

Na mesma sala de estar, imagens em preto e branco de Pelé cruzam com o colorido dos gols de Neymar. Esse diálogo entre gerações constrói a rotina na casa da família da Luz, em Santa Maria. Longe de ser apenas uma paixão de quatro em quatro anos, a Copa do Mundo virou motivo de aprendizado para o pequeno Otto da Luz, de 5 anos. Guiado pelas lembranças do avô materno, o jornalista esportivo Cândido Otto da Luz, de 71 anos, o menino descobre que o futebol é, de fato, uma herança.


+ Receba as principais notícias de Santa Maria e região no seu WhatsApp

Pela casa, bandeiras da Seleção Brasileira compõem a decoração e a televisão ligada nos canais esportivos dita o ritmo do ambiente. Em dias de jogo do Brasil, o ritual é sagrado: Otto veste orgulhoso a sua camisa amarela, posiciona-se em frente à tela e a família une os olhares atentos a cada lance, transformando o espaço em uma extensão da arquibancada.


"Quero passar tudo o que aprendi para o meu neto"

Morando dois andares acima no mesmo prédio, o neto sobe e desce diariamente carregando almanaques e edições infantis especiais sobre esporte. Sentados juntos, o veterano apresenta ao garoto as trajetórias dos ídolos do passado. Esse amor, no entanto, iniciou há mais de seis décadas. Natural de São Gabriel e atual morador de Santa Maria, Cândido relembra que sua relação com o futebol surgiu ainda na infância, quando acompanhava o pai, Ruy João da Luz (já falecido), em uma rev – a única da cidade – para ouvir as transmissões da Copa pelo alto-falante:

Cândido Otto da Luz, 72 anos, e o neto Otto da Luz, 5 anosFoto: Vinicius Becker (Diário)

– O dona da revistaria colocava dois ou três alto-falantes na frente da revistaria, sintonizava numa rádio do Rio ou de São Paulo, juntava centenas de pessoas na rua para escutar e meu pai me levava. Desde cedo eu ia para o estádio com ele. Quero passar tudo o que aprendi para o meu neto, para que ele tenha o mesmo gosto que eu. 

Essa proximidade pulou uma geração e chegou a Geísa da Luz, de 43 anos, filha de Cândido. A representante de medicamentos conta que virou a grande parceira do pai nos jogos do Grêmio. Quando engravidou, já sabia que o filho se chamaria Otto em homenagem ao avô, mas não previa que o esporte ganharia um papel pedagógico na vida da criança.


Do brinquedo à alfabetização pelas Copas

O envolvimento de Otto começou de forma sutil com os "cabeçudinhos", uma coleção de bonecos inspiradas no youtuber Enaldinho e em temas como a Copa do Mundo. Ao brincar, ele passou a se interessar pelas bandeiras dos países dos personagens. Percebendo o entusiasmo, o avô entrou em campo com seu acervo particular de obras esportivas. 

O hábito se tornou o principal estímulo para a alfabetização. Ainda na pré-escola, Otto aprendeu a ler decifrando o nome dos jogadores nos textos. Em paralelo, a memória visual se desenvolveu enquanto ele pintava as bandeiras das 48 seleções em um livro didático, diferenciando detalhes que confundem os adultos, como as listras da Bélgica e da Alemanha.

Otto da Luz, 5 anosFoto: Vinicius Becker (Diário)

A curiosidade atingiu o ápice com o álbum de figurinhas da Copa. A ansiedade era tanta que, no dia do lançamento, em 30 de abril, o avô garantiu o livro e os primeiros pacotinhos. A mãe, chegando de viagem, trouxe mais dez. Foram 30 pacotes só no primeiro dia, iniciando uma rotina de trocas em shoppings para completar as páginas. Agora, Otto decidiu dar o seu próprio toque ao torneio. No sofá de casa, ele começou a produzir um álbum da Copa autoral, desenhando os jogadores à mão e colando as produções nas páginas.

Encantada com a desenvoltura do filho, Geísa passou a filmar os comentários dele. Hoje, o menino grava vídeos detalhados para a internet contando curiosidades históricas dos mundiais, analisando lances e ditando escalações. O conteúdo é restrito para amigos e familiares, mas exibe o talento do pequeno torcedor, que imita até os trejeitos e o "obrigado" final do técnico Carlo Ancelotti. O avô coruja acompanha cada passo de perto:

– O amor pelo futebol vem desde a infância, pelos meus pais, e ver isso nele agora é o que eu quero transmitir. Eu ensino, dou orientação, dou dicas sobre futebol e jogadores. Quem sabe ele venha a ser um jornalista também.


Do tatame para os gramados: o sonho de jogar a Copa

Essa dedicação moldou os interesses físicos de Otto. Aos 3 anos, ele praticava taekwondo por incentivo da mãe, já que as escolinhas de futebol de Santa Maria exigiam a idade mínima de 5 anos. Assim que completou o aniversário em fevereiro, o menino migrou para a escola do Grêmio e deixou a arte marcial de lado. 

Ao Diário, a mãe revela que o incentivo ao esporte vai muito além do sonho dos gramados:

Otto da Luz, 5 anosFoto: Vinicius Becker (Diário)

– Eu sempre fiz questão que ele praticasse esporte, tanto pela questão da disciplina quanto pela saúde. O esporte desenvolve muito o foco da criança. E, no caso dele, as histórias da Copa ajudaram muito, estimularam a curiosidade e fizeram muito bem para o crescimento.

A rotina diária acompanha de perto a tabela de classificação. Quando não consegue assistir aos jogos mais tardios da noite, a busca começa logo ao amanhecer. Ele usa o celular da mãe para perguntar os resultados ao assistente de voz do Google e faz questão de anotar tudo na sua tabela de papel, conferindo quem marcou cada gol. Para o pequeno torcedor, o sonho do Hexa já tem roteiro definido:

– Vai ser dois a dois entre Brasil e França na final, e vai para a "turrungação" [prorrogação]. Aí o Brasil ganha nos pênaltis com gol do Neymar! E eu já tô guardando moedas no meu cofrinho da sala para ir com a mãe e com o vô assistir ao jogo de cem anos da Copa lá no Uruguai – planeja o garoto, lembrando da edição centenária que descobriu em suas pesquisas no YouTube, prevista para acontecer em 2030. 

Otto da Luz, 5 anosFoto: Vinicius Becker (Diário)

Enquanto a competição atual se encaminha para a reta final, o cofrinho cheio de moedas na sala e a promessa da viagem mostram que o laço criado em torno do futebol continua firme, unindo o passado de São Gabriel ao que vem pela frente. Mas, para Otto, assistir ainda é pouco. Agora, os treinos de terças e sextas na escolinha alimentam um plano muito maior: calçar as chuteiras e, um dia, jogar em uma Copa do Mundo de verdade.

Carregando matéria

Conteúdo exclusivo!

Somente assinantes podem visualizar este conteúdo

clique aqui para verificar os planos disponíveis

Já sou assinante

clique aqui para efetuar o login

POR

Vitória Sarturi

Para manter vivo o sonho do hexa, seleção brasileira encara Noruega neste domingo Anterior

Para manter vivo o sonho do hexa, seleção brasileira encara Noruega neste domingo

Fifa mantém horário de partida Brasil e Noruega após cogitar mudança por razões climáticas Próximo

Fifa mantém horário de partida Brasil e Noruega após cogitar mudança por razões climáticas

Esportes